Hoje, seguia eu no carro, numa faixa com prioridade, quando
um condutor aproveitou o facto de eu circular a baixa velocidade para entrar na
faixa sem a minha permissão, não sem antes me agradecer, com toda a amabilidade.
Inicialmente pensei “Olha que lata que este indivíduo tem, utilizando
uma norma da boa educação como atenuante para o desrespeito de uma norma de
trânsito”.
(Na verdade, não pensei isto tudo, pensei só “Estúpido,
palerma!”.)
Mas, depois de uma análise mais cuidada, pensei “Olha que isto
de utilizar uma norma da boa educação como atenuante para o desrespeito de uma norma
de trânsito até tem algum potencial”.
(Na verdade, não pensei isto tudo, pensei só “Este gajo até é esperto”.)
Dei por mim a pensar que agradecer ou pedir desculpa são gestos com mais
poder do que imaginamos. Acho que, se houver educação, podes fazer tudo o que te apetece. Até explodir o planeta.
Sair do café sem pagar
O prevaricador dirige-se ao balcão e diz “Obrigado por este
serviço inestimável, prestado, não só a mim, como à sociedade. Espaços como estes
tornam muito mais agradável a vida nesta cidade”. Depois, foge do local, sem pagar.
Depois de um acidente de viação
Um condutor culpado por um acidente dirige-se ao outro condutor e diz “Amigo, dê-me um abraço e aceite as minhas desculpas, uma vez que fui incauto e prejudiquei alguém cuja envergadura moral e a verticalidade acima de qualquer suspeita ilibam de qualquer responsabilidade no sucedido”. Feito isto, o condutor culpado foge do local.
Um assalto
O ladrão chega, abraça a vítima e diz “Muito, muito
obrigado. Do coração. Mesmo”, rouba a carteira (neste caso, talvez a expressão “subtrai
a carteira” se aplique melhor ao acto, uma vez que envolve educação) e foge do
local.
Uma criança parte um vidro a jogar à bola
Antes do jogo, o pai de uma criança toca à campainha do vizinho
e diz “Quero agradecer, em nome de toda a comunidade, o contributo que tem dado
à nossa vida colectiva e o facto de deixar os nossos filhos jogarem à bola
junto da sua janela. Antecipadamente, peço desculpa, caso o meu filho parta o
seu vidro. Será um acto inadvertido e surgirá como resultado de ele ser um jogador
dotado de um forte remate”.
(Este caso tem a particularidade de recorrer previamente ao
agradecimento e ao pedido de desculpa.)
Um político vai aumentar os impostos
“Peço imensa desculpa, é com grande tristeza que anuncio que
tenho que aumentar o IRS, o IVA e criar um imposto sobre a existência, que é um
montante que os cidadãos têm que pagar pelo desgaste do planeta. Nem sabem o
que me custa, sobretudo porque vocês são cidadãos exemplares que, nas
próximas eleições, vão decidir o meu futuro.”
Pensando bem, não estou a ser muito original, uma vez que o
último caso acontece com demasiada frequência.