O sr. Ferreira estava sempre actualizado, no campo da
tecnologia. Tinha o telemóvel mais recente, com o cartão de memória com mais
capacidade, embora apenas ocupasse 900 MB de um cartão de 128 GB.
“Posso precisar de armazenar umas coisas e preciso de
espaço.”
Nessa mesma lógica, o sr. Ferreira tinha uma carrinha de
nove lugares, para ele e para a esposa.
“Nunca se sabe se, um dia, teremos que evacuar o prédio,
devido a um ataque dos russos.”
O sr. Ferreira tinha blogue, Facebook, Twitter e Instagram.
“O blogue é para partilhar com o Mundo as minhas teorias
sobre a forma como os americanos nos manipulam e como vamos entrar numa nova
Guerra Fria, mas menos fria, que há aí muita bomba para gastar. O Facebook é
para encontrar amigos e ver umas gajas. O Instagram é só para ver umas gajas,
que elas lá metem fotos em que estão mesmo boas. O Twitter é uma merda,
porque não consigo escrever mais do que duas frases.”
A primeira publicação do sr. Ferreira no Twitter foi: “Eu
gosto dos vinhos do Douro e os do Alentejo também são bons. Com os vinhos
verdes já tenho mais cuidado, porque se beber muito fico de cag”.
Teve 89 partilhas. O primeiro sucesso do sr. Ferreira nas
redes sociais.
Este aficionado da tecnologia tem uma máquina fotográfica
profissional. Mas as melhores fotografias que tirou foram com o telemóvel.
“Ainda não me dediquei à máquina fotográfica. O material é
bom mas exige paciência. Olhe, é como a minha mulher.”
O sr. Ferreira é um romântico.
Tem várias aplicações no telemóvel. "O meu telemóvel é uma espécie de canivete suíço: dá para tudo. Mas eu só uso o corta-unhas, porque foi o meu neto que instalou as aplicações e eu não ligo muito a isso. Excepto uma: ele instalou uma aplicação que faz o telefone tocar como um sino, sempre que abre a Bolsa de Tóquio. Ou seja, cá é de madrugada. Não sei como desligar aquilo."
Um dia, o sr. Ferreira estava no café, com o computador, o tablet e o
telemóvel ligados à net. Segundo ele, a net estava a substituir a vida real,
porque era mais divertida. Estava a ler as notícias, a consultar o e-mail e a
sacar uns filmes (alguns dos quais eram pornográficos), quando uma mulher
extraordinariamente bela passa do outro lado da rua. O sr. Ferreira, por
momentos, esquece o que estava a fazer. O Martins entra no café e faz uma
pergunta.
- Oh Ferreira, qual é a pass da net?
- Que se f*#& a net. Olha
para ali.