quarta-feira, 3 de setembro de 2014

De quem era a culpa?

Um amigo alertou-me para um mistério que ninguém resolveu. No tempo em que a emissão da televisão falhava, era-nos dito que tal tinha acontecido por motivos que eram alheios ao canal de televisão. Pois bem, então quem eram os responsáveis pelas falhas?

Marcelo Rebelo de Sousa não sabe. Nuno Rogeiro não sabe. Marques Mendes sabe, mas não quer dizer. Pacheco Pereira anda há muito a dizer quem eram os responsáveis, mas ninguém lhe deu ouvidos.

Decidi investigar esta questão com a dedicação que ela merecia. Primeiro, falei com o pessoal que apresentava os programas de televisão. O que me disseram foi que apenas leram o que estava no teleponto.

Falei, também, com o pessoal que trabalhava na “régie” das televisões. Mas este pessoal está sempre a controlar o que aparece em 250 ecrãs e a dar indicações para o pessoal do estúdio. Ninguém falou comigo. Mentira: um senhor falou, mas foi para me pedir que saísse da frente de um ecrã.

Procurei os directores de programas daquele tempo. Estavam todos a ver “reality shows” manhosos e disseram-me que a parte técnica não era com eles. Um deles acrescentou que, se eu conhecesse alguém que quisesse entrar num programa que seria uma espécie de "Master Chef", mas para mecânicos, podia indicar essa pessoa.

Depois, falei com os gajos responsáveis pelos transmissores. Disseram-me que não sabiam de nada, porque a única coisa que eles tinham que fazer era manter a corrente nos aparelhos. Tanto quanto soube, uma ou outra vez, a corrente esteve quase a falhar, porque estava a dar o Benfica na televisão e eles distraíram-se, mas não houve problemas. Contaram-me, também, que o Venâncio, uma vez, chegou bêbado ao trabalho, porque vinha de um casamento do primo, mas deixaram outro funcionário a tomar conta dele e a corrente não falhou. No fim, indicaram-me uma fonte que sabia de algumas coisas.

Era um indivíduo especialista em questões relacionadas com OVNI’s. O que ele me disse foi que havia visitas regulares de seres extra-terrestres que cortavam deliberadamente a emissão, quando achavam que esta faria mal aos seres humanos. Depois, perceberam que toda a televisão nos fazia mal, e concluíram que tinham que cortar a emissão para sempre. Como isso dava muito trabalho, desistiram. Esta fonte indicou-me um extra-terrestre com quem eu devia falar.

Fui ter com ele, a uma nave que está escondida no meio de uma floresta. Depois disso, não me lembro de nada.

Conclusão: não descobri a verdade, por motivos que me são alheios.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

As fotografias que interessam

Um pirata informático roubou fotografias intímas a um grupo de celebridades e publicou tudo na Internet. Acho muito mal. Sobretudo, porque isto é um desperdício de recursos. É fixe ver mulheres bonitas nuas, mas não teremos já nudez que chegue, na Internet?

O que era realmente espectacular era roubar a base de dados onde estão aquelas fotos bonitas/motivacionais que toda a gente publica no Facebook.

Como seria divertido poder navegar entre milhares de fotografias de gatinhos bebés, sobre as quais poderíamos escrever ditos sobre o amor, a amizade ou o processo de extracção de petróleo.

Ter uma fotografia com um tigre bebé protegido por uma tigresa, e poder escrever uma mensagem sobre quais os materiais mais adequados para um bom isolamento térmico.

“A mamã do tigre protege-o das ameaças. Este material protege a sua casa do calor.”

Porque não termos uma base de dados gigantesca com o pôr-do-sol em diferentes partes do Mundo, para podermos dissertar sobre como temos saudade daquela pessoa?

“O sol vai e volta. Volta você também deveria voltar.”

Isto sim, seriam fotografias que correriam a Internet em menos de 25 segundos e 29 centésimos. Agora, mulheres nuas? Só porque são famosas, não justifica. Nós temos a nudez em todo o lado, na Internet. E sabemos como encontrá-la.

E que tal uma base de dados só de fotografias motivacionais? Uma estrada, um felino, uma pessoa a puxar algo pesado, a subir uma montanha ou a partir uma parede, tudo acompanhado por frases sobre não desistir, sobre ter coragem ou sobre conhecer todos os códigos postais do país.

As pessoas que precisam de publicar ditos motivacionais no Facebook têm um problema: publicam a fotografia, ficam motivadas, depois vêm dois vídeos engraçados, fazem “gosto” em oito publicações, iniciam umas quantas conversas no “chat” e ficam desmotivadas.

Acho que vou fazer t-shirts com estas fotografias motivacionais. Mas, voltamos ao mesmo: arranjem lá uma base de dados disto. 

Pensando bem, continuem a arranjar fotografias de celebridades nuas. Só naquela.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O espião no centro de emprego

E se um espião fosse a um centro de emprego?

 - Vou precisar do cartão do cidadão. – Diz o funcionário.
- Aqui está. – Responde o espião.
- É a primeira inscrição?
- É.
- Formação?
- Tenho um Mestrado em História.
- Carta de condução?
- Sim.
- Viatura própria?
- Sim.
- Espere só um bocadinho, o sistema hoje está sempre a encravar… Encravou mesmo. Vamos ter que começar de novo…
- Não faz mal. Mas, em vez do outro, use este cartão do cidadão.
- É a primeira inscrição?
- Não.
- Formação?
- Tenho um Doutoramento em Física Quântica.
- Carta de condução?
- Não, mas tenho licença para pilotar helicópteros. Desloco-me regularmente num.
- Que engraçado, nunca ninguém me tinha dito isso. Eh pá, não acredito, o sistema encravou outra vez. Vamos ter que recomeçar.
 - Vou usar este cartão do cidadão. Com este, eu sou Engenheiro Informático. Deixe-me ir aí.

O espião troca de lugar com o funcionário do centro de emprego e resolve o problema informático. Depois, resolve mudar de personagem.

- Tenho aqui um cartão do cidadão em que sou funcionário de um centro de emprego. É a sua primeira inscrição?

- Peço desculpa, mas o funcionário aqui sou eu.

- Ou o senhor se comporta como deve ser ou vou ter que o pôr lá fora.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Conversa partilhada

Houve um tempo em que viajei diariamente de comboio. Nessa fase, conheci diversos tipos de personagens. Uma delas era o “homem que partilha conversas”.

Esta personagem caracteriza-se por falar ao telefone com recato, quando ninguém está por perto, e falar bem alto, quando existe um público. É quando sente que as pessoas começam a prestar atenção à conversa que a mente do “homem que partilha conversas” se torna semelhante à de um especialista em artes performativas.

Ou de um especialista em tudo, visto que ele aborda diversas temáticas. Vou representar o tipo de afirmações que esta personagem profere.

“Sabes que eu tenho muita experiência nisso, sou um profissional da engenharia há trinta anos. Eu estive para projectar a ponte Vasco da Gama. Não fui eu porque, na altura, fui de férias para Benidorm.”

(As pessoas começam a rir da situação.)

“Sabes que eu estou por dentro desse assunto, porque tenho um amigo que trabalha nessa área. Eu falei com ele, até porque tivemos um jantar… foi tudo à grande, pra cima de 50 euros. No fim, ainda íamos às gajas, mas ele viajava no dia seguinte.”

(As pessoas sentem alguma vergonha alheia.)

“Acabei por ir às gajas sozinho.”

(As pessoas aumentam o nível de vergonha alheia.)

“Comprei um carro clássico, ainda gastei 50 mil na brincadeira. Mas o carro tem a minha pinta. Sabes que eu também sou clássico. As gajas novas ainda olham para mim.”

(Uma miúda começa a vomitar, no fim da carruagem.)

“Estou em viagem, vou de comboio… É, gosto de vir de comboio, acaba por ser um passeio. Mas posso falar, que ninguém está a ouvir.”

(O homem olha em volta, para confirmar. Nesse momento, toda a gente olha para o lado e faz de conta que não está a ouvir.)

“Olha, precisava de um favor daqueles que a gente sabe. Não, posso falar à vontade, ninguém está a ouvir. Era, era, precisava aí de um biscate. Oh pá, já sabes que eu trato bem as pessoas.”

(O homem é o único a pensar que está a falar em código. Toda a gente percebe que ele está a pedir algo obscuro. Mas ele resolve ser mais claro.)

“Claro, já sabes que eu trato bem as pessoas. Eh eh eh!”

(A miúda recomeça a vomitar.)

Perto da última estação, o homem prepara-se para terminar a chamada.

“Olha, tenho que desligar, vou chegar à estação e aquilo tem muita gente, não é sítio para falar.”

Mais vergonha alheia.

O único cuidado a ter com este tipo de pessoa é não lhe ligar. Pelo menos, se ela estiver num transporte público.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Inteligência aumentada

Já sabemos que os barbeiros e os taxistas sabem tudo. Imperativos profissionais. Porém, há uma situação em que os homens sabem tudo (as mulheres também saberão, certamente, mas só tenho memória de ter observado a situação acontecer com pessoas do sexo masculino): os homens sabem tudo quando estão a assar qualquer coisa.

No momento em que assume o churrasco, o homem mistura Einstein com Aristóteles, Winston Churchill com Sun-Tzu, Saramago com Jorge Jesus.

(Uns pensarão que Jorge Jesus está a mais, neste restrito grupo de notáveis, outros considerarão que ele é o único notável do grupo. Eu podia ter escolhido José Mourinho, mas achei que Jorge Jesus combinava melhor com Saramago, no campo da palavra.)

Um homem pode ser relativamente ignorante. Um pouco saloio. Moderadamente estúpido. Mas assim que se aproxima de um assador, “bota lume” e começa a assar, a sua capacidade intelectual multiplica-se por 322. Testem, perguntem, atirem-lhe cerveja.

- Qual é o sentido da vida?

- Essa é uma pergunta cuja resposta abarca uma tal diversidade de disciplinas, físicas e metafísicas, que o tempo deste assado revelar-se-ia um pequeno grão de areia, nesse deserto que são as dúvidas e os anseios da vivência humana.

Pumba. Isto enquanto vira duas febras.

- Qual é a terceira lei de Newton?

- A lei do par Acção-Reacção diz que quando um corpo A exerce uma força sobre um corpo B, o corpo B exerce, sobre o corpo A, uma força de igual intensidade, mas de sentido contrário.

Pumba, isto enquanto bebe um pouco de cerveja e coça os testículos.

- Qual é a raiz quadrada de 144?

- 12.

- E de 432904890348?

- F***-se, achas que eu sou uma p*** duma calculadora?

Calma, a inteligência multiplica-se por 322, mas se ele se queimar, a fúria aumenta 150 vezes.

Não sei qual a explicação científica, mas um homem a fazer um churrasco assume uma clarividência digna dos deuses. Imaginem como ficará Marcelo Rebelo de Sousa a fazer um churrasco.

E as pessoas que trabalham em churrasqueiras? Calma, como são sobreexpostas ao efeito, este dilui-se com o tempo. A Natureza tende sempre para o equilíbrio.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Pessoas que concordam com tudo

Acho piada a pessoas que concordam com facilidade. É um sistema que elas possuem que torna o pensamento tão maleável como a água. Tão adaptado como uma barata. (Em alguns casos, mais repugnante que a própria barata, visto que essas pessoas não tem opinião sobre coisa nenhuma.)

Acho piada. Um gajo diz: “Isto do Médio Oriente é complicado, mas os israelitas têm que se defender”. A resposta é: “Realmente, eles têm que se safar, ali no meio”. Um gajo diz: “Isto do Médio Oriente é complicado, mas os palestinianos são massacrados”. A resposta é: “Realmente, é uma injustiça”. Um gajo diz: “Isto do Médio Oriente é complicado, mas o PSI-20 vai descer ligeiramente”. A resposta é: Realmente… realmente”.

As pessoas que concordam com tudo acompanham qualquer coisa que um gajo diga. Se um gajo lhes perguntar a opinião, sem ter dito ainda a sua, estas pessoas começam a patinar, porque ainda não têm algo com que concordar. Uma vez, uma destas pessoas usou o truque do “Olha um dinossauro!”: olhei para trás, porque convém sempre ter cuidado com um T-Rex que possa aparecer, e quando voltei a olhar para a frente, a pessoa já lá não estava.

Eu sei que poderá parecer que eu fui estúpido, por ter acreditado na possibilidade de estar a aproximar-se um dinossauro, mas queria ver se fossem vocês. É que ser dilacerado por um réptil gigante estará entre as três coisas mais desagradáveis do Mundo, ao lado de ouvir um álbum da Katie Perry e de conversar com alguém que diz “realmente” em todas as frases.

As pessoas que concordam facilmente são como aqueles pássaros que voam em bando. A diferença é que estas pessoas não têm asas, pelo que voam a partir do chão.

Testem a capacidade de concordar que elas têm. É um recurso inesgotável.

“A gravidade é opcional.”
“Pois é.”

“Não acredito que o Homem foi à Lua.”
“Aquilo foi encenado.”

“Eu estou ao nível de um Aristóteles, no que respeita ao pensamento filosófico.”
“Até poderás estar um pouco acima.”

(Neste caso, a pessoa quase discorda, mas é para reforçar a nossa espectacularidade.)

As pessoas que estão sempre de acordo são quase como um espelho. Quase, porque o espelho acaba por ser mais útil.

PS: eu estou genericamente de acordo com este texto.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Eu não sei andar de bicicleta

Saber andar de bicicleta era a segunda habilidade que eu mais gostava de ter. A primeira era saber treinar equipas de voleibol. Mais propriamente, equipas femininas. Se possível, tentaria ter sucesso também desportivamente.

Mas era fixe saber andar de bicicleta. Em miúdo tentei, mas aquilo parecia-me tão difícil como deslocar-me entre dois arranha-céus, por cima de uma corda, tentando segurar quinze pratos numa mão e um gira-discos na outra (com um disco do Demis Roussos a tocar).

Por isso, depois de alguns dias a tentar aprender a andar de bicicleta, desisti e procurei passar o meu tempo com algo mais fácil: Astrofísica.

Hoje, andar de bicicleta está na moda. Como não sei andar, posso sempre dizer que “andar de bicicleta está muito batido”, que é o que fazem as pessoas aborrecidas quando alguém ou alguma coisa atingem algum sucesso.

(Neste ponto do texto, reparo que tenho uma certa tendência para escrever “bicilceta”. Deve ser por ser uma palavra complicada e não por eu ser estúpido.)

O conceito das rodinhas nas bicicletas fascina-me. E se existisse um dispositivo de lógica semelhante para nos ajudar a caminhar, quando bebemos um copo a mais? E se existissem rodinhas para as crianças, quando estão a aprender a andar? E se existissem umas rodinhas para aqueles jogadores de futebol muito fracos?

Cada vez há mais especialistas no mundo das bicicletas. Os capacetes são muito profissionais, as bicicletas têm tracção às quatro, jantes de liga leve, gps, abs e yhgjkft.

(Este último pode não existir.)

Os ciclistas dos tempos modernos têm tanto equipamento que alguns chegam a comprar outra bicicleta só para o transportar.

Fazem percursos difíceis, que implicam grande risco de lesão. Não pela possibilidade de quedas, mas porque são monótonos e alguns ciclistas adormecem.

Podíamos arranjar um sistema para produzir electricidade a partir dos movimentos das pedaleiras. Mas, talvez, só teríamos produção de electricidade ao Domingo de manhã.

Apesar de tudo, eu acho que andar de bicicleta é fácil. Desde que o planeta esteja quieto, o que, segundo Galileu, é pouco provável.

Tenho pena de não saber andar de bicicleta. Em compensação, nunca caí a descer o monte.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Resolver tudo com xadrez

Nos primórdios da nossa espécie, as divergências resolviam-se à chapada. No tempo dos cavaleiros, as divergências resolviam-se com uma espada. No tempo dos cowboys, era com uma pistola. Hoje, existem armas de destruição massiva prontas a ser usadas.

Como já deu para perceber, por esta sequência, que isto vai acabar mal, proponho uma nova forma de actuar. Seja em conflitos pessoas ou entre países, o ideal seria resolver tudo num jogo de xadrez.

Logo a começar, iria melhorar a capacidade de raciocínio da generalidade da população. Estão a ver aquele ser rudimentar, incapaz de articular uma frase com conteúdo, que passa mais tempo a coçar os testículos do que a processar informação, a resolver um atrito com uma “abertura de dois cavalos”, à qual o seu adversário responderia com uma “defesa francesa”.

Imaginem dois gajos bêbados que se chateiam numa discoteca. Em vez de saírem para a rua e andarem à chapada, combinam um jogo de xadrez para o dia seguinte. E vão passar oito horas a resolver a contenda, em vez de dois minutos de pancadaria em que se perderia sangue e alguns dentes.

Imaginem que a Coreia do Norte decidia atacar todos os países do Mundo, excepto a China, Cuba, o Laos e o Vietname (no fundo, os países preferidos do Partido Comunista Português). Em vez de desatar a lançar mísseis para todo o lado, marcava vários jogos de xadrez.

Para aumentar a espectacularidade daquela espécie de guerra, os jogos seriam transmitidos na televisão. Claro que teríamos que adaptar o jogo: o jogador da Coreia do Norte, uma vez que era comunista, não tinha rei nem rainha, só tinha peões e cavalos.

No futebol, poderia ser uma forma de desempate. Em vez dos penalties, que toda a gente diz que são uma lotaria, colocaríamos os dois treinadores numa partida de xadrez. Claro que José Mourinho conseguiria ter peças super-motivadas e conseguiria transformar peças de damas em peças de xadrez. Já Jorge Jesus passaria o tempo todo a gritar com as peças e a chamar-lhes nomes.

Para isto resultar, teria que ser implementado nas escolas. Dois miúdos que se chateassem já não andariam à chapada no intervalo ou às 18h30 no portão da escola. Iriam para uma sala, jogar xadrez.

Para além de esta prática diminuir a violência, teria a vantagem de, pela concentração que o jogo exige, ajudar a calar aquelas pessoas que, em discussões, dizem o dobro das asneiras que costumam dizer em conversas tranquilas.

Acho que esta medida poderia tornar o Mundo melhor. Quem não concorda merecia duas chapadas.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O meu truque favorito

O meu truque favorito de ilusionismo seria aquele que fizesse desaparecer as pessoas que estão sempre a dizer que o ilusionismo é um truque. Estas pessoas conseguem três feitos notáveis num só momento: perceber o óbvio, dizer o óbvio e estragar o momento.

É como quando alguém diz alguma coisa constrangedora e, em vez de ser guardado um precioso silêncio para que se possa avançar aquele momento triste, há outra pessoa que diz “Eeeeeeeeeeeeeei!”. Nestas alturas, tem que existir um silêncio suplementar, desta vez para anular o “Eeeeeeeeeeeeeei!”.

Podiam fazer desaparecer as pessoas que desvalorizam o ilusionismo. A elas e às pessoas que param os carros em todo o lado (neste último caso, teriam que fazer desaparecer também o carro, mas o David Copperfield fez desaparecer um avião, por isso…).

Pessoas que desvalorizam o ilusionismo são mais aborrecidas do que uma comissão parlamentar de inquérito em que se discuta a nomeação de pessoas para comissões parlamentares de inquérito em que se debata a distribuição dos lugares nas comissões parlamentares de inquérito.

Estas comissões não existem, mas inventei para dar uma ideia. É como os ilusionistas: inventam coisas que fazem pensar quem respeita aquela arte. Já para as pessoas que desvalorizam constantemente o ilusionismo, é tudo fácil.

Uma pessoa é serrada a meio, numa caixa, e volta a aparecer inteira, como se nada fosse. Para uns, será sempre espectacular (mais não seja, pelas assistentes, que são, por regra, bastante jeitosas). Para as pessoas que desvalorizam o ilusionismo, há sempre uma explicação.

“Ah, ela encolheu as pernas”, “Ah, é um truque de espelhos”, “Ah, é um buraco no espaço-tempo”, "Ah, é...". Esta última representa as pessoas que desvalorizam o ilusionismo mas, ao mesmo tempo, são desprovidas de imaginação.

Estas pessoas têm, geralmente, um buraco no espaço-tempo cerebral. Por isso é que veem o David Copperfield a atravessar a Muralha da China e dizem “ah, ele não passou mesmo”. Só o acto de negar que ele passou implica que alguma percentagem daquela mente, ainda que muito reduzida, acreditou que fosse possível passar.

É como aquelas pessoas que ouvem falar das mais absurdas teorias da conspiração e que, nos primeiros quinze segundos, acreditam. Só quando a consciência volta ao controlo é que percebem que o que ouviram não faz qualquer sentido.

Ou aquelas pessoas a quem dizemos "vou mandar-te um elefante e um saco cheio de notas por e-mail" e que respondem "agora estou sem bateria, mas em casa vejo isso".

Os ilusionistas, caso algumas pessoas não tenham reparado, criam ilusões. E vivem disso. Como diz o Joker, num dos filmes do Batman, “se és bom numa coisa, não a faças de borla”. Os ilusionistas são bons a enganar-nos e ganham dinheiro com isso.

Agora que penso nisso, muitas profissões encaixam nesta descrição.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

As festas são sempre iguais

Nunca ficaram com a sensação de que todos os jantares de amigos, seguidos de diversão nocturna, têm um guião já escrito e que será cumprido à risca? Tal como os orçamentos do Estado. Esperem, não era este o exemplo. Era “tal como os concursos públicos”: já está tudo decidido, ainda antes da decisão.

Há sempre um amigo que come desmesuradamente. Come tanto que pede entradas antes das entradas. Esse amigo tem, geralmente, a barriga tão grande que fica sempre duas mesas atrás. Perdemos na possibilidade de conversar com ele, mas ganhamos quando ele se peida.

A comida é sempre lombinhos com “champignon”. Ainda bem, porque eu detesto cogumelos. Mas é sempre a mesma comida. É como as eleições em Portugal: por muito que escolhas, acabas sempre a comer a mesma merda. O vinho é como o dinheiro disponibilizado para obras públicas: nunca chega.

Aliás, o teu orçamento sofre sempre derrapagens. Não é a única derrapagem da noite, uma vez que, à medida que a noite avança, a tua aderência ao piso começa a ser mais fraca.

Os homens só se portam bem à mesa quando há um jantar de mulheres, na mesa do lado. Chegam a perder a cabeça, em questões de bom comportamento. Diz-se que há homens que chegam a usar talheres.

Depois, vai tudo para uma discoteca. Há montes de pessoas alcoolizadas. São todas muito agradáveis. Sobretudo, quando desmaiam. Há muitos encontrões. Gosto de andar aos encontrões, principalmente, aos bêbados que ainda não desmaiaram.

A música é contagiante e obriga-nos a dançar. Está tão alta que mexemos só com a vibração.

Os rituais de acasalamento são bonitos, mas têm um problema: os seguranças interrompem sempre a pancadaria entre machos-alfa.

Tenho um amigo que diz que os preços da noite são proibitivos. É mentira: podes beber o que quiseres. O máximo que pode acontecer é não teres dinheiro para pagar. Mas, antes, bebeste tudo o que querias…

A noite tem muito estilo. Há roupas que só podem ser usadas numa discoteca. Porque está escuro. Há mulheres que usam vestidos demasiado curtos e passam a noite a segurar neles. Tentar ser sexy a segurar permanentemente o vestido tem o mesmo resultado que tentar acelerar carregando no travão.

No fim da noite, houve peripécias, mas foi tudo exactamente igual às outras noites em que houve peripécias. Tu não reparas no padrão, nas 24 horas seguintes, que é o tempo de que precisas para que o teu cérebro volte a funcionar.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Diz as coisas como deve ser

Nunca pensaram que o Mundo era bem mais divertido se comunicássemos como as crianças, quando têm algo desagradável para nos dizer.

Imaginem o Ministro das Finanças de mãos atrás das costas, a rodar o tronco de um lado para o outro, a evitar olhar para o Primeiro-Ministro e a dizer: “O défice estragou-se. Não fui eu!”. A política era diferente, com certeza.

Alguém batia com o carro do pai e, ao chegar a casa, dava-se este diálogo:
- Pai, um elefante passou a correr pelo teu carro e estragou-o!
- E como é que ele ficou?
- O carro?
- Não, o elefante, filho!
- Ficou bem.

O Mundo era bem mais divertido.

Um treinador de futebol chegava à conferência de imprensa, cruzava os braços, fazia beicinho e dizia: “A minha equipa não joga nada”. A seguir, os adeptos davam-lhe um abraço e ficava tudo bem.

O Mundo era bem mais divertido.

Um gajo chegava ao pé da namorada e ela dizia: “Esqueceste-te do nosso aniversário!”. Ele abria os braços e dizia: “Estava a fazer de conta! Xaraaaam!”.

O Mundo era bem mais divertido.

E estúpido.

Um polícia mandava um condutor parar. Verificava os documentos e faltava alguma coisa. O condutor dizia: “Foi um bicho que roubou!!!”. Imediatamente, o polícia entra no carro e avisa todas as unidades: “Atenção, estamos à procura de um bicho com uma carta verde do seguro!”.

O Mundo era bem mais divertido.

Um empresário tinha que despedir um funcionário. Chamava-o e dizia: "Vamos jogar um jogo. Tens que procurar um gato verde fluorescente, pelo Mundo inteiro, e trazê-lo. Até lá, não vens trabalhar e não recebes". E o funcionário ia à procura, para sempre.

Neste caso, o Mundo seria igual, porque se usam desculpas bem piores para despedir funcionários.

Imaginem que os nossos líderes, políticos ou económicos, falavam à população como se nós fôssemos crianças?

Espera lá…

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A felicidade é complicada

Pelo menos, na fórmula que um grupo de cientistas apontou como aquela que nos revela o caminho certo para se ser feliz. O estudo tem o aborrecido nome de “Um modelo neuronal e computacional para um momento subjetivo de felicidade”.

É nisto que os cientistas podem irritar-nos. Se o tema do estudo é a felicidade, arranjem um título divertido. Algo como “Um modelo espectacular para te sentires bué altamente”. Ou “Um modelo… yupi!!!”. Algo que mostre que, por momentos, vocês saíram da pele de cientistas.

(Tentem que o título não revele que vocês ingeriram felicidade, no estado sólido, líquido ou gasoso).

O estudo colocou os participantes num jogo com recompensas monetárias e tentou medir as respostas aos estímulos. Ficou demonstrado que, quando mais tempo passa sobre um momento, menos ele contribui para a nossa felicidade. E que a expectativa está directamente relacionada com a felicidade.

No primeiro caso, dá para perceber: o nosso clube de futebol pode ter sido campeão no ano anterior, que isso em nada contribui para a nossa felicidade. Só contribuirá se for campeão outra vez. Pelo menos, mais dez vezes.

E a expectativa também está sempre presente. Imaginem um gajo numa discoteca, em fim de noite, sendo que essa noite está a tornar-se cada vez mais deprimente. De repente, ele estabelece um contacto visual promissor com uma miúda (não interessa se é gira, o álcool, a partir de certa hora, só mostra miúdas giras). Num instante, a noite passa a ser espectacular. Tudo porque ele estava muito próximo de ir sozinho para casa e, de repente, há uma hipótese.

Ainda assim, olha-se para a fórmula da felicidade e percebem-se três coisas: a felicidade é impossível de atingir, porque a equação é impossível de resolver; se olhares mais do que dez segundos para aquela fórmula, transformas-te num carro velho, esquecido numa sucata (ou num matemático, o que é igual); aquilo é só uma maneira complicada de dizer o que já sabias, que é o mesmo que os políticos fazem, sempre que têm que justificar uma medida impopular.

O estudo envolveu 26 pessoas, a quem foi feito um “scan” cerebral, enquanto jogavam o dito jogo, no computador. Esse “scan” serviu de base para prever intervalos de padrões de felicidade de 18420 pessoas.

Dependendo da nacionalidade das 26 pessoas, digo eu, podemos ter diferentes resultados. Para um português, a felicidade é o seu clube de futebol ganhar. Para um brasileiro, é haver feijão e samba. Para um japonês, é haver um máquina fotográfica.

Houve um estudo, há alguns anos, que determinou que a Dinamarca era o país mais feliz do Mundo. Segundo o estudo, o segredo estava nas baixas expectativas. Ou seja, para um dinamarquês, se o sol nascer a Este e se puser a Oeste, já não é mau, porque tudo correu conforme o previsto.

Para mim, os dinamarqueses são felizes, fundamentalmente, porque vivem com dinamarquesas.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Não fui com a tua cara

Um estudo recente revelou que nós avaliamos pela cara a confiança que as pessoas nos merecem. É bom saber isso. É reconfortante. Anos e anos de desenvolvimento da Psicologia e da Sociologia, toneladas de conhecimento armazenadas em bibliotecas, com alguns dos especialistas soterrados pelos biliões de páginas escritas (não, não os salvem, eles gostam de lá estar!) e, no fim, avaliamos as pessoas pela cara.

Ainda bem. Pensemos em todos os políticos que foram trafulhas. E pensemos que, quando os elegemos, pensámos: “Parece ser sério. Inspira-me confiança”. Isto é muito bom!

Pensemos no burlão que nos disse que trocava as nossas notas velhas por notas à prova de um holocausto nuclear (sim, porque quando houver um, vai ser super-importante ter dinheiro que resista). Pensemos que ele era bem falante e que nos inspirou confiança. E que lhe demos todo o nosso dinheiro.

Não, não fomos estúpidos, o gajo é que apelou ao nosso lado bom.

E o Hitler? Discursava perante as massas, convenceu muita gente. Parecia ser um gajo porreiro, um gajo que qualquer um convidaria para jantar (desde que não lhe pedisse para pagar a conta, não fosse ele passar-se da cabeça).

Pronto, o bigode era um bocado ridículo, mas o pessoal foi com a cara dele, na mesma.

O estudo acrescenta que as pessoas com sobrancelhas altas e maçãs do rosto proeminentes são as que inspiram mais confiança.

Parece que estou a ouvir alguém dizer: “Aquele gajo disse-me que ganhei um prémio e tenho que o ir reclamar a um hotel. Acho que é vigarice mas, ao mesmo tempo, as maçãs do rosto dele não parecem mentir”.

Já viram se fosse o nariz grande a inspirar confiança? O Júlio Isidro era rei. E se fosse a barriga? Fernando Mendes ao poder. E se, nas mulheres, fossem as mamas? Havia meia dúzia de actrizes pornográficas que poderiam aspirar à Casa Branca.

(“Aspirar”, neste caso, é mesmo aspirar, seus indecentes.)

Acrescento que, quando estamos bêbados, toda a gente parece ter maçãs do rosto encantadoras.

A grande conclusão deste estudo é que, por mais que aprendamos sobre relações humanas, é pela cara que tiramos a pinta das pessoas. No fundo, somos como os cães: podem ensinar-nos a fazer xixi na rua, mas gostamos sempre de voltar àquele tapete velho.