Houve um tempo em que viajei
diariamente de comboio. Nessa fase, conheci diversos tipos de personagens. Uma
delas era o “homem que partilha conversas”.
Esta personagem caracteriza-se
por falar ao telefone com recato, quando ninguém está por perto, e falar bem
alto, quando existe um público. É quando sente que as pessoas começam a prestar
atenção à conversa que a mente do “homem que partilha conversas” se torna
semelhante à de um especialista em artes performativas.
Ou de um especialista em tudo,
visto que ele aborda diversas temáticas. Vou representar o tipo de afirmações
que esta personagem profere.
“Sabes que eu tenho muita
experiência nisso, sou um profissional da engenharia há trinta anos. Eu estive para projectar a ponte Vasco da Gama. Não fui eu porque, na altura, fui
de férias para Benidorm.”
(As pessoas começam a rir da
situação.)
“Sabes que eu estou por dentro
desse assunto, porque tenho um amigo que trabalha nessa área. Eu falei com ele,
até porque tivemos um jantar… foi tudo à grande, pra cima de 50 euros. No fim, ainda
íamos às gajas, mas ele viajava no dia seguinte.”
(As pessoas sentem alguma
vergonha alheia.)
“Acabei por ir às gajas sozinho.”
(As pessoas aumentam o nível de
vergonha alheia.)
“Comprei um carro clássico, ainda
gastei 50 mil na brincadeira. Mas o carro tem a minha pinta. Sabes que eu
também sou clássico. As gajas novas ainda olham para mim.”
(Uma miúda começa a vomitar, no
fim da carruagem.)
“Estou em viagem, vou de comboio…
É, gosto de vir de comboio, acaba por ser um passeio. Mas posso falar, que
ninguém está a ouvir.”
(O homem olha em volta, para
confirmar. Nesse momento, toda a gente olha para o lado e faz de conta que não
está a ouvir.)
“Olha, precisava de um favor
daqueles que a gente sabe. Não, posso falar à vontade, ninguém está a ouvir.
Era, era, precisava aí de um biscate. Oh pá, já sabes que eu trato bem as
pessoas.”
(O homem é o único a pensar que
está a falar em código. Toda a gente percebe que ele está a pedir algo obscuro.
Mas ele resolve ser mais claro.)
“Claro, já sabes que eu trato bem
as pessoas. Eh eh eh!”
(A miúda recomeça a vomitar.)
Perto da última estação, o homem
prepara-se para terminar a chamada.
“Olha, tenho que desligar, vou
chegar à estação e aquilo tem muita gente, não é sítio para falar.”
O único cuidado a ter com este tipo de pessoa é não lhe ligar. Pelo menos, se ela estiver num transporte público.