Saber andar de bicicleta era a segunda habilidade que eu mais gostava de
ter. A primeira era saber treinar equipas de voleibol. Mais propriamente,
equipas femininas. Se possível, tentaria ter sucesso também desportivamente.
Mas era fixe saber andar de bicicleta. Em miúdo tentei, mas
aquilo parecia-me tão difícil como deslocar-me entre dois arranha-céus, por
cima de uma corda, tentando segurar quinze pratos numa mão e um gira-discos
na outra (com um disco do Demis Roussos a tocar).
Por isso, depois de alguns dias a tentar aprender a andar de bicicleta,
desisti e procurei passar o meu tempo com algo mais fácil: Astrofísica.
Hoje, andar de bicicleta está na moda. Como não sei andar,
posso sempre dizer que “andar de bicicleta está muito batido”, que é o que
fazem as pessoas aborrecidas quando alguém ou alguma coisa atingem algum
sucesso.
(Neste ponto do texto, reparo que tenho uma certa tendência
para escrever “bicilceta”. Deve ser por ser uma palavra complicada e não por eu
ser estúpido.)
O conceito das rodinhas nas bicicletas fascina-me. E se existisse um
dispositivo de lógica semelhante para nos ajudar a caminhar, quando bebemos um
copo a mais? E se existissem rodinhas para as crianças, quando estão a aprender
a andar? E se existissem umas rodinhas para aqueles jogadores de futebol muito
fracos?
Cada vez há mais especialistas no mundo das bicicletas. Os capacetes
são muito profissionais, as bicicletas têm tracção às quatro, jantes de liga
leve, gps, abs e yhgjkft.
(Este último pode não existir.)
Os ciclistas dos tempos modernos têm tanto equipamento que
alguns chegam a comprar outra bicicleta só para o transportar.
Fazem percursos difíceis, que implicam grande risco de
lesão. Não pela possibilidade de quedas, mas porque são monótonos e alguns
ciclistas adormecem.
Podíamos arranjar um sistema para produzir electricidade a partir
dos movimentos das pedaleiras. Mas, talvez, só teríamos produção de
electricidade ao Domingo de manhã.
Apesar de tudo, eu acho que andar de bicicleta é fácil. Desde que o planeta esteja quieto, o que, segundo Galileu, é pouco provável.