Começo com uma
história verídica: uma vez, perguntaram a um amigo meu, que trabalhava numa
loja que vendia produtos tecnológicos, se a Internet fechava ao Domingo.
(Pausa para o leitor
se rir.)
(Pausa maior para o
leitor que ri mais tempo.)
E se a Internet
fechasse ao fim-de-semana? Para começar, não haveria Facebook ao fim-de-semana. Logo, eram
menos dois dias a receber convites para jogos espectaculares. Recuso
sempre esses convites: só aceito jogos que impliquem balear as pessoas que enviam
convites.
Também recebo muitos
convites para eventos. Vou a todos.
Depois, desligo o computador.
Eram menos dois dias a ver fotos de comida e copos. Há quem
fotografe tudo. Um amigo meu é assim. A parte boa é que ele não vai a
restaurantes, só a casas de “strip”.
Por falar em comida: sabem como fazer “facejacking” a um
vegetariano? Publiquem, através da conta dele, uma fotografia de umas papas de
sarrabulho.
Eram menos dois dias em que alguém nos identificava em
fotografias em que não aparecemos. Noutro dia, a dona de um bar de strip identificou-me. Não
percebi, uma vez que eu ainda nem tinha tirado a roupa.
Eram menos dois dias em que toda a gente partilharia a mesma
coisa. A expressão “viral” faz sentido: quando todos partilham o mesmo, nem
parece tão mau um surto de peste negra.
Eram menos dois dias a ver pessoas que usariam a
funcionalidade “a sentir-se qualquer coisa”, que permite criar uma novidade a partir do nada. Ou seja, a fazer o mesmo que 90% dos jornalistas.
Eram menos dois dias em que as pessoas comentariam tudo o que lhes aparecesse à frente. Os comentários
no Facebook são uma imbecilidade. Mas há pessoas que estão a melhorar, nesse
aspecto. Há quem já tenha descoberto que “você” não tem cedilha.
Eram menos dois dias em que toda a gente estaria no café a
brincar com o telemóvel. Hoje, é mais fácil contactar as pessoas através do
telemóvel do que falar pessoalmente com elas. Tenho uma amiga que é um exagero,
nesse aspecto. E ela ainda tem a lata de arranjar desculpas, como se viver na
Austrália fizesse alguma diferença.
Eram dois dias sem telemóveis no café. O que permitiria aproximar as pessoas, literalmente: os telemóveis estão tão grandes que, quando pegamos neles, ficamos sem ninguém à nossa volta, num raio de um metro.
Se o Facebook fechasse ao fim-de-semana, ficaríamos com tempo para o que realmente importa na vida. Para as coisas que nos preenchem. Ou seja...
Não me ocorre nada. Talvez no fim de pedir vidas neste jogo, publicar uma fotografia do meu almoço, enviar 450 mensagens e "sentir-me qualquer coisa", me ocorra o que realmente importa na vida.
Se a Internet
fechasse ao Domingo, este texto não estaria publicado. E isso é uma vantagem a
sério.