segunda-feira, 4 de junho de 2018

A brigada da granola


Estás prestes a comer um hambúrguer. Um a sério, feito de carne de um qualquer bovino minimamente saudável, não de um alien aprisionado num contentor, de onde uma multinacional retira as suas doses individuais de “hambúrguer”. Com pão feito, prepara-te, senta-te, de pão (!!!), não de um composto químico que se destina a dois possíveis usos: fazer “pão” ou vedante para cozinhas. Tudo acompanhado de batatas fritas que não têm tamanha quantidade de sal que te obrigue a demolhá-las três dias antes de as comeres. Estou aqui com coisas: vais comer um hambúrguer artesanal e não de uma qualquer cadeia multinacional.

O teu cérebro já iniciou os preparativos. Sim, porque comer começa antes de comer. O teu cérebro começa a antecipar cenários. É como no sexo: a mente é a primeira a avançar. Quando sentes aquele aperto no estômago, antes de comer algo de que gostas, não sentes um aperto no estômago: sentes o teu estômago a ter uma erecção.

Resumindo, antecipas um cenário de grande prazer. Porém, quando chega o teu hambúrguer, reparas que tens, na tua mesa, um amigo que é um agente da brigada da granola. Se não sabes do que estou a falar, não sei onde tens andado nos últimos dois, três anos.

A brigada da granola é uma força especial de intervenção social. Os seus agentes são recrutados num processo rigoroso, até violento, de entre a nata dos praticantes de ginásio e do Instagram. São pessoas tão saudáveis que não vendem saúde: compram-na, em bidões de cenas estranhas, muito parecidas com as que compras para alimentar o teu periquito.

Esta força de intervenção tem como objectivo eliminar o consumo de comida não saudável, através de acções de sensibilização. Aqui, a palavra “sensibilização” é para ser sublinhada: os agentes da brigada da granola chateiam-te tanto, quando comes entulho, que acabas a chorar, por sentires que a vida não faz sentido.

Na primeira fase de gestação, o agente é só uma pessoa que tomou um rumo saudável na sua vida. Passados dois meses, é um fundamentalista disposto a abater-te, se lhe ofereceres uma batata frita.

Retomemos. Vais dar a primeira dentada no teu hambúrguer e o agente diz “Vais enfardar essas calorias todas?”. Importa explicar que os agentes da brigada da granola contam calorias tão bem quanto um velhinho, numa tasca, conta trunfos a jogar à sueca.

Nesse momento, a tua dentada muda de cenário. Acabaste de trincar uma bota velha (porque se fosse uma bota nova, até nem seria assim tão mau). O cheirinho do hambúrguer passou a ser cheirinho a naftalina (o que nem é mau, porque afastas as traças da tua comida) e um pássaro fez cocó no teu ombro.

Aqui, importa referir que o cocó do pássaro foi obra do acaso, não tendo qualquer relação com o agente da brigada da granola.

Tens duas hipóteses de comer sossegado, na companhia de um agente desta poderosa força de intervenção: ou pedes uma salada ou matas o agente. Aqui, é óbvio o caminho a seguir: se foste ali comer um hambúrguer, não vais pedir uma salada.

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