terça-feira, 29 de maio de 2018

Tudo melhora com a preguiça


Aposto que os nossos aparelhos emitem umas ondas hipnotizadoras que o nosso cérebro capta, sem que tenhamos consciência disso. Aposto que isto está num site qualquer manhoso. Daqueles cujos autores, de cada vez que publicam uma “notícia”, dizem “Se calhar, estamos a forçar um bocado, é desta que ninguém vai acreditar”.

Estas ondas reduzem a nossa capacidade crítica, em determinados momentos. Por exemplo: quando temos uma coisa para fazer e ficamos só um bocadinho a retardar o processo, a preguiça deixa-nos mais expostos às ondas e estas tornam tudo muito mais interessante. Tudo se torna uma espécie de revelação, em directo, do sentido da vida.

Um documentário sobre um tipo que colecciona paus de gelado. Um tipo que colecciona paus de gelado estaria votado ao ostracismo e, posteriormente, ao esquecimento. Mas se tivermos algo para fazer, seja estudar ou arrumar a casa, um documentário sobre aquele indivíduo transforma-se numa espécie de mitologia e a história da sua vida passa a ser um exemplo para todos nós.

No processo de retardamento da tarefa agendada, ficamos tão embrenhados na sua história que consideramos, por breves instantes, a possibilidade de começarmos a coleccionar paus de gelado, só para homenageá-lo. Se estivermos no Inverno, equacionamos, inclusivamente, viajar para um país em que seja Verão, só para termos mais gelados à escolha. Com isto, teremos duas vantagens: não só passeamos um bocado, como retardamos ainda mais a tarefa agendada.

Documentários sobre animais são sempre interessantes. Mas, se tivermos algo para fazer, estes documentários passam a ser um filme épico. Pegamos nas pipocas e entramos na história. Eu torço sempre pelas presas, nunca pelos predadores. Um peixinho está no fundo do mar. Os peixinhos no fundo do mar têm sempre aquele ar bué de peixinho, felizes e inocentes. E há um polvo escondido num penedo. Eu começo aos berros “Peixinho, foge, peixinho, está ali um polvo!”. Tudo enquando como pipocas sofregamente.

Nunca resulta. O peixinho continua ali a pairar, bué de peixinho, e o polvo, esse crápula, sai do meio dos penedos e engole o peixinho de uma só vez.

Fico devastado.

Gostava de realizar um documentário em que o peixinho, neste momento, faria dois ou três golpes ao estilo do Steven Seagal e poria o polvo na ordem.

Fazer scroll infinito no Facebook também é muito mais divertido quando temos algo para fazer. Acho que, secretamente, estamos a tentar ir ao fim da Internet. Ou ao princípio do Facebook. “Vou fazer aqui um scroll tão grande que vou descobrir o primeiro post do Facebook”. Aposto que o primeiro post do Facebook é algo do Mark Zuckerberg, tipo “Está aí alguém?”.

Mesmo eu, antes desta crónica, fiz scroll infinito, porque não me apetecia escrever. Destaco uma notícia do “New York Post” sobre vegans que estão a ameaçar de morte talhantes e criadores de gado, no Reino Unido, ao mesmo tempo que vandalizam talhos e quintas.

Noutra altura, eu diria “Que estupidez!”. Mas, como estava num momento de tédio, as ondas deram outra capacidade de percepção ao meu cérebro e fizeram-me perceber que nada faz mais sentido do que tentar travar a morte de animais ameaçando de morte os animais que matam animais.

Vou mais longe: ser vegan é um ponto de passagem entre ser uma pessoa que come a carne que o talhante vende e ser uma pessoa que come a carne do próprio talhante.

Estimado leitor, agora que já perdeu cinco minutos a enfardar umas baboseiras, vá trabalhar.

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