quarta-feira, 23 de maio de 2018

Comer em equipa

Diz a minha experiência de ir a casamentos que uma correcta celebração do matrimónio não se consegue fazer sem ingerir doses sobre-humanas de comida. É como se houvesse uma competição não oficial para determinar quem é mais amigo dos noivos, só que, em vez de se determinar o vencedor através do recurso a provas de amizade, determina-se através do recurso a provas ininterruptas de camarão, panados, bacalhau e tornedó.

Só é festa a partir do segundo prato: primeiro prato já nós comemos todos os dias. “A Luísa e o Fernando conheceram-se, um dia, e foram construindo um amor alicerçado na compreensão e na partilha, tendo, por isso, decidido unir os seus destinos. Assim sendo, depois deste bacalhau com broa, vamos enfardar tornedó (só duas postinhas) para celebrar o amor!”

A única forma de aproveitar verdadeiramente os prazeres gastronómicos da festa é com trabalho de equipa. Um pouco antes de terminar a cerimónia na igreja, um dos membros da equipa, que aqui será chamado pelo nome de código de “Falcão Um”, irá deslocar-se à quinta, onde se irá mascarar de empregado de mesa, experimentar as entradas e fazer um mapa das mesas, com destaques para os petiscos prioritários e para aqueles que se deverão evitar, não esquecendo os melhores pontos para pousar pratos e copos.

Com esta antecipação, os restantes membros da equipa irão receber a informação detalhada, para que saibam, assim que for declarado aberto o processo de ingestão compulsiva, quais as mesas aonde se devem dirigir primeiramente.

“Falcão Um para Esquadrão, Falcão Um para Esquadrão, panados e chouriça assada prioritários. Marisco em bom estado, podem avançar. Rissóis razoáveis, mas só em último caso. Evitar pataniscas, têm muita batata, pouco bacalhau.”

Com isto, evita-se a chatice de andar a experimentar entradas para se saber o que se deve comer. É que experimentar sem ninguém por perto nem oferece problemas, mas provar entradas com os primos da noiva e os tipos que jogam à bola com o noivo cheios de fome é quase tão arriscado como estar a procurar mantimentos no meio de uma invasão zombie.

Como em todas as equipas, haverá uma mente que coordenará todos os procedimentos. Idealmente, essa pessoa deverá não ser convidada, para que as suas decisões não sejam toldadas pela ingestão de álcool em excesso. Deverá ser alguém com conhecimentos na área da nutrição, mas tendo em conta a quantidade de “bloggers” e “instagrammers” especializados no tema, é seguro afirmar que há mais pessoas a perceber de nutrição do que do código da estrada.

Esse líder da equipa, aqui chamado de “Professor” (em homenagem a todos os que me chateiam a cabeça por eu não ter visto “La Casa de Papel”), vai fazendo a gestão alimentar de cada um. Com recurso àqueles relógios ou pulseiras super-modernos que dizem quantas vezes o nosso coração bate por minuto, e com medidores de açúcar e de álcool no sangue, o “Professor” dirá o que cada um deve comer.

“Falcão seis, já chega de puré de maçã, estás a comprometer a missão. Falcão quatro, estou a receber os teus dados, nem mais um copo de vinho na próxima meia hora, repito, nem mais um copo de vinho na próxima meia hora. Estás a começar a babar-te. Assim não chegas ao baile. Falcão cinco, estás muito bem, se quiseres mais uma posta de bacalhau, podes avançar.”

Também haveria um plano de contingência, para o caso de alguém desrespeitar a estratégia. “Esquadrão, o Falcão Nove acaba de cair, repito, o Falcão Nove acaba de cair. Está a vomitar num vaso. É favor recolhê-lo para a Zona de Extracção, já vai o Carro-Vassoura a caminho.”

Quando a equipa estivesse em risco de retirar, por falta de comida, não faltariam avisos úteis. “Falcão Um chama Esquadrão, Falcão Um chama Esquadrão. Não abandonem já, falta a ceia. Vai haver caldo verde e mini-pregos. Já provei ambos, são apostas seguras.”

Aqueles que ainda estivessem contactáveis, ou que ainda se lembrassem de quem era o Falcão Um, teriam uma última oportunidade para demonstrar amizade.

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