quinta-feira, 10 de maio de 2018

Assaltar para arrendar


O aumento significativo do custo do arrendamento em Portugal, sobretudo nos grandes centros urbanos, e a quantidade de pessoas que viram “La Casa de Papel”, são dois dados independentes, para um observador desatento. Para mim, que acompanho a actualidade com o mesmo interesse com que uma velhinha adorável acompanha os programas da Fátima Lopes, uma coisa é directamente dependente da outra.

Toda a gente diz que vê “La Casa de Papel” porque a história é viciante, porque o plano do assalto é genial, porque não consegue viver sem ouvir o “Bella Ciao” ou porque dois amigos viciados na série ameaçaram entrar no campo da agressão a quem não começasse a ver também. Tudo treta. A malta anda é a estudar para fazer um grande assalto à Casa da Moeda. Uma vez realizado o assalto, os seus executantes não vão comprar ferraris. Nem um avião. Nem uma ilha no Pacífico.

Vão guardar o dinheiro para pagar rendas.

Num futuro não muito distante, algum recém-milionário vai ligar para um potencial arrendador e ter um diálogo semelhante a este:

– Boa tarde. Gostaria de saber o preço daquele apartamento de 16m² que fica numa cave e que não tem casa-de-banho.

– Por mês, são dez mil e quinhentos euros, dois frangos do campo e um dia de trabalho escravo.

– Excelente. Posso trocar o dia de trabalho escravo por mais dois mil euros de renda?

– Negócio fechado. Eu com esses dois mil euros contrato dois escravos e ainda sobra dinheiro.

– Pronto. Pago já 240 meses, só para garantir vaga.

Não digo, com isto, que ter uma ilha no Pacífico não seja uma ideia agradável. Mas poder ter uma casa não é menos agradável, e da forma que está o mercado imobiliário, assaltar a Casa da Moeda nem parece assim tão arriscado, comparado com dormir na rua.

Para além de permitir que sobre algum dinheiro para comer, depois de pagar a renda, assaltar um banco pode ajudar a desenvolver outras competências que serão muito úteis, no futuro, tais como a ocultação de identidade.

Imaginemos que um recém-milionário deseja residir no centro da cidade. Nesse caso, ou anda distraído ou é palerma, uma vez que toda a gente sabe que o centro da cidade é para turistas bué modernos que usam o Airbnb. De forma a contornar este obstáculo, o recém-milionário pode mudar semanalmente de identidade e alugar sempre a mesma casa.

Se o senhorio começar a desconfiar do facto de os sucessivos arrendatários serem muito parecidos, o recém-milionário pode utilizar a desculpa de que são todos primos e que vão passando a palavra entre eles, acerca do conforto das instalações e sobre o facto de até terem espaço suficiente para uma pessoa se deitar.

Claro que nem todos poderão assaltar a Casa da Moeda e, nesse caso, alternativas terão que ser estudadas. Uma delas é aderir à escravatura. Em vez de ter que trabalhar para terceiros, de forma a receber dinheiro para pagar uma renda exorbitante, o arrendatário vende o seu trabalho (e a própria existência) ao arrendador. Tudo bem que deixará de ter vida e vontade própria, mas nem tudo é mau: terá um caixote de 2x2 metros, confortavelmente instalado numa garagem, onde poderá dormir quentinho.

Outra hipótese é criarmos um programa de televisão, em sinal codificado, no qual as pessoas entram num labirinto e se matam por um T3 com varanda. Depois, vendemos os direitos de transmissão para apoiar a habitação social.

Não faltará muito tempo para que nos apareça um político a dizer que é preciso mudar o paradigma: ter dinheiro para uma casa é coisa do passado. E que até há vantagens nisso: quanto maior o número de pessoas a viver na rua, mais seguras ficam as ruas.

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