sexta-feira, 30 de março de 2018

Os meteorologistas mandam em nós

Os meteorologistas são o equivalente, na vida adulta, dos nossos pais quando éramos pequenos. “Estás a ver aquele passeio que ias dar no Sábado à tarde? Esquece, vão estar a chover pequenos rebos de gelo do tamanho de cerejas”; “Estás a ver aquela saída de bicicleta que tinhas planeado para Domingo de manhã? Esquece, só se pregares a bicicleta ao chão, porque vão estar vacas a voar com o vento”.

É isto que os meteorologistas fazem, tal como os nossos pais já o faziam, na nossa infância. Com a agravante de que os meteorologistas são pagos para nos dar más notícias, enquanto que os nossos pais ainda tinham que aguentar connosco em casa, de birra.

Apesar deste conflito sempre latente, o segredo da nossa boa relação com os meteorologistas está em fingir surpresa. É como quando nos contam um segredo sobre uma pessoa e essa pessoa acaba por nos revelar esse mesmo segredo: temos que fingir surpresa, para não estragar tudo. Com os meteorologistas, é o mesmo.

– Vai haver chuvadas de meter medo.

– A sério? No Inverno? Não pode ser!

– Vai estar muito calor.

– A sério? Em Julho? Não pode ser!

Os congressos de meteorologistas são bastante emocionantes. Há sempre um senhor que sobe ao palco e diz “Estimados colegas, estou em condições de afirmar, depois de um estudo de uma vida, que, o Verão é, tendencialmente, quente, e o Inverno é, tendencialmente, frio”. Há um silêncio ensurdecedor na sala. Está a acontecer Ciência, naquele momento. Depois, alguém diz “Espera, acho que a minha avó já me dizia isso quando eu era pequeno” e alguém diz “Isso é porque a tua avó era uma meteorologista e não o sabia”.

No fundo, os dotes de meteorologista são como as capacidades dos Jedi no “Star Wars”: nascem connosco. A habilidade de olhar para um céu nublado e dizer “vem aí uma tromba de água”, ou enfrentar um céu estrelado e dizer “amanhã vai estar um rico dia de sol”, é como o jeito para pintar. Ou se tem ou não se tem.

Depois, é só estudar bastante para perceber o anticiclone dos Açores e as frentes frias, saber distinguir o vento a soprar fraco do vento a soprar moderado a forte e saber onde fica Noroeste ou Sudeste, entre outros pontos cardeais.

Por estes dias, temos andado a saltar de tempestade em tempestade. Parecemos um pugilista que leva um valente sopapo, logo depois de se levantar do tapete. Já agora, porque é que chamam tapete ao chão do ringue de boxe? Não há ali tapete nenhum. E devia haver, para que os queixos caíssem em superfícies mais fofinhas. E devia haver um candeeiro e um sofá ao canto, para que um desportista pudesse levar sopapos num ambiente mais acolhedor.

Voltemos às tempestades. Neste jogo do boxe de saltar de tempestade em tempestade, os meteorologistas são o treinador, a gritar no canto do ringue. “Desvia-te! Levanta os braços! Ataca pela direita! Ataca pela direita!”. O que não se percebe muito bem, porque levantar os braços e desviar não são gestos úteis contra bolas de granizo do tamanho de cerejas e ventos capazes de arrancar pinheiros, sobreiros e aquele cacto pequenino que está num vaso na varanda. Uma pena, porque o pinheiro ou o sobreiro, pronto, não eram de ninguém, mas o cacto tinha sido oferecido pela tia Laurinda e tinha valor sentimental.

E com a nossa falta de juízo, o planeta está a aquecer e o clima a ficar maluco. Um dia, pior do que estarmos prestes a extinguir-nos, algo completamente irrelevante, enfrentaremos a tragédia de teremos congressos de meteorologistas que não saberão que tempo estará em Julho.

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