quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Todos os meses, Carnaval

O meu Carnaval preferido foi um em que me mascarei de Batman. A minha mãe, grande especialista na costura, confeccionou-me um fato, de raiz. Ficou espectacular em 98%: as orelhas do capuz do Cavaleiro Negro ficam sempre direitinhas, as do meu fato caíam. Em 2% do meu fato, eu parecia um coelhinho. Ou seja, 2% do fato de um vigilante que aterroriza os criminosos de Gotham City parecia as orelhas de um animal fofinho.

Tirando isso, foi espectacular.

Analisando friamente esta festa, estou em condições de afirmar que o mal do Carnaval é ser no Inverno. Ainda por cima, numa Terça-feira. Está frio e, muitas vezes, chove. Calha à semana, uma pessoa pode ter coisas combinadas. E nem toda a gente tem seis dias de tolerância de ponto, a começar na Quarta-feira anterior.

Para mim, o Carnaval devia ser dividido: pegava-se nas 24 horas e dividia-se por doze períodos de duas horas. A lei passaria a conceder-nos o direito de andarmos mascarados duas horas em cada mês.

Isto poderia fazer com que, certa vez, alguém fosse trabalhar mascarado.

– Fernando, tenho aqui um desafio para si. – Diria a directora.

– Vamos a isso. – Responderia o Fernando, mascarado de palhaço.

– Pensei em si para dirigir todo o departamento de produção.

– Eh pá, que orgulho. – Responderia o Fernando, enquanto tocava uma buzinha que traria acoplada ao ombro.

– A direcção considera que a sua respeitabilidade será um trunfo, para liderar uma equipa de quase 100 pessoas.

– Estarei à altura, chefe. – Responderia o Fernando, enquanto atiraria uma tarte à sua própria cara.

– A sua capacidade de aguentar a pressão também foi uma qualidade determinante.

– Compreendo, chefe. – Diria o Fernando, enquanto cairia propositadamente da cadeira.

Se o Carnaval fosse duas horas por mês, um professor poderia dar uma aula mascarado.

– Hoje vamos falar sobre alguns princípios de macroeconomia. – Diria o professor, vestido de urso.

– Professor, quer almoçar connosco na cantina? É salmão. Assim escusa de ir apanhá-los a subir o rio. – Diria uma aluna.

– Vamos também abordar alguns princípios de finanças públicas. – Diria o professor.

– Não era melhor a aula ser no exterior? Se o professor precisar de coçar as costas, pode roçar-se numa árvore. – Sugeriria a mesma aluna.

Se o Carnaval fosse dividido, alguém poderia ir mascarado depositar dinheiro ao banco.

– Gostaria de levantar todo o dinheiro da minha conta. – Diria o cliente, mascarado de assaltante.

– Só o da sua conta? – Perguntaria a funcionária do banco, assustada.

– Sim, sim. Estou a gozar as minhas duas horas de Carnaval.

– Peço desculpa, mas assim que entrou e tirou a senha, chamei a polícia.

– Não acha que, se fosse um assalto, eu não tiraria senha?

– Sei lá, ainda há pessoas civilizadas! – Responderia a funcionária, irritada.

– Que barraca! Agora vou ter que responder a perguntas.

Nisto, entraria um polícia.

– Vai ter que me acompanhar à esquadra.

– Mas estas são as minhas duas horas de Carnaval.

– Também as minhas, estava a brincar consigo. – Responderia o polícia.

– Ei, que alívio. Pensei que me tinha metido em chatices.

– Estava a brincar. Sou mesmo polícia. Pode acompanhar-me?

Se o Carnaval fosse dividido, alguém poderia ir mascarado à farmácia.

– Tem alguma coisa para a prisão de ventre? Estou tão entupido que já nem consigo voar. – Diria um homem vestido de Super-Homem.

Se o Carnaval fosse duas horas por mês, um tipo poderia ir ao hospital mascarado de zombie. Soaria um alarme, a cidade seria evacuada e isolada em menos de uma hora. O homem acabaria por ficar sem saber o que fazer.

– Será que há greve?

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