terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Vinte e cinco anos a escrever SMS's

No passado dia 3 de Dezembro, fez 25 anos que foi enviada a primeira SMS. Na altura, o engenheiro britânico Neil Papworth enviou, através de um computador (os telemóveis não tinham teclados com letras), a mensagem “Merry Christmas” (“Feliz Natal”) para o telemóvel de um funcionário da empresa que estava a testar o sistema.

Se pudesse, este funcionário teria respondido o mesmo. Ou, então, “Hoje vamos ver a bola em casa do Peter” (fim de mensagem), “Aparece” (fim de mensagem), “Traz cerveja” (fim de mensagem), “Afinal não é preciso cerveja” (fim de mensagem), “No fim, jogamos um póquer” (fim de mensagem), “Afinal não vamos jogar póquer” (fim de mensagem), “O Louis tem que ir para casa cedo, senão a mulher dele tripa” (fim de mensagem), “Já sabes como é” (fim de mensagem), “Golo do Chelsea” (fim de mensagem), “Então, não vens?” (fim de mensagem).

Terão sido as pinturas rupestres as primeiras SMS? Será que, alguma vez, um ser humano  terá escrito, na parede de uma gruta “Encontrei mamutes no vale” (fim de mensagem)? Será que outro ser humano terá respondido “Não te aproximes, um deles atacou-me” (fim de mensagem), “Ia-me dando uma valente bordoada”, “LOL” (fim de mensagem)?

Quando surgiram, as mensagens escritas eram uma espécie de tecnologia futurista vinda de outro planeta. Com aqueles telemóveis do tamanho de um sapato, podíamos escrevinhar uns textos curtos e enviá-los a outra pessoa. Pagava-se para se fazer isto. O que representa alguma justiça: quando os seres humanos comunicavam por sinais de fumo, não havia lenha infinita para fazer fogueiras. Custava apanhá-la. Com esta necessidade de gerir a lenha, os sinais de fumo foram sendo usados com critério. 

O mesmo que existia nos primórdios das SMS: valia tudo para poupar caracteres. Era possível, naqueles tempos, receber uma mensagem a dizer “E s fsses p o crlh?” (fim de mensagem). Uma vez que eu era, e calculo que o meu leitor também, uma pessoa de bem, ficaria incrédulo com tal impropério, e responderia “Pk?” (fim de mensagem). Certamente que a resposta seria “Dscp, enganei-m no nr” (fim de mensagem).

Pumba, meia dúzia de cêntimos à vida, a mandar a pessoa errada para o “crlh”. Bons tempos.

Hoje, vale tudo. Temos tantos meios de conversação que nem sabemos qual usar. Dizemos coisas a mais. Não só, perdemos o poder de síntese, como, pior, não sabemos seleccionar a informação essencial. “Hoje não vou poder ir ao jogo.” (fim de mensagem), “Tenho dores no joelho” (fim de mensagem), “Já na semana passada me doeu” (fim de mensagem), “Mas também tenho umas cenas para tratar” (fim de mensagem), “Nada de especial” (fim de mensagem), “Acabei com a minha namorada” (fim de mensagem), “E o nosso planeta foi invadido por extra-terrestres” (fim de mensagem), “Está a dar na televisão” (fim de mensagem), “Vamos ser todos aniquilados” (fim de mensagem), “Calha bem, porque tinha que pagar agora o seguro do carro” (fim de mensagem), “LOL” (fim de mensagem).

Felizmente, os nossos pais e avós mantêm o poder de síntese à antiga: continuam a gerir os caracteres das SMS como se fossem diamantes. Não porque elas sejam caras, mas porque detestam comunicar desta forma e ter que escrevinhar nestes aparelhos. Às vezes, são demasiado telegráficos. “A que horas vens jan8” (fim de mensagem) ou “Tens bacalhau do almoço no mi37” (fim de mensagem) são mensagens que, infelizmente, foram enviadas antes de estarem escritas mas que, felizmente, aprendemos a descodificar com o tempo.

Mas o maior feito no mundo dos SMS é o dos bêbados: enviar uma mensagem escrita com excesso de álcool no sangue é mais difícil do que aprender Islandês, para não referir como pode ser perigoso. É incrível como, sempre que bebemos em demasia, alguém mexe nas definições do nosso telemóvel, às escondidas, e depois as letras que queremos introduzir não são aquelas que realmente introduzimos. Alguém devia investigar isso, porque só mexem no telemóvel quando bebemos.

E é curioso que, muitas vezes, um bêbado fica com uma enorme vontade de enviar duas ou três mensagens a uma pessoa (ou mais?), de cariz geralmente emocional-sexual, mensagem essa cuja autoria poderá ser, no dia seguinte, negada até à exaustão.

“Achas mesmo que eu te mandava isso? Alguém pegou no meu telemóvel e enviou uma SMS para um número da lista, à sorte. Eu nunca te diria uma coisa dessas” (fim de mensagem), “Mas já que estamos a falar, desejo-te um Feliz Natal” (fim de mensagem), “Isto se não nos virmos antes” (fim de mensagem), “Queres ir tomar um café?” (fim de mensagem).

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