terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O futuro é feio

O Governo chinês está a desenvolver um “sistema de crédito social”, que consiste num método de classificar os cidadãos, num ranking, consoante os dados que eles fornecem a empresas tecnológicas ligadas ao consumo e, com isso, garantir-lhes ou vedar-lhes o acesso a determinados bens ou serviços. Parece um episódio do “Black Mirror”.

A disputa entre Rui Rio e Santana Lopes pela liderança do PSD ficou marcada muito mais pelas questões pessoais, tais como descobrir quem foi mais fiel ao partido e quem falou menos vezes com o Pacheco Pereira, nos últimos quinze anos, do que pelas políticas que cada um tinha para o país.

Tenho uma amiga que diz que o vizinho do 5.º esquerdo faz voluntariado e é muito educado e prestável (no fundo, uma jóia de pessoa), mas não gosta dele porque ele, uma vez, chegou bêbado a casa, às cinco da manhã, e cantou o hino nacional, sem erros, na escada do prédio, enquanto urinava num vaso.

O primeiro e o segundo exemplos preocupam-me um pouco, mas o terceiro deixa-me aterrado. Quem nunca cantou o hino bêbado? Assim se cria má vizinhança, sem necessidade nenhuma.

Todos estes exemplos demonstram como a sociedade das redes sociais e dos “reality shows” está a tornar as questões pessoais o centro de tudo. Qualquer dia, a sociedade vai empolgar-se com as eleições, que serão decididas, palmo a palmo, entre multas de estacionamento e número de palavrões ditos, nos últimos quatro anos.

Não demorará muito tempo até que uma selecção de um candidato a um posto de trabalho se faça da seguinte forma.

- Chefe, temos aqui este candidato. Doutorado em Engenharia Espacial.

- Eh pá, sim senhor.

- Dados retirados da sua pulseira de actividade desportiva indicam que se deita sempre muito tarde e que tem uma vida sexual muito activa.

- Eh pá, o gajo é um javardo. Deve ser daqueles que vêm trabalhar cheios de sono.

- Tem mais dois doutoramentos: um em Física Quântica e outro em Química.

- Eh pá, notável.

- Mas tem perfil no Tinder e já pagou uma vez por sexo, na despedida de solteiro de um amigo.

- Eh pá, o gajo é um libertino. Vai meter-se com as miúdas todas aqui na empresa. Isso dá mau ambiente.

- Foi uma vez ao espaço. Foi medalhado em natação, nos últimos Jogos Olímpicos.

- Eh pá, sim senhor, um homem de acção.

- Teve seis multas de estacionamento nos últimos dez anos.

- Ui, o homem qualquer dia fica sem carta. Não queremos isso, depois chega sempre tarde ao trabalho.

- Tem oito patentes registadas, na área da robótica.

- Eh pá, um inventor!

- Gosta da saga “Velocidade Furiosa”.

- Ui, isso é azeiteiro. Depois vai pôr aqui a música alta.

- Deu aulas no M. I. T., durante dois anos.

- Eh pá, um professor.

- Nas últimas presidenciais, votou num candidato de esquerda.

- Eh pá, um revolucionário, ainda nos faz aqui uma greve.

- Faz voluntariado.

- Eh pá, um homem que percebe o seu papel na sociedade.

- Uma vez, chegou a casa bêbado e cantou o hino nas escadas do prédio, enquanto urinava num vaso.

- De facto, este gajo é muito qualificado. Mas a conduta deixa a desejar. Não tens mais ninguém?

- Tenho esta candidata, doutorada em…

- O que pensa ela dos direitos das mulheres?

- Uma vez, publicou nas redes sociais que o sexismo era um dos entraves ao desenvolvimento da sociedade.

- Esquece, é feminista. Vai engravidar mal a contratemos.

- Mas tem seis doutoramentos e os seus métodos ajudaram a recuperar uma empresa que estava perto da falência. Devíamos considerar…

- Esquece. Tens mais alguém?

- Tenho este gajo. Licenciatura em Engenharia Informática por concluir, só trabalhou seis meses, nos últimos cinco anos, porque rejeitou todas as propostas de trabalho. Mas diz a pulseira dele que nunca se deitou depois das 23h.

- Liga-lhe.

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