terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Problemas na sala de cinema

Este texto também se poderia chamar "Uma aventura no cinema". Até seria mais divertido, porque pressuporia uma aventura retratada em filme. Por exemplo: uns gajos mauzões têm carros bué rápidos e andam em corridas e aos tiros uns aos outros. Esperem, estão aqui a dizer-me que já existe um filme desses, com sete (!!!) sequelas, e que todos são um sucesso: cada um é igual ao anterior e as pessoas aguardam com grande expectativa por cada novo título. Bolas, cheguei tarde. Mas a existência de oito filmes dentro do mesmo universo de carros e tiros leva-me a questionar o que esperam os espectadores que aconteça de novo, de cada vez que sai um filme. Que os carros fiquem sem gasolina? Que suba o preço dos combustíveis?

"Uma aventura no cinema" pode significar um conjunto de peripécias vividas na própria sala de cinema. A primeira questão, assim que chegamos ao nosso lugar, tem a ver com espaço. Há um tipo de espectador que traz, para além de uma panóplia de casacos, bolsas e edredons, acessórios que vão da mesa de campismo, para refeições, ao guarda-sol, para filmes com muita luminosidade. Precisam de um lugar para se sentar e de seis para arrumos.

Outra das questões que implicam algum jogo político tem a ver com os braços e as pernas. Passo a explicar. Os bancos do cinema têm apoio de braços. Ora, das primeiras relações de força que se estabelecem numa sala de cinema é a luta pelo apoio de braço. É possível, com recurso à diplomacia, que duas pessoas pousem os braços no mesmo apoio, em momentos diferentes, mas, caso calhe ao nosso lado uma pessoa mais intransigente, podemos perder a batalha. No cruzar de pernas, também há alguma adaptação, que implica gerir aquele cantinho que nos calhou, em colaboração com um desconhecido. Cruzamos uma perna ou outra, consoante o espaço que fica livre.  Tem a sua arte e dali podem sair grandes líderes do nosso tempo. Ou então, apenas pessoas que sabem comportar-se em público.

Assim que começam os trailers de outros filmes, surgem os primeiros comentários que dizem “Este deve ser fixe, temos que vir ver”. O que me leva a pensar se terá existido, na história do cinema, algum filme que, no trailer, pareça mau. Uma vez que o trailer consiste numa selecção cuidada de algumas das partes mais interessantes de um filme, posso concluir que o grande problema dos maus filmes poderá estar no resto do filme, todo ele verdadeiramente desinteressante.

Pelo filme adentro, começam os comentários na sala. Uns, mais especializados, de pessoas que consideram pertinente comentar com o espectador do lado a fotografia, os cenários, os efeitos especiais ou a banda sonora. Outros, não menos especializados, porém mais acessíveis ao grande público, afloram temas como a intensidade de uma cena de sexo ou as mamas de determinada actriz.

Há, no meio disto tudo, o espectador mais distraído que entrou na sala errada e que, aos quinze minutos de filme, pergunta se demora muito a aparecer o Batman.

Nos casos em que a história do filme é mais complexa, há espectadores que se perdem pelo caminho. Entre estes, há os que têm vergonha de perguntar o que raio está a acontecer e os que, de forma até bem audível, desatam a procurar, de todas as maneiras, até ligando para um amigo, em plena sala, uma explicação para os acontecimentos do filme.

A pensar nestes casos, proponho a criação da função de explicador do filme, que seria um funcionário do cinema que, a qualquer momento, poderia retirar o espectador da sala, explicar-lhe o que está a acontecer, repreendê-lo, caso a dúvida do espectador revelasse desatenção durante o filme, e recolocá-lo no seu lugar, contando-lhe o que aconteceu entretanto.

Mas o maior problema não é nenhum destes anteriormente referidos. É o caso das pessoas que mastigam pipocas de boca aberta. Aliás, isto é extensível ao mundo: o problema está nas pessoas que mastigam de boca aberta, em qualquer situação da vida. Já estive numa sessão de cinema em que um espectador fazia tanto barulho a mastigar que até uma personagem do filme se virou para a plateia e perguntou se era possível fazerem menos barulho, que estávamos numa cena com grande dramaticidade.

Por causa dos comentários estúpidos, das pessoas que fazem perguntas, das pessoas que mastigam de boca aberta e das pessoas com demasiados odores corporais (ou com excesso de perfume), proponho também que se reserve uma fila de lugares que terá o nome de “Fila do Entulho”. A qualquer momento, poderíamos solicitar a paragem do filme, chamar um provedor do espectador, explicar por que os nossos “vizinhos” nos estavam a incomodar, e pedir que estes fossem deslocados para uma fila de pessoas que se poderiam incomodar mutuamente, sem interferirem na experiência de cinema dos demais.

Era isso ou esperar que o Batman aparecesse e as levasse dali para fora.

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