segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Quanto tempo passamos à espera?

Se me aparecesse um génio da lâmpada que estivesse impossibilitado de realizar desejos, por falta de Internet móvel, ou por estar de ressaca, mas que pudesse, por ser um génio, responder a uma grande questão, perguntar-lhe-ia algo como “Uma vez que não costumo encontrar lâmpadas com génios, nem frequento fábulas com regularidade, que raio faço eu na presença de um génio da lâmpada?”. Desperdiçada de forma tão estúpida esta oportunidade de fazer uma pergunta relevante, tentaria convencer o génio a dar-me uma segunda oportunidade da seguinte forma:

- Se não me responderes a uma nova pergunta, guardo esta lâmpada num lugar em que só toquem músicas do Enrique Iglesias.

Como é óbvio, o génio saberia que ouvir temas eruditos como “Subeme la radio”, para todo o sempre (os génios vivem nas lâmpadas para todo o sempre), seria um castigo, pelo que, conceder-me-ia uma segunda pergunta.

Eu aproveitaria para perguntar, não qual o sentido da vida, não se existe vida para além da morte, não se existe vida inteligente noutro planeta, mas quanto tempo da nossa vida nós passamos a esperar. E não falo da espera “à Gustavo Santos”, do tipo “Quando serei feliz?”, “Quando vou aprender a valorizar-me?” ou “Quando conseguirei chegar à fala com aquela moça extremamente interessante que conheci no aniversário de um amigo, mas que, por ser muito para lá do meu campeonato, quase nem reparou em mim?”. Falo de esperar mesmo: na sala de espera do médico, no aeroporto, numa repartição pública ou numa loja.

“Mas isso é uma pergunta estúpida”, dirás tu, meu leitorzinho tão inteligentezinho e chatinho. Eu sei, mas se leres com atenção o texto desde o início, em nenhum momento eu prometo inteligência e subtileza na pergunta a colocar ao génio. Para isso, já temos os jornalistas do “Correio da Manhã”. Eu faria aquela pergunta para ter uma ideia de quanto tempo vou desperdiçar à espera que algo aconteça.

Tendo essa informação, posso desenvolver um grande projecto de ocupação de tempo de espera. Vou criar uma empresa só disso. Imagina que tens que levar o carro à inspecção e vais estar meia hora à espera. É só dizeres o que queres e eu providencio-te entretenimento à séria: uma mulher com voz bonita a cantar temas da novela da noite; um malabarista a fazer um truque com espadas, enquanto cospe fogo e recita Shakespeare; uma luta de UFC entre duas pessoas vestidas de urso; dois mariachis a cantar “La Cucaracha” em Norueguês; enfim, qualquer coisa divertida e exequível.

Digo "exequível" porque, se me pedisses um membro de uma juventude partidária a elaborar sobre temas da actualidade, seria impossível atender ao teu pedido, porque estas pessoas pouco mais conseguem do que gritar palavras de ordem e agitar bandeiras.

Na sala de espera do médico, talvez precisasses de um divertimento mais comedido. Ali, toda a gente faz uma espécie de exame de consciência e questiona-se se tem bebido muita água, se tem comido muita fruta, se tem feito exercício físico ou se a alface do Big Mac conta como salada. Neste caso, parece-me adequado um violinista, só para estares ali, a pensar na vida, enquanto um saco de gomas te espera em algum lado. 

Também será útil para embalar aquele senhor que adormece em todo o lado, de forma a poupar bateria. Que dorme com a cabeça tombada e ao lado daquela criança que está a saltar em cima de uma cadeira, enquanto balbucia sons estridentes que, somados, significarão qualquer coisa como “Dadas as circunstâncias, acho que vou fazer um cocó na fralda, porque não há perspectivas de, nos próximos dez minutos, sairmos da beira destas pessoas que não conheço de lado nenhum”. 

As pessoas que adormecem em todo o lado começam, por desgaste do hardware, a passar do “standby” para o modo avião com regularidade. É um problema técnico que causa alguns transtornos, nomeadamente, em salas de espera, quando o nome delas é chamado no altifalante e elas não saem do sono.

Para aqueles que se queixam de que a consulta está atrasada, talvez um grupo de bombos, para ajudar a dissolver a ira e, em caso de espera por consulta no dentista, talvez um orador motivacional, que faça as pessoas esquecerem os sons característicos de uma sala de tortura que vêm do lado de lá da porta, perante o sorriso sarcástico de quem está na recepção.

Numa repartição pública, podíamos ter um humorista a fazer piadas sobre impressos. Assim, quando o funcionário nos pedisse um papel qualquer, timbrado, carimbado e lambido por uma vaca dos Alpes, não o faria com um ar de ditador, mas com um ar de quem pede algo para a diarreia numa farmácia cheia de gente.

Acho que este negócio tem tudo para prosperar. Só me falta encontrar a lâmpada com um génio e um investidor.

Estou à espera, enquanto alguém canta um tema dos Abba.

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