quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Roupa falante

Esqueçam a regeneração de tecidos, esqueçam os antídotos contra bactérias e vírus, esqueçam a exploração espacial. Os seres humanos que andavam a vaguear pelas suas vidas fora, à procura de respostas para as perguntas “O que andamos nós aqui a fazer?” e “Como perder barriga em 36 horas?” encontraram a primeira delas: andamos aqui a fazer casacos que atendem o telefone e permitem pôr música a tocar no telemóvel. Eu diria que isto é lindo, mas como tenho preguiça em dose diária recomendada, digo que é bastante cómodo.

A Levi’s e a Google fizeram uma parceria e criaram um casaco que permite, com um simples toque na manga, atender chamadas, passar música ou obter direcções. Eu sei, eu sei, a primeira pergunta que se impõe é: a garantia protege aquele pessoal que não perde o bonito hábito de limpar moncos com a manga do casaco? Eu quero acreditar que o dispositivo que está na manga é “moncos proof” até quinze dias de exposição (toda a gente sabe que ao 16.º dia, os moncos ficam meios radioactivos).

Ficamos suficientemente preguiçosos para não tirarmos o telemóvel do bolso, o que nem é mau: dessa forma, evitamos lesões, entre outros, no bicípite ou no tricípite, no braquial ou no braquiorradial, no extensor radial curto do carpo ou no flexor radial do carpo, no flexor longo do polegar ou no abdutor longo do polegar. Toda a gente percebe a importância disto. Imagina que um indivíduo pousa o casaco nas costas de uma cadeira, no café, e atende uma chamada através do casaco.

- Aquele senhor está a falar para o casaco ou para a cadeira? – Pergunta uma velhinha adorável, enquanto toma o seu galão.

- Não percebes nada: está a atender o telemóvel através do casaco, evitando, dessa forma, lesões, entre outros, no bicípite ou no tricípite, no braquial ou no braquiorradial, no extensor radial curto do carpo ou no flexor radial do carpo, no flexor longo do polegar ou no abdutor longo do polegar. – Responderá uma velhinha não menos adorável e que fala como se estivesse num anúncio de televendas.

Será que um casaco destes pode, no autocarro, por exemplo, e depois do contacto com um casaco igual de uma pessoa com gostos mais duvidosos, apanhar um vírus que apenas nos permite pôr a tocar músicas dos D. A. M. A. ou do Diogo Piçarra? Teremos, um dia, que comprar anti-vírus para o casaco?

Tendo em conta o avanço da inteligência artificial, é provável que os nossos casacos queiram, um dia, tomar conta das nossas vidas. Para isso, criarão situações desconfortáveis com uma música errada, à hora errada. Cruzas-te no elevador com um vizinho cujos sons da vida sexual são demasiado estridentes para serem contidos por uma parede. O teu casado apercebe-se disso e põe , por exemplo, o Tom Jones a cantar o “Sex Bomb”. Ficará no ar aquela ideia de “Eu sei o que tu…” e uma viagem de três andares vai passar tão rápido como uma manhã numa repartição pública.

Vais jantar a casa dos teus sogros e, na hora da ir embora, mostras a tua gentileza e despedes-te da tua sogra com dois beijos. O teu casaco apercebe-se e, nesse momento, começa a ouvir-se o Marco Paulo a dizer “Quando você vem com essa cara/De menina levada para a brincadeira/Dá-me um arrepio na pele/Sinto água na boca p’ra ficar com você”. Ficarás dois anos sem conseguir enfrentar os teus sogros.

O que pode nem ser assim tão mau.

Vais de férias e passas pelo gabinete do teu chefe para te despedires. Antes que digas o que quer que seja, o teu casaco põe o Demis Roussos a cantar “Goodbye my love, goodbye/Goodbye and au revoir/As long as you remember me/ I’ll never be too far”. Decides trabalhar mais um dia, só para apagar aquele momento.

Tens amigos a jantar em tua casa. Eles até são fixes, mas podiam ir embora, que tu queres ir dormir. O teu casaco, pensando estar a ser teu amigo, dá asas ao Clemente, na música em que ele diz “Vais partir naquela estrada/Onde um dia chegaste a sorrir”. Para minorar estragos, dizes aquelas coisas que toda a gente diz, tais como “Fiquem à vontade, até abro mais uma garrafa, se for preciso!” mas, por dentro, agradeces, pela primeira vez, ao teu casaco, enquanto os teus amigos se preparam para ir embora.

O passo seguinte nesta caminhada de progresso será a camisa que te apresenta como se fosses um produto. Um casal conhece-se e, em vez de falar, que é o que nós, humanos primitivos, fazemos, usam as suas camisas de apresentação.

“Olá, esta é a Susana. É introvertida, mas gosta de regabofe selvagem. Não é ciumenta, mas uma vez assumido um compromisso com ela, desejará que todas as mulheres do planeta desapareçam. Tenciona casar e considera que começam a ser horas, pelo que, caso te adeques minimamente, terás que avançar destemido para a etapa seguinte.”

“Olá, este é o Fernando. Pratica crossfit e come farelos diversos que fazem dele um modelo de elegância e de regularidade no trânsito intestinal. Domina bricolagens diversas, tanto em casa como na mecânica automóvel, e ganhou, em 1997, um concurso internacional de karaoke, a interpretar um tema do Enrique Iglesias.”

Mal podemos esperar por estes tempos! (Esta última frase foi escrita pela minha t-shirt.)

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