segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Descobertas de quem adoptou uma gata

Toda a vida tive cães em casa. Há cerca de um mês, adoptei uma gata ainda bebé que vivia na rua. Uma vez que sobrevivi à experiência, não tendo a pequena felina me cravado os dentes na jugular, ou porque não quis, ou porque ainda não arranjou forma, resolvi fazer um balanço da experiência.

Dizer que cães e gatos são diferentes é tão inútil como dizer que um boi é diferente de um camelo. Embora, no Norte, “boi” e “camelo” sejam nomes usados para apelidar, com precisão, um tipo específico de indivíduos que nos surgem no caminho, ao longo da vida.

Não serve, portanto, este texto para entrar na estúpida discussão sobre se são os cães melhores do que os gatos, ou vice-versa, porque isso é tão estúpido como discutir se é mais divertido tocar à campainha e fugir ou arremessar balões de água do quarto andar.

No capítulo da higiene, os gatos são a prova de que a reencarnação existe. Pousamos o gato na caixa de areia e ele sabe, porque aprendeu noutra vida, para que serve a areia e como apagar vestígios do que lá faz. É mais rápido um gato a aprender a fazer as necessidades na areia do que alguns seres humanos a aprender, não só, para que serve um piaçaba, como qual a forma de dizer e escrever “piaçaba”.

No meio disto tudo, há uma prova de que os gatos são deste planeta: quando soltam gases intestinais, quase se torna necessário evacuar o edifício. É pior do que inalar vapores de uma infusão de enxofre e urânio enriquecido.

Com um gato, temos que estudar, não só, o mundo dos felinos, como também Física Quântica. “O meu gato cabe ali dentro?”, “Passa naquela frincha?”, “A minha casa tinha aquele sítio onde ele está escondido?”, “Será que ele chega ali?” ou “Será que, durante as últimas seis horas, ele esteve num universo paralelo, a dizer poemas em Latim a um conjunto de iguanas gigantes” são algumas das questões essenciais de quem tem um gato há pouco tempo. Geralmente, a resposta é sim: o gato cabe ali, passa ali, salta assim tão alto e disse poemas em Latim, num universo paralelo, enquanto caminhava por cima de um cordão de uma sapatilha, atrás de um ratinho de brincar.

Diz-se que uma preguiça dorme cerca de 80% da sua vida. O que não se diz é que um gato dorme mais do que 80% das preguiças. Mas, enquanto dorme, monitoriza, não só, os nossos movimentos, como o daquela mosca que está a voar junto à janela, da aranha que faz uma teia junto à porta, do átomo de hidrogénio que passou junto a uma orelha, ao mesmo tempo que analisa a evolução nos mercados de dívida pública e questões importantes que estejam a ser faladas no noticiário, como a independência da Catalunha ou a reunião do Eurogrupo. Claro, que, no meio disto, ele mantém as prioridades: isto da Catalunha é importante, mas se aquela mosca passar perto dele vai ter que ser capturada e ingerida. Tudo, sem abrir muito os olhos: convém recordar que o gato está a dormir.

Sempre que entro em casa, a minha gata vem ter comigo, o que é um comportamento muito semelhante ao de todos os cães que tive. Só que, enquanto que os cães revelavam graus de felicidade pela minha chegada que os levava a destruir parte da casa, embalados pela euforia, a gata circula à minha volta, revelando só a felicidade necessária para me saudar. Se fossem pessoas, os gatos eram do jet-set: sorririam só o necessário para a fotografia, dançariam só o necessário para a fotografia, acenariam só o necessário para a fotografia. Com uma diferença: os gatos gostam de um caixotinho de areia, o pessoal do jet-set gosta de um saquinho de pó.

Fazer festas a um gato é como jogar aquele jogo da operação: se tocares numa zona proibida, perdes. Perder, no operação, era acender uma lâmpada e soar um barulho estridente. Perder, a fazer festas a um gato, é o gato querer matar-te, começando pelas mãos. O dono de um cão costuma ter baba nas mãos, o dono de um gato tem mãos de quem trabalha diariamente com arame farpado.

O cão olha-te como quem diz "Já te disse hoje que gosto de ti?", o gato olha-te como se lhe devesses 100 euros. Quando chamas um cão, ele vem porque sente que tem o dever de vir. Quando chamas um gato, ele vem se considerar que estão reunidas todas as condições de segurança e de conforto, bem como se existe disposição emocional, humidade relativa do ar e proximidade da Terra em relação a Júpiter para vir.

Às vezes, os gatos recebem mensagens do além e perseguem entidades que só eles vêem, em corridas quase à velocidade da luz. É curioso que, no meio dessas corridas, a minha gata nunca passou por cima do teclado do compdfhuioshcvxjki ndvsojcdnvwe0scvkdn kcvm <cnsdijvnw231i9rh310fh98utador.

Correcção: numa dessas corridas, a gata foi responsável por um excerto deste texto. Que, num universo paralelo, para onde ela vai, seis horas por dia, quererá dizer qualquer coisa.

27 comentários:

  1. Li este texto com um sorriso! Adorei a parte dos 100 euros! É revi-me na passagem "o meu gato cabe aqui": lá em casa, confiro a distância de segurança nas janelas abertas com um punho fechado, que é quase a mesma largura da cabeça do meu gato! �� Excelente excelente texto!!

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  2. Estava a gostar do quadro até começares a fazer comparações com cães...

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    1. Exato, foi logo o que pensei!!! Embora considere o texto correto, acabamos de assistir ao verdadeiro tiro pela culatra!

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    2. Pois eu também estava a adorar o texto até começarem as comparações...e se eu chamar o meu gato ele vem sem que pareça que eu lhe deva seja o que for! Ia partilhar o texto, mas desisti, uma vez que na segunda parte do mesmo o autor contradiz o que afirmou logo no primeiro parágrafo!

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    3. Um texto verdadeiramente brilhante! Tenho uma gata em casa que criei a biberon, pois deveria ter cerca de 10 a 12 dias, quando foi apanhada na berma de uma estrada. O seu comportamento condiz 100% com o que descreveu o autor desta surpreendente
      e bem humorada descrição a quem endereço calorosos parabéns e um obrigado pelo franco sorriso que me provocou.

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  3. Tenho cães, gatos e tartarugas. Chorei a rir, dentro de um autocarro cheio, com as tuas saídas, tão facilmente imagináveis para quem convive com estas deliciosas criaturas. :) grata pelas gargalhadas matinais :)

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  4. Adorei, realmente são assim os gatos....amo. Quem tem i primeiro gato fica apaixonado ou enfeitiçado por eles :-) :-)

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  5. Tenho gatos e sei perfeitamente o que isso é. Eles são donos deles próprios e de nós e só procuram se tiverem fome ou sede. Gostei imenso do texto :)

    Beijinhos
    Volta & Meia
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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Custa-me a crer que uma pessoa que diz que tem gatos defenda a ideia (que não podia ser mais equivocada) que gatos só procuram o tutor para que esse lhe dê comida. Tenho em casa, neste momento, 3 gatos que, cada um ao seu modo, procura a nossa companhia para interagir e acarinhar independentemente de lhes dar, ou não comida. Obviamente que também têm os seus momentos de "Do not disturb", mas isso está longe de ser "só procuram se tiverem fome ou sede".

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  6. Texto encantador e perfeito ! Tenho três sao o máximo ! :)

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  7. Aqui em casa, para além de 2 humanos vivem um cão de 55 kg, uma cadela de 33 kg e uma gata de 1 kg... adivinhem quem manda cá em casa? Sim, os gatos têm qualquer coisa de inexplicável que nos faz gostar deles mesmo quando olham para nós com um ar snobe !

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  8. Maravilhoso texto. É exactamente assim, posso garantir, tenho cães e gatos e sempre tive e muitos. Adorei tudo mas principalmente a parte do computador (a minha gata Baby é perita nisso) e dos universos paralelos. Obrigada e vou partilhar.

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  9. Depende dos gatos. Já tive gatos que me olhavam como quem diz "Já te disse hoje que gosto de ti?", que deixavam fazer festas infinitas em qualquer parte do corpo, que vinham sempre que eu chamava e que, quando eu chegava a casa, me recebiam saltando-me para o colo.
    Já tive muitos gatos ao longo da minha vida, também já apanhei muitos gatinhos de rua para dar (mais de 50) e só quem lida com muitos gatos ao mesmo tempo é que consegue perceber as diferentes personalidades existentes. Alguns são como descreves os gatos, mas alguns são como descreves os cães e outros são completamente diferentes e mais comparáveis ao tipo de personalidade que pensamos que iguanas, peixes, cavalos, esquilos, etc. têm.
    Todos os indivíduos de todas as espécies animais podem ser considerados todos diferentes, todos iguais.

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  10. Nunca tive animais, mas há pouco tempo um gato adotou-nos. Começámos por lhe dar de comer e de beber, depois lá permitiu as festas. Agora é ele que as pede. Só não lhe podemos pegar ao colo. Salta para os parapeitos da nossa casinha quando passa a hora da refeição. É um gato de rua, mas anda a tentar entrar-nos em casa. Quando saímos deixamo-lo entregue a uma vizinha que entende de gatos muito mais do que nós. Hoje como percebeu que já havia barulho em casa e a ração ou o peixe cozido não estavam à sua disposição bateu à porta da cozinha.

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    1. As vossas vidas nunca mais serão as mesmas depois de se deixarem apaixonar por um animal, seja ele qual for. Olhar nos olhos de um animal, principalmente daqueles que amamos, é atravessar um portal qualquer que nos leva para uma dimensão onde a diferença entre as espécies não existe e, neste momento, tomamos consciência de que somos todos iguais.

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    2. Eu sempre fui de cães. Nunca quis ter gatos porque não os controlamos como aos cães. Vivo numa casa com jardim. Se estou em casa a porta para o jardim está sempre aberta. Um dia fui adotada por um gato e cá estamos todos. À noite vai passear e enquanto não volta não consigo dormir. Com os cães não há esse problema pois não saiem do jardim.

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    3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    4. Carmo V. Romão se o gato bateu à porta da cozinha abra-a ou melhor escancare-lhe a porta da cozinha e do coração, deixe-o entrar e vivam os melhores momentos da vida. E, façam o favor de serem felizes.

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  11. Adorei !!!! Eu sempre tive o melhores dos dois mundos e nunca sao iguais lol

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  12. Amei o texto e todo o conteúdo, que li com um sorriso, confesso . Ja tive cães e tenho 2 gatos o Mohabis e o Sardinha, diferentes em tudo. O Sardinha tapa em silêncio o que faz no areao, o Mo raspa tudo o que tiver em volta, menos no areao, pq sujar as unhas nem pensar. Fazem imensa companhia, são óptimos p o stress com aquele ronronar que nos adormece, e pedem ração nova se já não houver...

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  13. Neste momento tenho três gatos, sendo que a mais "recente" tem apenas 1 mês e só a tenho há tipo... 3 dias completos e os outros dois são manos (gato e gata) de dois anos, também criados por mim desde o primeiro mês de vida. Aquelas pessoas que pensam que adoptar um gato bebé será meio caminho andado para "formatar" e "formar" a maneira de ser de um gato? Esqueçam lá isso... acreditem que eu bem tentei e hoje em dia os manos mais velhos apesar de me seguirem pela casa toda, mas mesmo toda, só não me mandam ir pastar quando não podem ou não têm paciência. Adoro cães e toda a minha vida tive apenas cães, mas a partir da altura em que tens gatos... a vida passa a ter outro nível ;)
    Adorei o texto!

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  14. Juntar uma gata bebé com uma cachorra de 9 anos e achamos que vai ser impossível e numa semana são irmãs. É fabuloso. Adorei o texto

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  15. E é isto, sem tirar nem por!!!

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  16. Adorei o texto pois é isso exatamente o que nos acontece ficar as "ordens" dum pequenote gatinho .... A teimosia é tão clara quando nos olham depois de dizermos: Não se faz; não vas para ali etc. que hoje nem sequer me tinha começado a voltar e já estava onde não devia... Enfim, o que nos agrada é a subtileza e a maneira de nos levar: sabem como agir e depois, vem o pedido de mimos, e mais coisas... Ainda bem que existem gatos!

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  17. Adorei ... eles é que mandam em nós, bem mandar não ... leva-nos a fazer o que querem ...
    Não sei como são os outros mas os meus ( seis ), quando os chamo ao chegar a casa, vêm um a um, recebido o mimo do dia mais uns ronrom e voltam ao " non fare nienti " ...
    Não são cães não mas respondem pelo nome, mimam-me quando estou triste não me deixam quando estou doente ... e quando alguém menos amistoso por acaso está a porta são um verdadeiro catalisador de energias positivas e menos positivas .
    Quando eles me escolheram porque são eles que nos escolhem ...

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