terça-feira, 5 de setembro de 2017

Revistas que sugerem só os melhores lugares

Há dias, percorrendo a página de Facebook de uma conhecida revista, notei um estranho padrão, tão indicador dos tempos que vivemos como aquela estranha forma de comunicar em 140 caracteres: todos os títulos das publicações tinham a palavra “melhor”. Passo a explicar.

“As melhores lojas de decoração [da cidade x]”, “As melhores sandes [da cidade x]”, “Os melhores restaurantes de carne [da cidade x]”, “Os melhores rooftpos [da cidade x]”, “Os melhores restaurantes de petiscos [da cidade x]”, “As melhores marisqueiras [na cidade x e arredores]” (noto aqui que houve algum trabalho, porque os jornalistas não se circunscreveram à cidade x, tendo andado pelos arredores da mesma), “Os melhores pratos com abacate [na cidade x]” ou “Os melhores sabonetes (juro que é verdade, existe mesmo um título assim!) [da cidade x]”, foram alguns dos títulos que encontrei.

A primeira nota que tenho, perante este modo de actuação, é que estamos na presença de indivíduos com conhecimentos suficientemente sólidos para poderem atestar, sem contraditório, que os locais recomendados são mesmo os melhores. Por exemplo, no extraordinário trabalho “Os melhores pequenos-almoços [na cidade x]”, os jornalistas estiveram em estágio, antes de realizar a reportagem: passaram um mês a tomar o pequeno-almoço com chefes de cozinha de grandes hotéis, com o Jamie Oliver, com o Gordon Ramsay, com o Ljubomir Stanisic e, só não tomaram a primeira refeição do dia com o Anthony Bourdain porque ele apareceu às quatro da tarde, com bafo a Jack Daniel’s.

Só depois deste período de aquisição de conhecimento, os jornalistas se lançaram numa descoberta pela cidade x, tomando pequenos-almoços desenfreadamente, à razão de quatro ou cinco por dia, até chegarem a uma lista com os melhores. Só os melhores, os apenas bons foram votados ao esquecimento.

Na reportagem “Os melhores restaurantes românticos [da cidade x]”, os jornalistas andaram um mês com o Pedro Chagas Freitas, e o pessoal que faz aquelas páginas lamechas do Facebook, para registarem onde é que esta gente janta de forma romântica. Está aqui bem presente o risco da profissão de jornalista, uma vez que estes profissionais colocaram em causa a sua sanidade mental, ao conviverem um mês com gente que só sabe dizer frases feitas do mundo sentimental. Bravo!

No trabalho “Os melhores rooftpos [da cidade x]”, os jornalistas tiveram um mês de estágio com especialistas na construção de telhados e na aplicação de telhas e materiais isolantes, e só depois andaram, qual Homem-Aranha, pelos telhados da cidade x, até chegarem a uma lista que só tinha os melhores.

A segunda nota, depois da admiração pela sabedoria destes jornalistas, vai para a necessidade que as pessoas têm, hoje, de que lhes façam o trabalho todo. Acabou-se a descoberta, acabou-se o factor-supresa, acabou-se a hipótese de entrar na rua errada e ser roubado, ou de jantar num tasco asqueroso e com cheiro a fritos, que ostente, numa das paredes, um certificado de inspecção sanitária realizada em 1953.

Hoje, a malta quer tudo feito. “Dêem-me a lista já prontinha, que eu vou visitar esses sítios todos. Mas só dos melhores, porque eu não me contento com sítios só bons”. Sendo assim, termino com algumas sugestões à referida revista, para reportagens futuras.

Os melhores carpinteiros [da cidade x]
Está farto daquela mesa que descai? Detesta aquela porta que range como se lhe estivessem a tirar um dente? Encontre os melhores profissionais da madeira. Não da Madeira, porque esta revista dedica-se apenas à cidade x.

Os melhores mecânicos [da cidade x]
Bons sítios para trocar uma válvula que custa dez euros sem pagar 170.

Os melhores sítios para gamar turistas na [da cidade x]
Andámos um mês com os carteiristas de referência desta cidade e mostramos-lhe tudo.

Os melhores tascos [da cidade x] para ver futebol sem levar no focinho
Uma lista de lugares onde podes festejar um golo do teu clube sem que uma cadeira voe na tua direcção.

As melhores casas-de-banho públicas [da cidade x]
Deu-te uma guinada no meio da rua e tens poucos minutos para encontrar uma casa-de-banho limpinha que te salve de uma cena épica? Aqui ficam as nossas sugestões para um porto seguro.

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