segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Um Instagram de pessoas que não distinguem sushi de sashimi

Se eu fosse milionário, dedicava-me a melhorar o Mundo. Não estou a falar de acabar com o Correio da Manhã, porque logo apareceria outro jornal parecido só para fazer manchetes a dizer mal de mim. E a minha mãe ia ficar triste com isso.

Não estou a falar de realizar acções de solidariedade, de investir na Ciência e na Cultura porque, para isso, já existem os nossos bons políticos, cheios de humanismo e de sentido de dever, verdadeiramente comprometidos com o progresso das sociedades, ou com um qualquer amigo que lhes pagou os cartazes da campanha eleitoral. Nem eu queria tirar o trabalho a estes bons políticos, porque esta malta, assim que põe os pezinhos nas juventudes partidárias, nunca mais aprende a fazer outra coisa. Tirar-lhes o trabalho seria criar mais desemprego de longa duração.

Eu tentava melhorar o Mundo dando espaço mediático àqueles que não o têm. Não, não estou a falar de criar um fórum, no qual pessoas desinteressantes debitariam lugares-comuns por telefone, porque as televisões já descobriram esse filão há imenso tempo. Tenho tanta vontade de ouvir mais um indignado com tudo e todos a gritar ao telefone, em directo na televisão, como de ouvir o Marques Mendes a ler um livro do Gustavo Santos em voz alta. Anda a Apple a investir rios de dinheiro em reconhecimento facial e ainda não temos um telemóvel que se bloqueie quando lhe ditam baboseiras.

Se eu fosse milionário, percoreria o Mundo e daria espaço às pessoas que não são suficientemente perfeitas para estarem no Instagram. Como toda a gente sabe, só não são perfeitos os seres humanos que não estão nesta rede social. Para quando um tipo com uma proeminente barriga, vestido com uma camisola do Benfica, a assar costelinha enquanto bebe uma mini? É que, segundo o Instagram, todos os gajos que se deixam fotografar numa refeição estão em troncu nu, a mostrar os seus perfeitos abdominais, enquanto botam abaixo uma malga de pudim de aveia.

Para quando, no Instagram, um fato-de-treino tipicamente anos 90, com cores tão garridas que permitem que um tipo seja localizado a partir da Estação Espacial Internacional, e tão largo que permite transportar a água, as luvas, a bola medicinal e a toalha para o treino no bolso que não traz o smartphone? É que, de acordo com o Instagram, a roupa de treino é tão justa que, ao primeiro agachamento, tanto podem alojar-se os ombros junto à anca, como os testículos junto a um rim.

Para quando fotografias de pessoas a ler os “A República” de Platão ou a revista “Time”, só para mostrar que há quem não ache que “ONU” seja o nome de um restaurante de sushi? Aliás, de acordo com o Instagram, 87% da população mundial é japonesa, ou tem ascendência daquela nacionalidade, não por causa da expressão facial ou da linguagem, mas por saber distinguir, com margem de erro nula, sushi de sashimi. Nós, que não sabemos, somos uma espécie de tripo aborígene da Mongólia, que usa fogo para afugentar os ursos.

Para quando uma mulher com um bocadinho de barriga e sem mamas e glúteos em forma de melancia? Daqui a 200 anos, os seres humanos olharão para o Instagram e dedicar-se-ão a investigar que mutação genética retirou a celulite da nossa espécie. Com um Instagram de gente normal, como aquele que gostaria de implementar, poderiam concluir que as mulheres sem rabo tinham sobrevivido à extinção, na era geológica da granola e do “crossfit”.

Animais fofos: outra tendência. E que tal um Instagram só com cães rafeiros? E gatos velhotes, daqueles que nos olham como se lhes devêssemos dinheiro ou se tivessem que ir renovar o Cartão do Cidadão? De acordo com o Instagram, estamos a desencadear uma selecção de animais domésticos que parecem saídos de uma série qualquer do canal Panda. O Farrusco, que é um cão velhote, meio gordito e sem amaciador no pêlo, perdeu o seu espaço mediático. Sem perceber porquê, mas isso talvez seja por ser um cão demasiado velho para mexer em smartphones.

Porque não arquitectura ultra-realista? Toda a gente fotografa bem janelas e varandas, piscinas e jardins. E uma sanita? Ninguém fotografa com estilo uma sanita. Em que é que uma sanita é menos merecedora de espaço mediático do que uma piscina? Experimentem sofrer um desarranjo intestinal num dia de inverno e quero ver junto de qual destas querem estar.

No Instagram, toda a gente come saladas ou comida gourmet. E percebe-se: no dia em que alguém publicar uma fotografia de arroz de cabidela ou de cozido à portuguesa, terá o Instituto de Medicina Legal à perna.

Já agora: no Instagram, todas as pessoas são felizes. Se eu fosse milionário, as duas ou três pessoas que, em toda a Humanidade, são infelizes, teriam o seu espaço, caso o pretendessem. Mesmo que não soubessem o que é sashimi.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Revistas que sugerem só os melhores lugares

Há dias, percorrendo a página de Facebook de uma conhecida revista, notei um estranho padrão, tão indicador dos tempos que vivemos como aquela estranha forma de comunicar em 140 caracteres: todos os títulos das publicações tinham a palavra “melhor”. Passo a explicar.

“As melhores lojas de decoração [da cidade x]”, “As melhores sandes [da cidade x]”, “Os melhores restaurantes de carne [da cidade x]”, “Os melhores rooftpos [da cidade x]”, “Os melhores restaurantes de petiscos [da cidade x]”, “As melhores marisqueiras [na cidade x e arredores]” (noto aqui que houve algum trabalho, porque os jornalistas não se circunscreveram à cidade x, tendo andado pelos arredores da mesma), “Os melhores pratos com abacate [na cidade x]” ou “Os melhores sabonetes (juro que é verdade, existe mesmo um título assim!) [da cidade x]”, foram alguns dos títulos que encontrei.

A primeira nota que tenho, perante este modo de actuação, é que estamos na presença de indivíduos com conhecimentos suficientemente sólidos para poderem atestar, sem contraditório, que os locais recomendados são mesmo os melhores. Por exemplo, no extraordinário trabalho “Os melhores pequenos-almoços [na cidade x]”, os jornalistas estiveram em estágio, antes de realizar a reportagem: passaram um mês a tomar o pequeno-almoço com chefes de cozinha de grandes hotéis, com o Jamie Oliver, com o Gordon Ramsay, com o Ljubomir Stanisic e, só não tomaram a primeira refeição do dia com o Anthony Bourdain porque ele apareceu às quatro da tarde, com bafo a Jack Daniel’s.

Só depois deste período de aquisição de conhecimento, os jornalistas se lançaram numa descoberta pela cidade x, tomando pequenos-almoços desenfreadamente, à razão de quatro ou cinco por dia, até chegarem a uma lista com os melhores. Só os melhores, os apenas bons foram votados ao esquecimento.

Na reportagem “Os melhores restaurantes românticos [da cidade x]”, os jornalistas andaram um mês com o Pedro Chagas Freitas, e o pessoal que faz aquelas páginas lamechas do Facebook, para registarem onde é que esta gente janta de forma romântica. Está aqui bem presente o risco da profissão de jornalista, uma vez que estes profissionais colocaram em causa a sua sanidade mental, ao conviverem um mês com gente que só sabe dizer frases feitas do mundo sentimental. Bravo!

No trabalho “Os melhores rooftpos [da cidade x]”, os jornalistas tiveram um mês de estágio com especialistas na construção de telhados e na aplicação de telhas e materiais isolantes, e só depois andaram, qual Homem-Aranha, pelos telhados da cidade x, até chegarem a uma lista que só tinha os melhores.

A segunda nota, depois da admiração pela sabedoria destes jornalistas, vai para a necessidade que as pessoas têm, hoje, de que lhes façam o trabalho todo. Acabou-se a descoberta, acabou-se o factor-supresa, acabou-se a hipótese de entrar na rua errada e ser roubado, ou de jantar num tasco asqueroso e com cheiro a fritos, que ostente, numa das paredes, um certificado de inspecção sanitária realizada em 1953.

Hoje, a malta quer tudo feito. “Dêem-me a lista já prontinha, que eu vou visitar esses sítios todos. Mas só dos melhores, porque eu não me contento com sítios só bons”. Sendo assim, termino com algumas sugestões à referida revista, para reportagens futuras.

Os melhores carpinteiros [da cidade x]
Está farto daquela mesa que descai? Detesta aquela porta que range como se lhe estivessem a tirar um dente? Encontre os melhores profissionais da madeira. Não da Madeira, porque esta revista dedica-se apenas à cidade x.

Os melhores mecânicos [da cidade x]
Bons sítios para trocar uma válvula que custa dez euros sem pagar 170.

Os melhores sítios para gamar turistas na [da cidade x]
Andámos um mês com os carteiristas de referência desta cidade e mostramos-lhe tudo.

Os melhores tascos [da cidade x] para ver futebol sem levar no focinho
Uma lista de lugares onde podes festejar um golo do teu clube sem que uma cadeira voe na tua direcção.

As melhores casas-de-banho públicas [da cidade x]
Deu-te uma guinada no meio da rua e tens poucos minutos para encontrar uma casa-de-banho limpinha que te salve de uma cena épica? Aqui ficam as nossas sugestões para um porto seguro.