Onde está o teu telemóvel?

A minha relação com o telemóvel é igual à que um bêbado tem com o bom senso: é raro recorrer aos seus serviços. No entanto, por razões de sociabilidade, tenho telemóvel. Até porque acredito que, um dia, poderei estar numa situação em que tenha que salvar o mundo e precise de fazer um telefonema.

(Tim G. Photography/Flickr)

Imaginemos que uma civilização extraterrestre, totalmente hostil, nos invade. Eu posso ser o primeiro a saber e ter que avisar a NASA, o Donald Trump, ou os tipos da Coreia do Norte. Bom, embora tenham mísseis espectaculares, não sei se o pessoal da Coreia do Norte tem telemóvel.

Numa segunda análise, a hipótese de ser eu a avisar toda a gente acerca de uma invasão extraterrestre é estúpida: não por ser extremamente provável que a NASA saiba antes de mim, mas sobretudo porque, mesmo perante a extinção, não me vai apetecer telefonar a ninguém.

Eu tenho sempre uma boa desculpa para não atender o telefone. Começo pelo facto de o ter muitas vezes em modo silencioso. Eu sei: o Bell matou-se a trabalhar para inventar o telefone e a piada é ele tocar, alertando-nos para o facto de alguém querer falar connosco. Mas é uma espécie de mecanismo de seriedade: se ele estiver sem som, eu posso dizer que não o ouvi a tocar, porque não ouvi mesmo. Estou a mentir com a verdade, e isso parece-me ser menos mentiroso do que mentir com a mentira.

Outra das situações que pode suceder é estar com o telemóvel na casa-de-banho e não atender por isso mesmo. Falar com alguém enquanto estamos sentados na sanita é como se trouxéssemos essa pessoa para a casa-de-banho, naquele preciso momento. E imaginar determinadas pessoas na casa-de-banho, num momento em que temos um pouco menos de dignidade do que o habitual pode ser, no mínimo, inibidor de cocó.

Um problema que os telemóveis trouxeram e que é uma violência muito grande para mim é atender o telefone e do outro lado atirarem-nos com um determinado “Onde estás?”. Aqui, nem precisamos de estar com o telemóvel na casa-de-banho: há várias situações em que não nos interessa muito dizer onde estamos. Ou porque estamos noutra cidade, noutro país, ou noutro planeta com boa cobertura de rede telefónica. Ou porque não queremos que a pessoa que nos está a ligar tenha a infeliz ideia de perguntar “Não queres vir cá?” ou, pior ainda, “E se eu aparecesse aí?”, esquecendo-se, muitas vezes, que se quiséssemos estar com ela, provavelmente tê-la-íamos feito saber. Ou porque, muitas das vezes, o problema não é onde estamos, mas sim com quem estamos, que será a pergunta seguinte, em 87% dos casos. Aí, sugiro boas respostas como “Estou a fugir de um leopardo” ou “Trouxe o meu hipopótamo à rua”: ou a pessoa que nos liga acredita e nos deixa em paz, tanto para fugirmos com sucesso do leopardo, como para darmos toda a atenção ao hipopótamo; ou não acredita e percebe que o sarcasmo é uma forma de dizer que não vamos responder a mais perguntas. É 100% eficaz.

Mas, quando tenho que falar, falo, pelo que, há pessoas bem piores do que eu, que são aquelas que não querem gastar a rede telefónica: parece que têm medo de que a sociedade fique sem rede, se elas demorarem muito. Então fazem chamadas de duas palavras, tais como “Não almoço”, “Chego tarde”, “Vou casar”. Algumas há que, se disserem quatro palavras, como “Não durmo em casa”, precisam de pedir baixa médica, por esgotamento. As SMS destas pessoas também são, geralmente, tão parcas em palavras que só têm pontos e traços. Sim, estas pessoas enviam mensagens em código Morse. Pegando no exemplo mais simples e quotidiano acima referido, como “Vou casar”, a mensagem em Morse resulta da seguinte forma “...- --- ..- / -.-. .- ... .- .-.”. e assim se poupa a rede de infinitos bytes de memória desperdiçada em palavras. Até porque se as pessoas percebem a complexa linguagem dos emojis, de certeza que sabem Morse.

Do outro lado da moeda, estão as pessoas para quem, se não o ouviram num telefonema, então não aconteceu. São aquelas que actualizam o seu estado, por telefone, doze vezes por dia, junto das pessoas mais próximas. São aquelas que partem a frase em três partes, para mandarem três SMS’s, em vez de uma. E são as mesmas que, quando eu avisar a NASA de que o mundo está a ser invadido, vão esperar no sofá, reforçando que ainda ninguém lhes ligou a avisar.

Quando isso acontecer, de certeza que vão ter o telefone com som.

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