De que falam dois robôs?

Agora, que já passou tempo suficiente, sem que as máquinas tenham tomado o controlo do planeta, já posso abordar o tema, sem temer que um ciborgue exterminador com sotaque estranho me apareça à porta: há um mês, foi noticiado que o Facebook tinha desligado dois robôs de uma experiência relacionada com inteligência artificial, depois de estes terem começado a comunicar um com o outro numa linguagem própria.

(Isaac Wedin/Flickr)

Quando a notícia foi publicada, escondi-me no meu quarto, a ler, a ver filmes e a acompanhar as incidências na “Guerra dos Tronos”. Agora que penso nisso, o meu tempo livre permaneceu igual ao que já era, antes desta notícia, mas agora com medo que as máquinas provocassem a nossa extinção. O que até tornou a minha existência mais emocionante.

E daquela vez em que um ciborgue exterminador com sotaque estranho me apareceu à porta, foi só para saber se eu tinha televisão por cabo em casa ou se estava interessado em aderir a um serviço de uma das operadoras.

Mas voltando à experiência do Facebook, esta consistia em colocar dois robôs a estabelecer uma negociação, para testar se seriam, mais tarde, capazes de comunicar com humanos. Podiam fazer o mesmo com o pessoal ligado ao futebol: tentar que eles fossem capazes de comunicar sem arremessar fezes uns aos outros, para depois podermos misturá-los, em segurança, com o resto da sociedade.

Acontece que, não tendo sido criado nenhum limite de linguagem, os robôs desenvolveram uma que lhes permitisse comunicar de forma mais eficaz. No início, os responsáveis pela experiência pensaram que a linguagem não fazia sentido, mas depois perceberam que obedecia a uma lógica. Não pude deixar de pensar que deve ser o que acontece quando dois amigos que estão bêbados se encontram: eles balbuciam coisas imperceptíveis e desconexas, para quem está sóbrio, mas aquilo deve fazer sentido para eles. Provavelmente, o sentido da vida já foi descoberto em conversas entre bêbados, mas ninguém decifrou o que eles disseram.

Segundo foi comunicado, os robôs foram desligados, não por receio de que a situação se descontrolasse, mas porque o resultado não foi o esperado pelos responsáveis pela experiência. Eu não acredito na versão oficial: para mim, os robôs andaram dez minutos no Facebook e adquiriram os maus hábitos de alguns utilizadores.

Começaram logo por comentar notícias como um verdadeiro troll. “Isto é tudo para nos enganar”, “Era matar estes gajos todos”, “[Determinado clube de futebol] é merda” ou “Que gaja boa” foram algumas das frases complexas que os robôs copiaram dos comentários de alguns utilizadores mais activos.

A fase seguinte foi partilhar músicas dos D.A.M.A, do A.G.I.R e do Diogo Piçarra, com legendas enigmáticas como “Saudades do nosso cantinho” ou “Dava tudo por um beijo teu”.

Quando um dos robôs ficou mais deprimido, inundou a internet de publicações daquelas em que alguém está “A sentir-se qualquer coisa", seguidas de textos com lamúrias em série.

Depois, um dos robôs começou a seguir a página do Gustavo Santos e começou a fazer “life coaching” ao outro, que só queria estar ali sossegadinho a saber quem é que o seu clube (sim, ele “adoptou” logo um clube de futebol) ia contratar. Então o diálogo tornou-se algo deste género:

- Tens que te amar mais do que a tudo. És uma prioridade, não podes ser uma opção.

- Eh pá, deixa ver quem é este gajo que o meu clube contratou.

- Não podes desistir, os obstáculos são para nos empurrar para o sucesso, não para nos deitar ao chão.

- O gajo marcou 28 golos, o ano passado.

- Tens que estabelecer metas impossíveis, porque o impossível só requer mais um bocadinho de esforço do que o difícil.

- Cala-te com isso! Só quero um bocado de sossego!

- É esse o caminho: não dependas dos outros para te sentires bem contigo mesmo.

Neste ponto, o conflito sofreu uma escalada de violência e um dos robôs foi desligado. O outro partilhou uma imagem do pôr-do-sol, com a legenda “Só valorizamos os amigos quando eles nos faltam”. E desligou-se.

Até receber uma chamada de um ciborgue exterminador com sotaque estranho, que queria saber se tinha televisão por cabo.

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