terça-feira, 8 de agosto de 2017

Como está o tempo na praia?

Por estes dias, andamos entretidos com as grandes questões, aquelas que nos fazem pensar em nós, enquanto civilização, aquelas que realmente definem o nosso mundo, tais como “Será que António Costa vai mexer no Governo?”, “Quem vai despedir hoje Donald Trump?”, “Como evolui a situação na Venezuela?” ou, mais importante do que todas as anteriores, “Como está o tempo na praia?”.

(Sean MacEntee/Flickr)

Sobre esta última, noto que é difícil chegar a um consenso. Existem diversos grupos de Facebook dedicados ao tema, mas a malta já perde muito tempo com os grupos de jantares, de compra e venda de cangalho e de conteúdos eróticos. Para além disso, é difícil utilizar uma linguagem que seja universalmente compreensível. “Tá bom”, Tá mau”, “Tá assim-assim” ou “Tá top tipo sunset no rooftop” são expressões que pouco ou nada acrescentam.

Existem sites dedicados à informação sobre o estado do tempo mas, para além de não termos tempo de nos graduarmos em Meteorologia, numa manhã de Sábado, existe um problema de escala. O que é “vento fraco a moderado”? Não consigo estar em paz, com a vida, em geral, se não me disserem a partir de que ponto o vento abandona a região do “fraco”, para entrar, com toda a moderação, na região do “moderado”?

Para além disso, estes sites não contêm informações que tem que ser dadas por quem está na praia, tais como o número de pessoas, em geral, o número de pessoas ruidosas, em particular, o número de pessoas a praticarem desportos diversos, que possam resultar, para nós, em boladas na cara ou em areia na toalha a toda a hora, o cheiro a fritos provindo de tupperwares abertos, entre outras.

Sendo que, das 24 horas diárias de um canal de TV cabo, 32 são dedicadas ao comentário de futebol, todas as pessoas sabem, hoje em dia, o que é organização defensiva e organização ofensiva, transição rápida, ataque rápido e contra-ataque, pressão alta, corredores laterais e corredor central, último passe, circulação, exercícios de aquecimento, fora-de-jogo, cartões amarelos e vermelhos, entre outros termos, alguns dos quais oriundos da Física de partículas. Por isso mesmo, proponho que os comentadores de futebol passem o dia na praia, acumulando o comentário desportivo com a informação sobre o estado do tempo. Ganham eles, porque fazem as suas 32 horas diárias de programa com os pezinhos na areia Ganhamos nós, porque temos, finalmente, quem nos saiba dizer que tempo está na praia.

Dia muito quente
“O sol está a fazer uma circulação de calor perfeita, não deixando possibilidade ao vento de fazer o seu jogo e refrescar os banhistas. E o sol não dá sinais de poder abrandar o ritmo do ataque, tendo o jogo perfeitamente controlado.”

Dia com sol, mas com nortada
“O vento está a fazer uma transição muito rápida, do Norte para o Sul, levando consigo areia, toalhas e caranguejos. O jogo está a pedir uma substituição do tapa-vento, que dá sinais evidentes de desgaste e está rasgado em três sítios, por um muro de betão que seja capaz de conter esta toada ofensiva.”

Dia conzento
“As nuvens estão a pressionar tão alto que tapam o sol. O melhor é fazer exercícios de aquecimento, que está muito frio na praia.”
Dia com sol, mas com mar revolto
“O mar está a carregar com muita força no areal. Só a permissividade do nadador-salvador tem retardado o cartão amarelo. Há que proteger o jogo e entradas destas colocam em risco a integridade física do adversário.”

Muita gente na praia
“Os corredores laterais, assim como o corredor central, estão bem povoados. A organização defensiva dos banhistas torna quase impossível a penetração nas zonas mais próximas do mar. Há quem tenha fugido para locais mais isolados, mas está em clara posição de fora-de-jogo.”

Pouca gente na praia
"Os banhistas a concederem muito espaço para jogar entre linhas. Se a situação não se alterar, vão perder o controlo do jogo."

Para além de termos informação confiável, quando chegássemos a casa, tínhamos direito à análise do dia de praia. “Foi um dia competitivo, com o sol e o mar a darem uma boa réplica aos banhistas. Estes acabaram por vencer com justiça, já que mantiveram um ritmo de jogo elevado até aos últimos minutos. Nota negativa apenas para o Sr. Martins, que adormeceu ao sol, de barriga para o ar, e está com um escaldão que merece atenção do departamento médico. Talvez fique uma semana sem competir.”

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Onde está o teu telemóvel?

A minha relação com o telemóvel é igual à que um bêbado tem com o bom senso: é raro recorrer aos seus serviços. No entanto, por razões de sociabilidade, tenho telemóvel. Até porque acredito que, um dia, poderei estar numa situação em que tenha que salvar o mundo e precise de fazer um telefonema.

(Tim G. Photography/Flickr)

Imaginemos que uma civilização extraterrestre, totalmente hostil, nos invade. Eu posso ser o primeiro a saber e ter que avisar a NASA, o Donald Trump, ou os tipos da Coreia do Norte. Bom, embora tenham mísseis espectaculares, não sei se o pessoal da Coreia do Norte tem telemóvel.

Numa segunda análise, a hipótese de ser eu a avisar toda a gente acerca de uma invasão extraterrestre é estúpida: não por ser extremamente provável que a NASA saiba antes de mim, mas sobretudo porque, mesmo perante a extinção, não me vai apetecer telefonar a ninguém.

Eu tenho sempre uma boa desculpa para não atender o telefone. Começo pelo facto de o ter muitas vezes em modo silencioso. Eu sei: o Bell matou-se a trabalhar para inventar o telefone e a piada é ele tocar, alertando-nos para o facto de alguém querer falar connosco. Mas é uma espécie de mecanismo de seriedade: se ele estiver sem som, eu posso dizer que não o ouvi a tocar, porque não ouvi mesmo. Estou a mentir com a verdade, e isso parece-me ser menos mentiroso do que mentir com a mentira.

Outra das situações que pode suceder é estar com o telemóvel na casa-de-banho e não atender por isso mesmo. Falar com alguém enquanto estamos sentados na sanita é como se trouxéssemos essa pessoa para a casa-de-banho, naquele preciso momento. E imaginar determinadas pessoas na casa-de-banho, num momento em que temos um pouco menos de dignidade do que o habitual pode ser, no mínimo, inibidor de cocó.

Um problema que os telemóveis trouxeram e que é uma violência muito grande para mim é atender o telefone e do outro lado atirarem-nos com um determinado “Onde estás?”. Aqui, nem precisamos de estar com o telemóvel na casa-de-banho: há várias situações em que não nos interessa muito dizer onde estamos. Ou porque estamos noutra cidade, noutro país, ou noutro planeta com boa cobertura de rede telefónica. Ou porque não queremos que a pessoa que nos está a ligar tenha a infeliz ideia de perguntar “Não queres vir cá?” ou, pior ainda, “E se eu aparecesse aí?”, esquecendo-se, muitas vezes, que se quiséssemos estar com ela, provavelmente tê-la-íamos feito saber. Ou porque, muitas das vezes, o problema não é onde estamos, mas sim com quem estamos, que será a pergunta seguinte, em 87% dos casos. Aí, sugiro boas respostas como “Estou a fugir de um leopardo” ou “Trouxe o meu hipopótamo à rua”: ou a pessoa que nos liga acredita e nos deixa em paz, tanto para fugirmos com sucesso do leopardo, como para darmos toda a atenção ao hipopótamo; ou não acredita e percebe que o sarcasmo é uma forma de dizer que não vamos responder a mais perguntas. É 100% eficaz.

Mas, quando tenho que falar, falo, pelo que, há pessoas bem piores do que eu, que são aquelas que não querem gastar a rede telefónica: parece que têm medo de que a sociedade fique sem rede, se elas demorarem muito. Então fazem chamadas de duas palavras, tais como “Não almoço”, “Chego tarde”, “Vou casar”. Algumas há que, se disserem quatro palavras, como “Não durmo em casa”, precisam de pedir baixa médica, por esgotamento. As SMS destas pessoas também são, geralmente, tão parcas em palavras que só têm pontos e traços. Sim, estas pessoas enviam mensagens em código Morse. Pegando no exemplo mais simples e quotidiano acima referido, como “Vou casar”, a mensagem em Morse resulta da seguinte forma “...- --- ..- / -.-. .- ... .- .-.”. e assim se poupa a rede de infinitos bytes de memória desperdiçada em palavras. Até porque se as pessoas percebem a complexa linguagem dos emojis, de certeza que sabem Morse.

Do outro lado da moeda, estão as pessoas para quem, se não o ouviram num telefonema, então não aconteceu. São aquelas que actualizam o seu estado, por telefone, doze vezes por dia, junto das pessoas mais próximas. São aquelas que partem a frase em três partes, para mandarem três SMS’s, em vez de uma. E são as mesmas que, quando eu avisar a NASA de que o mundo está a ser invadido, vão esperar no sofá, reforçando que ainda ninguém lhes ligou a avisar.

Quando isso acontecer, de certeza que vão ter o telefone com som.