A revolta dos designers

Há dias, vi um anúncio de um concurso, no qual se solicitavam propostas para a identidade gráfica de incubadoras municipais de empresas, sendo a proposta vencedora premiada com … um iPad. Sim, o trabalho de dezenas (ou centenas?) de criativos será premiado com um iPad. Eu sei que aquelas pessoas que são incapazes de distinguir um ábaco de um computador poderão dizer “Eh pá, é um iPad Pro, que tem uma caneta toda gira e que até pode ser uma ferramenta de trabalho útil a um designer”. A estas alimárias eu responderia: “Então podemos contratar um carpinteiro e pagar-lhe com um martelo”.

(Simone Bosotti/Flickr)

Não interessa revelar qual é a Câmara Municipal que fez isto, até porque foi a de Guimarães e, como eu sou de Braga, os trolls que estiverem de serviço, na Internet, nos próximos dias, poderão acusar-me de estar a fomentar querelas bairristas. O que não corresponde à verdade, uma vez que enunciei este concurso a título de exemplo. Não é uma novidade, é só mais uma, no imenso conjunto de iniciativas que tratam os designers como mercadoria.

Quando vi o anúncio, tive o cuidado de confirmar que o concurso não era promovido por uma empresa que comercializa carne ou lacticínios. Se fosse, a explicação para este caso poderia estar no facto de o responsável pelo concurso, afectado pelo cansaço e pelo stress da vida empresarial, ter confundido os designers com gado bovino. Até se aceitava, porque o homem andava cansado e confuso, ele fazia um pedido de desculpas, ou era queimado em público, dependendo de quem analisasse a situação, e a vida seguia.

Mas não. Isto foi objecto de uma decisão consciente (?!). Depois da vaga de pessoas que acham que “Isto o que era preciso era um Salazar para pôr ordem”, e das pessoas que acham que os direitos dos animais só farão sentido quando todos os seres humanos forem felizes, o nosso maior problema é a malta que diz” “Arranja aí 1,5Kg de bom design e 200g de texto, por favor. Ah, e 150 de fiambre, que o meu Gonçalinho gosta de uma sande ao lanche.”

Mas isto não vai ficar por aqui. As empresas estão sempre a reinventar-se e a adaptar-se aos novos desafios. Não faltará muito tempo para que os anúncios possam ser algo como:

- Cria a identidade gráfica da Câmara Municipal e ganha um presunto pata negra (não ia haver autarquias a premiar designers com um iPad Pro e nós a oferecermos presuntos normais, não, nós damos um pata negra!);

- Cria o logótipo da nossa empresa e ganha um voucher com 10% de desconto num fim-de-semana no melhor hotel do Mónaco;

- Cria o cartaz da nossa festa e ganha um bilhete duplo para um concerto do A.G.I.R. (éramos para escolher algo que se parecesse mais com música, mas o nosso contacto só nos arranjou do A.G.I.R.)

- Cria a mascote do nosso evento e ganha um like na tua página.

Nem faltará muito tempo para que, em sede de Concertação Social, os representantes das empresas proponham a criação de um zoo de designers, no qual os empresários possam atirar comida aos criativos, em troca de trabalho.

Amigos designers, revoltem-se. Proponho uma solução, que passa por todos os participantes enviarem propostas do mesmo calibre dos seguintes desenhos (eu sei, sou óptimo a desenhar no Paint, mas garanto que não fiz isto para promover o meu talento; coloco legenda, porque a minha arte foge para o abstracto e alguns leitores poderão não compreendê-la).

Menino 
Menina
Sol

Flor

Confrontados com tamanha qualidade, os empresários começariam a pensar em fazer algo que desonraria as suas famílias e colocaria em causa o futuro das suas empresas: pagar devidamente pelo trabalho dos designers.

Comentários

  1. Olá... leio seu texto e vejo que nosso problema é idêntico. Sou brasileiro e já passo por esses tipos de leilões há anos. A situação acontece assim nas terras tupiniquins. Eu mando meu orçamento, o cliente analisa o valor e diz que tem um preço melhor que o filho da vizinha dele mandou. Ah,e ele faz a arte no Microsoft World!!!
    Tem dias que fico muito desanimado em continuar na profissão, pois a sua visão é a mesma da minha, mas não troco meu trabalho por fiambre, e conheço muitas pessoas da área que trocariam sem pensar duas vezes... isso é profissão ou prostituição?

    ResponderEliminar
  2. "O Capitalismo, na sua fase final, a do Capital Financeiro, inútil e predador, tudo transformará em mercadoria, que explorará até à exaustão"
    Porto isto, este belo texto (belo, porque exprime bem uma justa revolta), poderia ficar-se pela parte final do primeiro parágrafo.
    Exactamente, o mercado chegou aos afectos, às relações sociais e também, ao desenho! Então, preparem-se para o "design" ao quilo, que queriam...?

    ResponderEliminar
  3. E então o estagio? Também não é abuso? Trabalhar de graça numa empresa que muitas vezes nem da área é! Isto é a escravatura moderna! E não venham dizer que ganhamos conhecimento porque eu nnc ganhei nada enquanto estagiário!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário