Balelas nos sites de emprego

O que mais me fascina na frase “Vergonha é roubar e ser apanhado” é o facto de o ponto final não estar colocado logo a seguir a “roubar”. Segundo este dizer, senhoras e senhores, roubar não é mau. Mau é ser néscio, laparoto, neca, babana ao ponto de se ser apanhado. Uma pessoa que rouba é uma pessoa que faz pela vida. Mas uma pessoa que é apanhada a roubar é alguém com quem não gostaríamos de casar um/a filho/a.

Bom, a avaliar pelo histórico português de eleições autárquicas, mesmo ser apanhado não quer dizer que se perca popularidade e que se seja um mau partido. E se o nosso/a filho/a estiver encalhado/a há muito tempo, até podemos esquecer o facto de a pessoa com quem o/a vamos casar ter sido apanhada a roubar. No caso de o pretendente se tratar de um banqueiro, a comunhão de bens pode ser uma óptima solução.

Vem esta introdução algo desinteressante e um pouco fatalista a propósito de uma tendência que acho preocupante nos sites de emprego: muitas empresas não dizem o que querem. Há uma espécie de complexo que leva a que não se diga qual a função para a qual há uma vaga. É como se se tivesse vergonha de dizer qual a função. É como quando alguém quer acabar uma relação e não sabe como: anda-se ali à volta com coisinhas e não se diz logo tudo de uma vez. Exemplifico.

(Véronique Debord-Lazaro/Flickr)

Precisa-se vendedor porta-a-porta
Trabalho tão respeitável como qualquer outro, e infinitamente mais respeitável do que roubar (ser apanhado é opcional), para este tipo de trabalho, as empresas anunciam vaga para algo como “comunicadores” ou “dinamizadores comerciais, junto do cliente final, de marcas, bens e serviços”. Pergunto eu: se pedissem vendedores porta-a-porta, não teriam uma melhor triagem dos candidatos? Candidatava-se quem queria, quem não queria não ia ao engano. Até porque os “dinamizadores comerciais, junto do cliente final, de marcas, bens e serviços” podem não estar interessados no porta-a-porta.

Precisa-se de funcionário da limpeza
Para as empresas que, imagine-se, vendem serviços de limpeza, trabalhar na limpeza não é digno. É tipo vender droga: dá dinheiro, mas é feio. Nada mais errado: a limpeza é essencial, na vida, no trabalho, nas zonas púbicas ou num bordel. Sendo assim, podem pedir “funcionários de limpeza” nos anúncios, e não “operadores de logística higiénica”. Facilitavam a vida a toda a gente.

Precisa-se de canalizador
A canalização é como o intestino: só lhe damos valor quando a matéria empanca. Sendo assim, as empresas que vendem serviços de canalização podem solicitar, nos sites de emprego, canalizadores, em vez de “pipelining problem solvers”. É a mesma coisa, mas facilita a vida a um canalizador que procure trabalho. Por vezes, a um canalizador desempregado, é mais difícil encontrar trabalho do que um objecto que esteja a obstruir um cano. Tudo por culpa do pipelining das empresas.

Precisa-se de construtor civil
O que seria de nós se não houvesse gente de fibra que, à chuva e ao sol, com calor e com frio, nos construísse as casas e as infraestruturas necessárias à nossa vida? Pois bem, colocar um anúncio para “construtor civil” seria uma boa ideia para as empresas de construção civil. Mas há sempre alguém com uma ideia melhor: porque não pedir um “operário concretizador de concepções arquitectónicas”?

Outra tendência tem a ver com o facto de haver muitos jornalistas desempregados. Por este motivo, toda a gente desatou a pedir o seu jornalista, nos sites de emprego, para desempenhar as mais diversas funções, todas elas respeitáveis, mas que nada têm a ver com jornalismo. Deixo alguns exemplos.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para fazer telemarketing, mas as suas “skills” ao nível da escrita podem ajudar a escrever alguns e-mails.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para trabalhar como “operário concretizador de concepções arquitectónicas”, mas pelo meio, sempre pode dizer notícias aos colegas, como se estivesse na rádio. E fazer relatos de futebol.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para motorista de pesados. Mas as suas capacidades de comunicação podem ajudar na relação com os clientes.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para trabalhar no “Correio da Manhã”.

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