quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Por políticos que joguem à "sueca"

Entregaram, ao Presidente da República, uma lista com 15 propostas sobre como melhorar a relação entre políticos e cidadãos. Adoro a ideia. Isto é uma espécie de arranjinho, como aqueles que os casais fazem para juntar dois amigos. Esses arranjinhos servem dois propósitos fundamentais. Um deles é aumentar o leque de opções que os casais têm para sair ou jantar aos fins-de-semana. Todos os casais têm alturas em que já não têm paciência para estar a sós, pelo que, poderão minorar o sofrimento partilhando-o com outro casal. Outro dos propósitos fundamentais é o “babysitting”. Elas querem ir às compras mas não têm com quem os deixar: deixam-nos a tomar conta um do outro. Eles querem ir à bola mas não têm com quem as deixar: deixam-nas a tomar conta uma da outra.

E o que estas 15 propostas tentam é conseguir um bom arranjinho entre políticos e cidadãos. Até porque o político tem dificuldades em arranjar relações duradouras: ora se dá bem com um construtor civil, ora se dá bem com outro construtor civil. E isto das aventuras é giro, mas toda a gente gosta de assentar.

Já sei, há meia dúzia de lunáticos que defendem que a melhor maneira de os políticos se darem melhor com os cidadãos é através da política, propriamente dita. Mas isso é malta ingénua, que acredita que, se partilhar uma publicação no Facebook a dizer que ninguém pode copiar as suas fotografias, ninguém pode mesmo copiar as suas fotografias. Ou que se publicar uma fotografia num grupo secreto, ela é mesmo secreta. Políticos e cidadãos só vão lá com um bom arranjinho.

Um “Reality Show”
Ora, a minha ideia é contribuir para este arranjinho. Dado que toda a gente vê “reality shows” e há mais pessoas a comunicar com extra-terrestres do que a ver a “Assembleia da República TV”, proponho a criação de um programa de televisão com os políticos menos conhecidos da Assembleia da República. Nós temos 230 deputados e convidamos para este programa só os menos conhecidos, só aqueles quase anónimos. Ou seja, uns 210. E não esticamos muito o conceito, fazemos só 20 temporadas.

(fdecomite/Flickr)

Neste programa, os políticos vão discutir grandes temas da actualidade, como o Orçamento de Estado, o Serviço Nacional de Saúde, a Taxa Social Única, o uso das proteínas para o aumento da massa muscular ou a colocação de silicone em partes do corpo. Vão realizar tarefas diversas, tais como elaborar um plano para a Educação, para os próximos 20 anos, discutir o orçamento para o Ministério da Cultura, organizar uma festa temática sobre anos 80 ou fazer concursos de karaoke só com canções do David Carreira e do A. G. I. R. Finalmente, vão fazer coisas que realmente tenham importância para os restantes cidadãos, tais como falar mal dos outros, embebedar-se e ter relações sexuais.

Isto tudo, sem nunca esquecer o mais importante, aquilo que a maioria dos nossos deputados faz quando está na Assembleia: impedir que o se acumule pó no mobiliário e levantar-se da cadeira quando os mandam (neste caso, será a Voz a fazê-lo).

No fim, quem ganhar será premiado com um prémio simbólico: justificação para três meses de faltas às sessões na Assembleia.

Com este plano, os cidadãos poderão acompanhar de forma apaixonada a intriga de um “reality show”, ao mesmo tempo que formam opinião e se envolvem nas grandes questões dos nossos dias, tais como “Quem vai acabar na cama com quem?” ou “Qual o candidato que deve sair esta semana?”.

Assessores nomeados pelas Juntas de Freguesia
Outra das críticas feitas aos nossos políticos tem a ver com o facto de eles nomearem demasiados assessores oriundos dos seus partidos. Ou das suas famílias.

Quanto a isto, é simples: para cada lugar de assessoria que esteja livre, sorteamos uma freguesia que irá nomear o respectivo assessor. A freguesia vai a votos e será eleita uma pessoa cuja popularidade já foi testada entre a população local.

Em pouco tempo, teremos, certamente, um corpo de assessores que saberá jogar à “sueca”, que frequentará tascas e que terá participação assídua nos melhores torneios de futebol de salão. Que saberá mudar uma correia de distribuição num automóvel ou consertar um rádio transístor. Não demorará muito até que, enquanto um ministro discursa sobre o ordenamento do território, na inauguração de um centro de saúde, os jornalistas que acompanham o evento estejam apenas interessados em documentar a participação do assessor do ministro num grandioso torneio de “sueca”. Não faltarão directos sobre a ingestão de chouriço assado e de broa caseira, sobre a possibilidade de um dos jogadores ter feito uma renúncia ou uma passagem de ás, sobre o arremesso de uma caneca de vinho, por parte de um jogador a um adversário, nem faltarão, no final, as “entrevistas rápidas”, como fazem os treinadores, no final dos jogos.

Só temos a ganhar em tornar a política mais apaixonante, no fundo, mais parecida com o futebol e os “reality shows”. Até para que se fale menos de futebol e de “reality shows”.

Podes seguir o "Texto Incompleto" no Facebook.

Sem comentários:

Enviar um comentário