terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Problemas na sala de cinema

Este texto também se poderia chamar "Uma aventura no cinema". Até seria mais divertido, porque pressuporia uma aventura retratada em filme. Por exemplo: uns gajos mauzões têm carros bué rápidos e andam em corridas e aos tiros uns aos outros. Esperem, estão aqui a dizer-me que já existe um filme desses, com sete (!!!) sequelas, e que todos são um sucesso: cada um é igual ao anterior e as pessoas aguardam com grande expectativa por cada novo título. Bolas, cheguei tarde. Mas a existência de oito filmes dentro do mesmo universo de carros e tiros leva-me a questionar o que esperam os espectadores que aconteça de novo, de cada vez que sai um filme. Que os carros fiquem sem gasolina? Que suba o preço dos combustíveis?

"Uma aventura no cinema" pode significar um conjunto de peripécias vividas na própria sala de cinema. A primeira questão, assim que chegamos ao nosso lugar, tem a ver com espaço. Há um tipo de espectador que traz, para além de uma panóplia de casacos, bolsas e edredons, acessórios que vão da mesa de campismo, para refeições, ao guarda-sol, para filmes com muita luminosidade. Precisam de um lugar para se sentar e de seis para arrumos.

Outra das questões que implicam algum jogo político tem a ver com os braços e as pernas. Passo a explicar. Os bancos do cinema têm apoio de braços. Ora, das primeiras relações de força que se estabelecem numa sala de cinema é a luta pelo apoio de braço. É possível, com recurso à diplomacia, que duas pessoas pousem os braços no mesmo apoio, em momentos diferentes, mas, caso calhe ao nosso lado uma pessoa mais intransigente, podemos perder a batalha. No cruzar de pernas, também há alguma adaptação, que implica gerir aquele cantinho que nos calhou, em colaboração com um desconhecido. Cruzamos uma perna ou outra, consoante o espaço que fica livre.  Tem a sua arte e dali podem sair grandes líderes do nosso tempo. Ou então, apenas pessoas que sabem comportar-se em público.

Assim que começam os trailers de outros filmes, surgem os primeiros comentários que dizem “Este deve ser fixe, temos que vir ver”. O que me leva a pensar se terá existido, na história do cinema, algum filme que, no trailer, pareça mau. Uma vez que o trailer consiste numa selecção cuidada de algumas das partes mais interessantes de um filme, posso concluir que o grande problema dos maus filmes poderá estar no resto do filme, todo ele verdadeiramente desinteressante.

Pelo filme adentro, começam os comentários na sala. Uns, mais especializados, de pessoas que consideram pertinente comentar com o espectador do lado a fotografia, os cenários, os efeitos especiais ou a banda sonora. Outros, não menos especializados, porém mais acessíveis ao grande público, afloram temas como a intensidade de uma cena de sexo ou as mamas de determinada actriz.

Há, no meio disto tudo, o espectador mais distraído que entrou na sala errada e que, aos quinze minutos de filme, pergunta se demora muito a aparecer o Batman.

Nos casos em que a história do filme é mais complexa, há espectadores que se perdem pelo caminho. Entre estes, há os que têm vergonha de perguntar o que raio está a acontecer e os que, de forma até bem audível, desatam a procurar, de todas as maneiras, até ligando para um amigo, em plena sala, uma explicação para os acontecimentos do filme.

A pensar nestes casos, proponho a criação da função de explicador do filme, que seria um funcionário do cinema que, a qualquer momento, poderia retirar o espectador da sala, explicar-lhe o que está a acontecer, repreendê-lo, caso a dúvida do espectador revelasse desatenção durante o filme, e recolocá-lo no seu lugar, contando-lhe o que aconteceu entretanto.

Mas o maior problema não é nenhum destes anteriormente referidos. É o caso das pessoas que mastigam pipocas de boca aberta. Aliás, isto é extensível ao mundo: o problema está nas pessoas que mastigam de boca aberta, em qualquer situação da vida. Já estive numa sessão de cinema em que um espectador fazia tanto barulho a mastigar que até uma personagem do filme se virou para a plateia e perguntou se era possível fazerem menos barulho, que estávamos numa cena com grande dramaticidade.

Por causa dos comentários estúpidos, das pessoas que fazem perguntas, das pessoas que mastigam de boca aberta e das pessoas com demasiados odores corporais (ou com excesso de perfume), proponho também que se reserve uma fila de lugares que terá o nome de “Fila do Entulho”. A qualquer momento, poderíamos solicitar a paragem do filme, chamar um provedor do espectador, explicar por que os nossos “vizinhos” nos estavam a incomodar, e pedir que estes fossem deslocados para uma fila de pessoas que se poderiam incomodar mutuamente, sem interferirem na experiência de cinema dos demais.

Era isso ou esperar que o Batman aparecesse e as levasse dali para fora.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

E se pudesses mudar a história do filme?

“Mosaic” é o nome de uma série de Steven Soderbergh, na qual os espectadores poderão escolher, através de uma aplicação, como se desenrola a história. São sete horas e meia de ficção, distribuídas por blocos que se sucedem consoante as escolhas de cada espectador.

Podia dar para alterar o telejornal. Quando aparecesse mais uma notícia sobre uma tragédia ou sobre uma imbecilidade ou ilegalidade de um político, podíamos escolher substituir a notícia por um passarinho a cantar. Ou por um gatinho a brincar com um novelo de lã. Ou por uma moça voluptuosa a saltar à corda. Ou pelo Jorge Jesus a dizer poemas de Herberto Hélder. Há certos momentos dos nossos noticiários em que até vídeos do A.G.I.R. marchavam.

Como em muitas outras situações, estamos perante um resultado surpreendente de uma pergunta começada por “E se”. Um pouco como quando as pessoas perguntam “E se eu bebesse mais um whisky, apesar de já ter ingerido seis?”, “E se eu saltasse daqui, mesmo sabendo que não sou o Homem-Aranha?” ou “E se provocasse este indivíduo que, apesar de parecer inofensivo, pode ser mestre de alguma arte marcial?”.

No caso desta série, alguém terá perguntado “E se puséssemos o espectador a construir a sua narrativa?”. É impossível pensar neste conceito sem pensar no potencial que poderia ter para mudar alguns filmes da nossa vida. Porém, tendo em conta que as pessoas são capazes de votar no Trump ou na Marine Le Pen, não dou por garantido que este potencial fosse bom para o cinema. Mesmo assim, arrisco avançar com algumas hipóteses de mudanças em filmes.

O Rei Leão
Naquela parte dramática, em que o Simba foge da manada de gnus em movimento, momento esse que culminará com a morte do seu pai, muitos espectadores optariam por colocar o Vin Diesel a salvar o Simba, ao volante de um daqueles carros muito azeiteiros, saídos do “Velocidade Furiosa 36”. Talvez um Simba que não perdesse o pai e fosse obrigado a fugir, ainda tão jovem, pudesse vir a tornar-se um monarca mimado e inútil, como muitos que a monarquia nos deu. Um Simba que só não seria viciado em álcool porque não há álcool na savana.

Armaggedon
Quando o Bruce Willis estivesse a despedir-se da filha, naquele momento de grande intensidade dramática, mesmo antes de salvar o Mundo, apareceria o Super-Homem, depois de levar uma tareia de toda a gente, que é o que ele faz nos filmes, para rebentar o asteróide e conseguir um emprego na NASA.

Exterminador
Neste caso, tudo seria igual, mas muitos espectadores colocariam câmara frontal e traseira ao Exterminador, para que ele pudesse ter uma conta no Instagram. Teríamos boas fotografias de armas e tiroteios, bem como um “instastory” de um carro a explodir.

Mad Max
Em vez de um Mad Max que se tinha tornado violento por lhe terem matado a família, muitos espectadores prefeririam um protagonista que matasse todos aqueles vilões só porque eles tinham feito barulho na rua, às quatro da manhã.

Titanic
Em vez do final trágico que todos conhecemos, teríamos duas tendências. Os espectadores que preferissem novelas escolheriam uma viagem tranquila do navio, com uma história de amor impossível, outra de amor possível estragado por algum evento, uma personagem que só diria coisas estúpidas, um vilão que acabaria morto e um mistério que só se resolveria no fim do filme. Os espectadores adeptos do cinema de acção colocariam o Titanic como alvo de um ataque de piratas. Felizmente, o Steven Seagal seria cozinheiro do navio e neutralizaria todos os piratas, sem sofrer um arranhão.

Gritos
O mais frágil e desajeitado assassino da história do cinema seria eliminado logo na primeira cena, por qualquer velhinha com um guarda-chuva.

Qualquer filme de terror
Nunca mais uma personagem tomaria decisões imbecis, tais como suspeitar que está um invasor em casa e, mesmo assim, ir à garagem apenas com uma lanterninha, ou suspeitar que existe um monstro na floresta mas, mesmo assim, pesquisar qual a origem de um ruído atrás daqueles arbustos. Nunca mais um susto seria provocado por um gato. É que, quase sempre, as personagens que vão ser atacadas ouvem um barulho, vão verificar qual a origem, percebem que era só um gato e, mal se viram, são atacadas. Se não houvesse o gato a fazer barulho, elas nem tinham ido ali. Os monstros ou assassinos perderiam o seu público-alvo, composto maioritariamente por personagens estúpidas, e teriam que dedicar-se ao paintball.

Pensando bem, é melhor haver alguém que decida pelo público.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Quanto tempo passamos à espera?

Se me aparecesse um génio da lâmpada que estivesse impossibilitado de realizar desejos, por falta de Internet móvel, ou por estar de ressaca, mas que pudesse, por ser um génio, responder a uma grande questão, perguntar-lhe-ia algo como “Uma vez que não costumo encontrar lâmpadas com génios, nem frequento fábulas com regularidade, que raio faço eu na presença de um génio da lâmpada?”. Desperdiçada de forma tão estúpida esta oportunidade de fazer uma pergunta relevante, tentaria convencer o génio a dar-me uma segunda oportunidade da seguinte forma:

- Se não me responderes a uma nova pergunta, guardo esta lâmpada num lugar em que só toquem músicas do Enrique Iglesias.

Como é óbvio, o génio saberia que ouvir temas eruditos como “Subeme la radio”, para todo o sempre (os génios vivem nas lâmpadas para todo o sempre), seria um castigo, pelo que, conceder-me-ia uma segunda pergunta.

Eu aproveitaria para perguntar, não qual o sentido da vida, não se existe vida para além da morte, não se existe vida inteligente noutro planeta, mas quanto tempo da nossa vida nós passamos a esperar. E não falo da espera “à Gustavo Santos”, do tipo “Quando serei feliz?”, “Quando vou aprender a valorizar-me?” ou “Quando conseguirei chegar à fala com aquela moça extremamente interessante que conheci no aniversário de um amigo, mas que, por ser muito para lá do meu campeonato, quase nem reparou em mim?”. Falo de esperar mesmo: na sala de espera do médico, no aeroporto, numa repartição pública ou numa loja.

“Mas isso é uma pergunta estúpida”, dirás tu, meu leitorzinho tão inteligentezinho e chatinho. Eu sei, mas se leres com atenção o texto desde o início, em nenhum momento eu prometo inteligência e subtileza na pergunta a colocar ao génio. Para isso, já temos os jornalistas do “Correio da Manhã”. Eu faria aquela pergunta para ter uma ideia de quanto tempo vou desperdiçar à espera que algo aconteça.

Tendo essa informação, posso desenvolver um grande projecto de ocupação de tempo de espera. Vou criar uma empresa só disso. Imagina que tens que levar o carro à inspecção e vais estar meia hora à espera. É só dizeres o que queres e eu providencio-te entretenimento à séria: uma mulher com voz bonita a cantar temas da novela da noite; um malabarista a fazer um truque com espadas, enquanto cospe fogo e recita Shakespeare; uma luta de UFC entre duas pessoas vestidas de urso; dois mariachis a cantar “La Cucaracha” em Norueguês; enfim, qualquer coisa divertida e exequível.

Digo "exequível" porque, se me pedisses um membro de uma juventude partidária a elaborar sobre temas da actualidade, seria impossível atender ao teu pedido, porque estas pessoas pouco mais conseguem do que gritar palavras de ordem e agitar bandeiras.

Na sala de espera do médico, talvez precisasses de um divertimento mais comedido. Ali, toda a gente faz uma espécie de exame de consciência e questiona-se se tem bebido muita água, se tem comido muita fruta, se tem feito exercício físico ou se a alface do Big Mac conta como salada. Neste caso, parece-me adequado um violinista, só para estares ali, a pensar na vida, enquanto um saco de gomas te espera em algum lado. 

Também será útil para embalar aquele senhor que adormece em todo o lado, de forma a poupar bateria. Que dorme com a cabeça tombada e ao lado daquela criança que está a saltar em cima de uma cadeira, enquanto balbucia sons estridentes que, somados, significarão qualquer coisa como “Dadas as circunstâncias, acho que vou fazer um cocó na fralda, porque não há perspectivas de, nos próximos dez minutos, sairmos da beira destas pessoas que não conheço de lado nenhum”. 

As pessoas que adormecem em todo o lado começam, por desgaste do hardware, a passar do “standby” para o modo avião com regularidade. É um problema técnico que causa alguns transtornos, nomeadamente, em salas de espera, quando o nome delas é chamado no altifalante e elas não saem do sono.

Para aqueles que se queixam de que a consulta está atrasada, talvez um grupo de bombos, para ajudar a dissolver a ira e, em caso de espera por consulta no dentista, talvez um orador motivacional, que faça as pessoas esquecerem os sons característicos de uma sala de tortura que vêm do lado de lá da porta, perante o sorriso sarcástico de quem está na recepção.

Numa repartição pública, podíamos ter um humorista a fazer piadas sobre impressos. Assim, quando o funcionário nos pedisse um papel qualquer, timbrado, carimbado e lambido por uma vaca dos Alpes, não o faria com um ar de ditador, mas com um ar de quem pede algo para a diarreia numa farmácia cheia de gente.

Acho que este negócio tem tudo para prosperar. Só me falta encontrar a lâmpada com um génio e um investidor.

Estou à espera, enquanto alguém canta um tema dos Abba.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Descobertas de quem adoptou uma gata

Toda a vida tive cães em casa. Há cerca de um mês, adoptei uma gata ainda bebé que vivia na rua. Uma vez que sobrevivi à experiência, não tendo a pequena felina me cravado os dentes na jugular, ou porque não quis, ou porque ainda não arranjou forma, resolvi fazer um balanço da experiência.

Dizer que cães e gatos são diferentes é tão inútil como dizer que um boi é diferente de um camelo. Embora, no Norte, “boi” e “camelo” sejam nomes usados para apelidar, com precisão, um tipo específico de indivíduos que nos surgem no caminho, ao longo da vida.

Não serve, portanto, este texto para entrar na estúpida discussão sobre se são os cães melhores do que os gatos, ou vice-versa, porque isso é tão estúpido como discutir se é mais divertido tocar à campainha e fugir ou arremessar balões de água do quarto andar.

No capítulo da higiene, os gatos são a prova de que a reencarnação existe. Pousamos o gato na caixa de areia e ele sabe, porque aprendeu noutra vida, para que serve a areia e como apagar vestígios do que lá faz. É mais rápido um gato a aprender a fazer as necessidades na areia do que alguns seres humanos a aprender, não só, para que serve um piaçaba, como qual a forma de dizer e escrever “piaçaba”.

No meio disto tudo, há uma prova de que os gatos são deste planeta: quando soltam gases intestinais, quase se torna necessário evacuar o edifício. É pior do que inalar vapores de uma infusão de enxofre e urânio enriquecido.

Com um gato, temos que estudar, não só, o mundo dos felinos, como também Física Quântica. “O meu gato cabe ali dentro?”, “Passa naquela frincha?”, “A minha casa tinha aquele sítio onde ele está escondido?”, “Será que ele chega ali?” ou “Será que, durante as últimas seis horas, ele esteve num universo paralelo, a dizer poemas em Latim a um conjunto de iguanas gigantes” são algumas das questões essenciais de quem tem um gato há pouco tempo. Geralmente, a resposta é sim: o gato cabe ali, passa ali, salta assim tão alto e disse poemas em Latim, num universo paralelo, enquanto caminhava por cima de um cordão de uma sapatilha, atrás de um ratinho de brincar.

Diz-se que uma preguiça dorme cerca de 80% da sua vida. O que não se diz é que um gato dorme mais do que 80% das preguiças. Mas, enquanto dorme, monitoriza, não só, os nossos movimentos, como o daquela mosca que está a voar junto à janela, da aranha que faz uma teia junto à porta, do átomo de hidrogénio que passou junto a uma orelha, ao mesmo tempo que analisa a evolução nos mercados de dívida pública e questões importantes que estejam a ser faladas no noticiário, como a independência da Catalunha ou a reunião do Eurogrupo. Claro, que, no meio disto, ele mantém as prioridades: isto da Catalunha é importante, mas se aquela mosca passar perto dele vai ter que ser capturada e ingerida. Tudo, sem abrir muito os olhos: convém recordar que o gato está a dormir.

Sempre que entro em casa, a minha gata vem ter comigo, o que é um comportamento muito semelhante ao de todos os cães que tive. Só que, enquanto que os cães revelavam graus de felicidade pela minha chegada que os levava a destruir parte da casa, embalados pela euforia, a gata circula à minha volta, revelando só a felicidade necessária para me saudar. Se fossem pessoas, os gatos eram do jet-set: sorririam só o necessário para a fotografia, dançariam só o necessário para a fotografia, acenariam só o necessário para a fotografia. Com uma diferença: os gatos gostam de um caixotinho de areia, o pessoal do jet-set gosta de um saquinho de pó.

Fazer festas a um gato é como jogar aquele jogo da operação: se tocares numa zona proibida, perdes. Perder, no operação, era acender uma lâmpada e soar um barulho estridente. Perder, a fazer festas a um gato, é o gato querer matar-te, começando pelas mãos. O dono de um cão costuma ter baba nas mãos, o dono de um gato tem mãos de quem trabalha diariamente com arame farpado.

O cão olha-te como quem diz "Já te disse hoje que gosto de ti?", o gato olha-te como se lhe devesses 100 euros. Quando chamas um cão, ele vem porque sente que tem o dever de vir. Quando chamas um gato, ele vem se considerar que estão reunidas todas as condições de segurança e de conforto, bem como se existe disposição emocional, humidade relativa do ar e proximidade da Terra em relação a Júpiter para vir.

Às vezes, os gatos recebem mensagens do além e perseguem entidades que só eles vêem, em corridas quase à velocidade da luz. É curioso que, no meio dessas corridas, a minha gata nunca passou por cima do teclado do compdfhuioshcvxjki ndvsojcdnvwe0scvkdn kcvm <cnsdijvnw231i9rh310fh98utador.

Correcção: numa dessas corridas, a gata foi responsável por um excerto deste texto. Que, num universo paralelo, para onde ela vai, seis horas por dia, quererá dizer qualquer coisa.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Roupa falante

Esqueçam a regeneração de tecidos, esqueçam os antídotos contra bactérias e vírus, esqueçam a exploração espacial. Os seres humanos que andavam a vaguear pelas suas vidas fora, à procura de respostas para as perguntas “O que andamos nós aqui a fazer?” e “Como perder barriga em 36 horas?” encontraram a primeira delas: andamos aqui a fazer casacos que atendem o telefone e permitem pôr música a tocar no telemóvel. Eu diria que isto é lindo, mas como tenho preguiça em dose diária recomendada, digo que é bastante cómodo.

A Levi’s e a Google fizeram uma parceria e criaram um casaco que permite, com um simples toque na manga, atender chamadas, passar música ou obter direcções. Eu sei, eu sei, a primeira pergunta que se impõe é: a garantia protege aquele pessoal que não perde o bonito hábito de limpar moncos com a manga do casaco? Eu quero acreditar que o dispositivo que está na manga é “moncos proof” até quinze dias de exposição (toda a gente sabe que ao 16.º dia, os moncos ficam meios radioactivos).

Ficamos suficientemente preguiçosos para não tirarmos o telemóvel do bolso, o que nem é mau: dessa forma, evitamos lesões, entre outros, no bicípite ou no tricípite, no braquial ou no braquiorradial, no extensor radial curto do carpo ou no flexor radial do carpo, no flexor longo do polegar ou no abdutor longo do polegar. Toda a gente percebe a importância disto. Imagina que um indivíduo pousa o casaco nas costas de uma cadeira, no café, e atende uma chamada através do casaco.

- Aquele senhor está a falar para o casaco ou para a cadeira? – Pergunta uma velhinha adorável, enquanto toma o seu galão.

- Não percebes nada: está a atender o telemóvel através do casaco, evitando, dessa forma, lesões, entre outros, no bicípite ou no tricípite, no braquial ou no braquiorradial, no extensor radial curto do carpo ou no flexor radial do carpo, no flexor longo do polegar ou no abdutor longo do polegar. – Responderá uma velhinha não menos adorável e que fala como se estivesse num anúncio de televendas.

Será que um casaco destes pode, no autocarro, por exemplo, e depois do contacto com um casaco igual de uma pessoa com gostos mais duvidosos, apanhar um vírus que apenas nos permite pôr a tocar músicas dos D. A. M. A. ou do Diogo Piçarra? Teremos, um dia, que comprar anti-vírus para o casaco?

Tendo em conta o avanço da inteligência artificial, é provável que os nossos casacos queiram, um dia, tomar conta das nossas vidas. Para isso, criarão situações desconfortáveis com uma música errada, à hora errada. Cruzas-te no elevador com um vizinho cujos sons da vida sexual são demasiado estridentes para serem contidos por uma parede. O teu casado apercebe-se disso e põe , por exemplo, o Tom Jones a cantar o “Sex Bomb”. Ficará no ar aquela ideia de “Eu sei o que tu…” e uma viagem de três andares vai passar tão rápido como uma manhã numa repartição pública.

Vais jantar a casa dos teus sogros e, na hora da ir embora, mostras a tua gentileza e despedes-te da tua sogra com dois beijos. O teu casaco apercebe-se e, nesse momento, começa a ouvir-se o Marco Paulo a dizer “Quando você vem com essa cara/De menina levada para a brincadeira/Dá-me um arrepio na pele/Sinto água na boca p’ra ficar com você”. Ficarás dois anos sem conseguir enfrentar os teus sogros.

O que pode nem ser assim tão mau.

Vais de férias e passas pelo gabinete do teu chefe para te despedires. Antes que digas o que quer que seja, o teu casaco põe o Demis Roussos a cantar “Goodbye my love, goodbye/Goodbye and au revoir/As long as you remember me/ I’ll never be too far”. Decides trabalhar mais um dia, só para apagar aquele momento.

Tens amigos a jantar em tua casa. Eles até são fixes, mas podiam ir embora, que tu queres ir dormir. O teu casaco, pensando estar a ser teu amigo, dá asas ao Clemente, na música em que ele diz “Vais partir naquela estrada/Onde um dia chegaste a sorrir”. Para minorar estragos, dizes aquelas coisas que toda a gente diz, tais como “Fiquem à vontade, até abro mais uma garrafa, se for preciso!” mas, por dentro, agradeces, pela primeira vez, ao teu casaco, enquanto os teus amigos se preparam para ir embora.

O passo seguinte nesta caminhada de progresso será a camisa que te apresenta como se fosses um produto. Um casal conhece-se e, em vez de falar, que é o que nós, humanos primitivos, fazemos, usam as suas camisas de apresentação.

“Olá, esta é a Susana. É introvertida, mas gosta de regabofe selvagem. Não é ciumenta, mas uma vez assumido um compromisso com ela, desejará que todas as mulheres do planeta desapareçam. Tenciona casar e considera que começam a ser horas, pelo que, caso te adeques minimamente, terás que avançar destemido para a etapa seguinte.”

“Olá, este é o Fernando. Pratica crossfit e come farelos diversos que fazem dele um modelo de elegância e de regularidade no trânsito intestinal. Domina bricolagens diversas, tanto em casa como na mecânica automóvel, e ganhou, em 1997, um concurso internacional de karaoke, a interpretar um tema do Enrique Iglesias.”

Mal podemos esperar por estes tempos! (Esta última frase foi escrita pela minha t-shirt.)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Um Instagram de pessoas que não distinguem sushi de sashimi

Se eu fosse milionário, dedicava-me a melhorar o Mundo. Não estou a falar de acabar com o Correio da Manhã, porque logo apareceria outro jornal parecido só para fazer manchetes a dizer mal de mim. E a minha mãe ia ficar triste com isso.

Não estou a falar de realizar acções de solidariedade, de investir na Ciência e na Cultura porque, para isso, já existem os nossos bons políticos, cheios de humanismo e de sentido de dever, verdadeiramente comprometidos com o progresso das sociedades, ou com um qualquer amigo que lhes pagou os cartazes da campanha eleitoral. Nem eu queria tirar o trabalho a estes bons políticos, porque esta malta, assim que põe os pezinhos nas juventudes partidárias, nunca mais aprende a fazer outra coisa. Tirar-lhes o trabalho seria criar mais desemprego de longa duração.

Eu tentava melhorar o Mundo dando espaço mediático àqueles que não o têm. Não, não estou a falar de criar um fórum, no qual pessoas desinteressantes debitariam lugares-comuns por telefone, porque as televisões já descobriram esse filão há imenso tempo. Tenho tanta vontade de ouvir mais um indignado com tudo e todos a gritar ao telefone, em directo na televisão, como de ouvir o Marques Mendes a ler um livro do Gustavo Santos em voz alta. Anda a Apple a investir rios de dinheiro em reconhecimento facial e ainda não temos um telemóvel que se bloqueie quando lhe ditam baboseiras.

Se eu fosse milionário, percoreria o Mundo e daria espaço às pessoas que não são suficientemente perfeitas para estarem no Instagram. Como toda a gente sabe, só não são perfeitos os seres humanos que não estão nesta rede social. Para quando um tipo com uma proeminente barriga, vestido com uma camisola do Benfica, a assar costelinha enquanto bebe uma mini? É que, segundo o Instagram, todos os gajos que se deixam fotografar numa refeição estão em troncu nu, a mostrar os seus perfeitos abdominais, enquanto botam abaixo uma malga de pudim de aveia.

Para quando, no Instagram, um fato-de-treino tipicamente anos 90, com cores tão garridas que permitem que um tipo seja localizado a partir da Estação Espacial Internacional, e tão largo que permite transportar a água, as luvas, a bola medicinal e a toalha para o treino no bolso que não traz o smartphone? É que, de acordo com o Instagram, a roupa de treino é tão justa que, ao primeiro agachamento, tanto podem alojar-se os ombros junto à anca, como os testículos junto a um rim.

Para quando fotografias de pessoas a ler os “A República” de Platão ou a revista “Time”, só para mostrar que há quem não ache que “ONU” seja o nome de um restaurante de sushi? Aliás, de acordo com o Instagram, 87% da população mundial é japonesa, ou tem ascendência daquela nacionalidade, não por causa da expressão facial ou da linguagem, mas por saber distinguir, com margem de erro nula, sushi de sashimi. Nós, que não sabemos, somos uma espécie de tripo aborígene da Mongólia, que usa fogo para afugentar os ursos.

Para quando uma mulher com um bocadinho de barriga e sem mamas e glúteos em forma de melancia? Daqui a 200 anos, os seres humanos olharão para o Instagram e dedicar-se-ão a investigar que mutação genética retirou a celulite da nossa espécie. Com um Instagram de gente normal, como aquele que gostaria de implementar, poderiam concluir que as mulheres sem rabo tinham sobrevivido à extinção, na era geológica da granola e do “crossfit”.

Animais fofos: outra tendência. E que tal um Instagram só com cães rafeiros? E gatos velhotes, daqueles que nos olham como se lhes devêssemos dinheiro ou se tivessem que ir renovar o Cartão do Cidadão? De acordo com o Instagram, estamos a desencadear uma selecção de animais domésticos que parecem saídos de uma série qualquer do canal Panda. O Farrusco, que é um cão velhote, meio gordito e sem amaciador no pêlo, perdeu o seu espaço mediático. Sem perceber porquê, mas isso talvez seja por ser um cão demasiado velho para mexer em smartphones.

Porque não arquitectura ultra-realista? Toda a gente fotografa bem janelas e varandas, piscinas e jardins. E uma sanita? Ninguém fotografa com estilo uma sanita. Em que é que uma sanita é menos merecedora de espaço mediático do que uma piscina? Experimentem sofrer um desarranjo intestinal num dia de inverno e quero ver junto de qual destas querem estar.

No Instagram, toda a gente come saladas ou comida gourmet. E percebe-se: no dia em que alguém publicar uma fotografia de arroz de cabidela ou de cozido à portuguesa, terá o Instituto de Medicina Legal à perna.

Já agora: no Instagram, todas as pessoas são felizes. Se eu fosse milionário, as duas ou três pessoas que, em toda a Humanidade, são infelizes, teriam o seu espaço, caso o pretendessem. Mesmo que não soubessem o que é sashimi.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Revistas que sugerem só os melhores lugares

Há dias, percorrendo a página de Facebook de uma conhecida revista, notei um estranho padrão, tão indicador dos tempos que vivemos como aquela estranha forma de comunicar em 140 caracteres: todos os títulos das publicações tinham a palavra “melhor”. Passo a explicar.

“As melhores lojas de decoração [da cidade x]”, “As melhores sandes [da cidade x]”, “Os melhores restaurantes de carne [da cidade x]”, “Os melhores rooftpos [da cidade x]”, “Os melhores restaurantes de petiscos [da cidade x]”, “As melhores marisqueiras [na cidade x e arredores]” (noto aqui que houve algum trabalho, porque os jornalistas não se circunscreveram à cidade x, tendo andado pelos arredores da mesma), “Os melhores pratos com abacate [na cidade x]” ou “Os melhores sabonetes (juro que é verdade, existe mesmo um título assim!) [da cidade x]”, foram alguns dos títulos que encontrei.

A primeira nota que tenho, perante este modo de actuação, é que estamos na presença de indivíduos com conhecimentos suficientemente sólidos para poderem atestar, sem contraditório, que os locais recomendados são mesmo os melhores. Por exemplo, no extraordinário trabalho “Os melhores pequenos-almoços [na cidade x]”, os jornalistas estiveram em estágio, antes de realizar a reportagem: passaram um mês a tomar o pequeno-almoço com chefes de cozinha de grandes hotéis, com o Jamie Oliver, com o Gordon Ramsay, com o Ljubomir Stanisic e, só não tomaram a primeira refeição do dia com o Anthony Bourdain porque ele apareceu às quatro da tarde, com bafo a Jack Daniel’s.

Só depois deste período de aquisição de conhecimento, os jornalistas se lançaram numa descoberta pela cidade x, tomando pequenos-almoços desenfreadamente, à razão de quatro ou cinco por dia, até chegarem a uma lista com os melhores. Só os melhores, os apenas bons foram votados ao esquecimento.

Na reportagem “Os melhores restaurantes românticos [da cidade x]”, os jornalistas andaram um mês com o Pedro Chagas Freitas, e o pessoal que faz aquelas páginas lamechas do Facebook, para registarem onde é que esta gente janta de forma romântica. Está aqui bem presente o risco da profissão de jornalista, uma vez que estes profissionais colocaram em causa a sua sanidade mental, ao conviverem um mês com gente que só sabe dizer frases feitas do mundo sentimental. Bravo!

No trabalho “Os melhores rooftpos [da cidade x]”, os jornalistas tiveram um mês de estágio com especialistas na construção de telhados e na aplicação de telhas e materiais isolantes, e só depois andaram, qual Homem-Aranha, pelos telhados da cidade x, até chegarem a uma lista que só tinha os melhores.

A segunda nota, depois da admiração pela sabedoria destes jornalistas, vai para a necessidade que as pessoas têm, hoje, de que lhes façam o trabalho todo. Acabou-se a descoberta, acabou-se o factor-supresa, acabou-se a hipótese de entrar na rua errada e ser roubado, ou de jantar num tasco asqueroso e com cheiro a fritos, que ostente, numa das paredes, um certificado de inspecção sanitária realizada em 1953.

Hoje, a malta quer tudo feito. “Dêem-me a lista já prontinha, que eu vou visitar esses sítios todos. Mas só dos melhores, porque eu não me contento com sítios só bons”. Sendo assim, termino com algumas sugestões à referida revista, para reportagens futuras.

Os melhores carpinteiros [da cidade x]
Está farto daquela mesa que descai? Detesta aquela porta que range como se lhe estivessem a tirar um dente? Encontre os melhores profissionais da madeira. Não da Madeira, porque esta revista dedica-se apenas à cidade x.

Os melhores mecânicos [da cidade x]
Bons sítios para trocar uma válvula que custa dez euros sem pagar 170.

Os melhores sítios para gamar turistas na [da cidade x]
Andámos um mês com os carteiristas de referência desta cidade e mostramos-lhe tudo.

Os melhores tascos [da cidade x] para ver futebol sem levar no focinho
Uma lista de lugares onde podes festejar um golo do teu clube sem que uma cadeira voe na tua direcção.

As melhores casas-de-banho públicas [da cidade x]
Deu-te uma guinada no meio da rua e tens poucos minutos para encontrar uma casa-de-banho limpinha que te salve de uma cena épica? Aqui ficam as nossas sugestões para um porto seguro.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

De que falam dois robôs?

Agora, que já passou tempo suficiente, sem que as máquinas tenham tomado o controlo do planeta, já posso abordar o tema, sem temer que um ciborgue exterminador com sotaque estranho me apareça à porta: há um mês, foi noticiado que o Facebook tinha desligado dois robôs de uma experiência relacionada com inteligência artificial, depois de estes terem começado a comunicar um com o outro numa linguagem própria.

Quando a notícia foi publicada, escondi-me no meu quarto, a ler, a ver filmes e a acompanhar as incidências na “Guerra dos Tronos”. Agora que penso nisso, o meu tempo livre permaneceu igual ao que já era, antes desta notícia, mas agora com medo que as máquinas provocassem a nossa extinção. O que até tornou a minha existência mais emocionante.

E daquela vez em que um ciborgue exterminador com sotaque estranho me apareceu à porta, foi só para saber se eu tinha televisão por cabo em casa ou se estava interessado em aderir a um serviço de uma das operadoras.

Mas voltando à experiência do Facebook, esta consistia em colocar dois robôs a estabelecer uma negociação, para testar se seriam, mais tarde, capazes de comunicar com humanos. Podiam fazer o mesmo com o pessoal ligado ao futebol: tentar que eles fossem capazes de comunicar sem arremessar fezes uns aos outros, para depois podermos misturá-los, em segurança, com o resto da sociedade.

Acontece que, não tendo sido criado nenhum limite de linguagem, os robôs desenvolveram uma que lhes permitisse comunicar de forma mais eficaz. No início, os responsáveis pela experiência pensaram que a linguagem não fazia sentido, mas depois perceberam que obedecia a uma lógica. Não pude deixar de pensar que deve ser o que acontece quando dois amigos que estão bêbados se encontram: eles balbuciam coisas imperceptíveis e desconexas, para quem está sóbrio, mas aquilo deve fazer sentido para eles. Provavelmente, o sentido da vida já foi descoberto em conversas entre bêbados, mas ninguém decifrou o que eles disseram.

Segundo foi comunicado, os robôs foram desligados, não por receio de que a situação se descontrolasse, mas porque o resultado não foi o esperado pelos responsáveis pela experiência. Eu não acredito na versão oficial: para mim, os robôs andaram dez minutos no Facebook e adquiriram os maus hábitos de alguns utilizadores.

Começaram logo por comentar notícias como um verdadeiro troll. “Isto é tudo para nos enganar”, “Era matar estes gajos todos”, “[Determinado clube de futebol] é merda” ou “Que gaja boa” foram algumas das frases complexas que os robôs copiaram dos comentários de alguns utilizadores mais activos.

A fase seguinte foi partilhar músicas dos D.A.M.A, do A.G.I.R e do Diogo Piçarra, com legendas enigmáticas como “Saudades do nosso cantinho” ou “Dava tudo por um beijo teu”.

Quando um dos robôs ficou mais deprimido, inundou a internet de publicações daquelas em que alguém está “A sentir-se qualquer coisa", seguidas de textos com lamúrias em série.

Depois, um dos robôs começou a seguir a página do Gustavo Santos e começou a fazer “life coaching” ao outro, que só queria estar ali sossegadinho a saber quem é que o seu clube (sim, ele “adoptou” logo um clube de futebol) ia contratar. Então o diálogo tornou-se algo deste género:

- Tens que te amar mais do que a tudo. És uma prioridade, não podes ser uma opção.

- Eh pá, deixa ver quem é este gajo que o meu clube contratou.

- Não podes desistir, os obstáculos são para nos empurrar para o sucesso, não para nos deitar ao chão.

- O gajo marcou 28 golos, o ano passado.

- Tens que estabelecer metas impossíveis, porque o impossível só requer mais um bocadinho de esforço do que o difícil.

- Cala-te com isso! Só quero um bocado de sossego!

- É esse o caminho: não dependas dos outros para te sentires bem contigo mesmo.

Neste ponto, o conflito sofreu uma escalada de violência e um dos robôs foi desligado. O outro partilhou uma imagem do pôr-do-sol, com a legenda “Só valorizamos os amigos quando eles nos faltam”. E desligou-se.

Até receber uma chamada de um ciborgue exterminador com sotaque estranho, que queria saber se tinha televisão por cabo.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Como está o tempo na praia?

Por estes dias, andamos entretidos com as grandes questões, aquelas que nos fazem pensar em nós, enquanto civilização, aquelas que realmente definem o nosso mundo, tais como “Será que António Costa vai mexer no Governo?”, “Quem vai despedir hoje Donald Trump?”, “Como evolui a situação na Venezuela?” ou, mais importante do que todas as anteriores, “Como está o tempo na praia?”.

Sobre esta última, noto que é difícil chegar a um consenso. Existem diversos grupos de Facebook dedicados ao tema, mas a malta já perde muito tempo com os grupos de jantares, de compra e venda de cangalho e de conteúdos eróticos. Para além disso, é difícil utilizar uma linguagem que seja universalmente compreensível. “Tá bom”, Tá mau”, “Tá assim-assim” ou “Tá top tipo sunset no rooftop” são expressões que pouco ou nada acrescentam.

Existem sites dedicados à informação sobre o estado do tempo mas, para além de não termos tempo de nos graduarmos em Meteorologia, numa manhã de Sábado, existe um problema de escala. O que é “vento fraco a moderado”? Não consigo estar em paz, com a vida, em geral, se não me disserem a partir de que ponto o vento abandona a região do “fraco”, para entrar, com toda a moderação, na região do “moderado”?

Para além disso, estes sites não contêm informações que tem que ser dadas por quem está na praia, tais como o número de pessoas, em geral, o número de pessoas ruidosas, em particular, o número de pessoas a praticarem desportos diversos, que possam resultar, para nós, em boladas na cara ou em areia na toalha a toda a hora, o cheiro a fritos provindo de tupperwares abertos, entre outras.

Sendo que, das 24 horas diárias de um canal de TV cabo, 32 são dedicadas ao comentário de futebol, todas as pessoas sabem, hoje em dia, o que é organização defensiva e organização ofensiva, transição rápida, ataque rápido e contra-ataque, pressão alta, corredores laterais e corredor central, último passe, circulação, exercícios de aquecimento, fora-de-jogo, cartões amarelos e vermelhos, entre outros termos, alguns dos quais oriundos da Física de partículas. Por isso mesmo, proponho que os comentadores de futebol passem o dia na praia, acumulando o comentário desportivo com a informação sobre o estado do tempo. Ganham eles, porque fazem as suas 32 horas diárias de programa com os pezinhos na areia Ganhamos nós, porque temos, finalmente, quem nos saiba dizer que tempo está na praia.

Dia muito quente
“O sol está a fazer uma circulação de calor perfeita, não deixando possibilidade ao vento de fazer o seu jogo e refrescar os banhistas. E o sol não dá sinais de poder abrandar o ritmo do ataque, tendo o jogo perfeitamente controlado.”

Dia com sol, mas com nortada
“O vento está a fazer uma transição muito rápida, do Norte para o Sul, levando consigo areia, toalhas e caranguejos. O jogo está a pedir uma substituição do tapa-vento, que dá sinais evidentes de desgaste e está rasgado em três sítios, por um muro de betão que seja capaz de conter esta toada ofensiva.”

Dia conzento
“As nuvens estão a pressionar tão alto que tapam o sol. O melhor é fazer exercícios de aquecimento, que está muito frio na praia.”

Dia com sol, mas com mar revolto
“O mar está a carregar com muita força no areal. Só a permissividade do nadador-salvador tem retardado o cartão amarelo. Há que proteger o jogo e entradas destas colocam em risco a integridade física do adversário.”

Muita gente na praia
“Os corredores laterais, assim como o corredor central, estão bem povoados. A organização defensiva dos banhistas torna quase impossível a penetração nas zonas mais próximas do mar. Há quem tenha fugido para locais mais isolados, mas está em clara posição de fora-de-jogo.”

Pouca gente na praia
"Os banhistas a concederem muito espaço para jogar entre linhas. Se a situação não se alterar, vão perder o controlo do jogo."

Para além de termos informação confiável, quando chegássemos a casa, tínhamos direito à análise do dia de praia. “Foi um dia competitivo, com o sol e o mar a darem uma boa réplica aos banhistas. Estes acabaram por vencer com justiça, já que mantiveram um ritmo de jogo elevado até aos últimos minutos. Nota negativa apenas para o Sr. Martins, que adormeceu ao sol, de barriga para o ar, e está com um escaldão que merece atenção do departamento médico. Talvez fique uma semana sem competir.”

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Onde está o teu telemóvel?

A minha relação com o telemóvel é igual à que um bêbado tem com o bom senso: é raro recorrer aos seus serviços. No entanto, por razões de sociabilidade, tenho telemóvel. Até porque acredito que, um dia, poderei estar numa situação em que tenha que salvar o mundo e precise de fazer um telefonema.

Imaginemos que uma civilização extraterrestre, totalmente hostil, nos invade. Eu posso ser o primeiro a saber e ter que avisar a NASA, o Donald Trump, ou os tipos da Coreia do Norte. Bom, embora tenham mísseis espectaculares, não sei se o pessoal da Coreia do Norte tem telemóvel.

Numa segunda análise, a hipótese de ser eu a avisar toda a gente acerca de uma invasão extraterrestre é estúpida: não por ser extremamente provável que a NASA saiba antes de mim, mas sobretudo porque, mesmo perante a extinção, não me vai apetecer telefonar a ninguém.

Eu tenho sempre uma boa desculpa para não atender o telefone. Começo pelo facto de o ter muitas vezes em modo silencioso. Eu sei: o Bell matou-se a trabalhar para inventar o telefone e a piada é ele tocar, alertando-nos para o facto de alguém querer falar connosco. Mas é uma espécie de mecanismo de seriedade: se ele estiver sem som, eu posso dizer que não o ouvi a tocar, porque não ouvi mesmo. Estou a mentir com a verdade, e isso parece-me ser menos mentiroso do que mentir com a mentira.

Outra das situações que pode suceder é estar com o telemóvel na casa-de-banho e não atender por isso mesmo. Falar com alguém enquanto estamos sentados na sanita é como se trouxéssemos essa pessoa para a casa-de-banho, naquele preciso momento. E imaginar determinadas pessoas na casa-de-banho, num momento em que temos um pouco menos de dignidade do que o habitual pode ser, no mínimo, inibidor de cocó.

Um problema que os telemóveis trouxeram e que é uma violência muito grande para mim é atender o telefone e do outro lado atirarem-nos com um determinado “Onde estás?”. Aqui, nem precisamos de estar com o telemóvel na casa-de-banho: há várias situações em que não nos interessa muito dizer onde estamos. Ou porque estamos noutra cidade, noutro país, ou noutro planeta com boa cobertura de rede telefónica. Ou porque não queremos que a pessoa que nos está a ligar tenha a infeliz ideia de perguntar “Não queres vir cá?” ou, pior ainda, “E se eu aparecesse aí?”, esquecendo-se, muitas vezes, que se quiséssemos estar com ela, provavelmente tê-la-íamos feito saber. Ou porque, muitas das vezes, o problema não é onde estamos, mas sim com quem estamos, que será a pergunta seguinte, em 87% dos casos. Aí, sugiro boas respostas como “Estou a fugir de um leopardo” ou “Trouxe o meu hipopótamo à rua”: ou a pessoa que nos liga acredita e nos deixa em paz, tanto para fugirmos com sucesso do leopardo, como para darmos toda a atenção ao hipopótamo; ou não acredita e percebe que o sarcasmo é uma forma de dizer que não vamos responder a mais perguntas. É 100% eficaz.

Mas, quando tenho que falar, falo, pelo que, há pessoas bem piores do que eu, que são aquelas que não querem gastar a rede telefónica: parece que têm medo de que a sociedade fique sem rede, se elas demorarem muito. Então fazem chamadas de duas palavras, tais como “Não almoço”, “Chego tarde”, “Vou casar”. Algumas há que, se disserem quatro palavras, como “Não durmo em casa”, precisam de pedir baixa médica, por esgotamento. As SMS destas pessoas também são, geralmente, tão parcas em palavras que só têm pontos e traços. Sim, estas pessoas enviam mensagens em código Morse. Pegando no exemplo mais simples e quotidiano acima referido, como “Vou casar”, a mensagem em Morse resulta da seguinte forma “...- --- ..- / -.-. .- ... .- .-.”. e assim se poupa a rede de infinitos bytes de memória desperdiçada em palavras. Até porque se as pessoas percebem a complexa linguagem dos emojis, de certeza que sabem Morse.

Do outro lado da moeda, estão as pessoas para quem, se não o ouviram num telefonema, então não aconteceu. São aquelas que actualizam o seu estado, por telefone, doze vezes por dia, junto das pessoas mais próximas. São aquelas que partem a frase em três partes, para mandarem três SMS’s, em vez de uma. E são as mesmas que, quando eu avisar a NASA de que o mundo está a ser invadido, vão esperar no sofá, reforçando que ainda ninguém lhes ligou a avisar.

Quando isso acontecer, de certeza que vão ter o telefone com som.

domingo, 9 de julho de 2017

Pessoas que vão a festivais de música

Verão é calor, luz do dia até tarde, noites quentes e, fundamentalmente, moças extremamente sensuais com roupas diminutas. Um sonho, portanto. Mas é, também, festivais de música a cada três dias. Festivais de música rock, festivias de música clássica, festivais de música alternativa, festivais de música mais comercial, festivais de música do mundo, festivais de música que ainda nem foi inventada, festivais de francesinhas e de marisco, nos quais também há concertos semi-musicais, como os dos D. A. M. A. e de artistas similares. Há festivais para todos os gostos.

É sobre o público dos festivais mais concorridos que pretendo discorrer, neste texto. Há dois tipos de pessoas que vão a festivais: as que vão para curtir e as que vão para mostrar que foram. Vou tentar estabelecer algumas diferenças, face a determinados parâmetros.

Companhia
As pessoas que vão para curtir gostariam de poder levar mais dois ou três amigos, para poderem partilhar aqueles dias de festa. As pessoas que vão para mostrar que foram gostariam de poder levar um gestor de redes sociais, para planear todas as publicações no Facebook, no Instagram, no Snapchat, bem como os comunicados de imprensa.

Bandas
As pessoas que vão para curtir têm três ou quatro bandas cujo trabalho acompanham e cujos concertos lhes causam expectativa. As pessoas que vão para mostrar que foram têm três ou quatro publicações, preparadas há dois meses, para mostrar, não só, o quanto amam determinadas bandas, mas também que são as pessoas que mais as amam, no Universo.

Concertos
As pessoas que vão para curtir divertem-se nos concertos, mesmo que não vejam bem o palco. As pessoas que vão para mostrar que foram só se divertem se colocarem o palco todo num ecrã de cinco polegadas.

Localização
As pessoas que vão para curtir procuram os palcos onde estão a decorrer concertos que lhes pareçam interessantes. As pessoas que vão para mostrar que foram procuram locais com boa luminosidade para fotografar, com pouco ruído visual e com pontos para carregar o telemóvel.

Deslocações
As pessoas que vão para curtir parecem um bumerangue, entre o local onde assistem ao concerto e o local onde compram cerveja. As pessoas que vão para mostrar que foram fazem um bumerangue, no Instagram, a beber uma cerveja.

Confusão
As pessoas que vão para mostrar que foram desviam-se das pessoas, para poderem filmar/fotografar com bom ângulo. As pessoas que vão para curtir desviam-se das pessoas que vão para mostrar que foram, porque há um momento em que já chega de tanto telemóvel à frente.

Histórias
As pessoas que vão para curtir trazem boas memórias para partilhar com os amigos. As pessoas que vão para mostrar que foram trazem o cartão de memória a abarrotar.

Balanço
As pessoas que vão para curtir chegam ao fim satisfeitas, porque fizeram a festa com meia dúzia de amigos. As pessoas que vão para mostrar que foram ficam insatisfeitas se só tiverem meia dúzia de likes numa publicação.

Reportagem
As pessoas que vão para curtir contam como foi o festival com uma satisfação que nos deixa colados ao relato dos acontecimentos. As pessoas que vão para mostrar que foram são como um jogo de futebol transmitido em diferido: contam-nos coisas que já todos ficamos a saber pelas redes sociais.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Consegues escolher uma bebida em menos de dez minutos?

Se nos lembrarmos do início dos anos 90, pensamos automaticamente que vivíamos na idade da pedra. A televisão tinha dois canais e não dava para parar ou recuar sete dias. Qualquer pessoa que tivesse um computador parecia vinda do futuro e muito mais inteligente do que as demais, e só a ideia de poder ligar os computadores em rede podia provocar um esgotamento ao cidadão comum. Telefone, só ligado à corrente e, para mandar uma mensagem, ia-se aos CTT e mandava-se um telegrama. Uma viagem entre Braga e Lisboa demorava uma eternidade e implicava uma tamanha distorção no eixo espácio-temporal que era como aqueles filmes do espaço, em que uma personagem regressa de uma missão e reencontra um familiar demasiado envelhecido. Ir a Espanha tinha qualquer coisa de filme de James Bond, uma vez que implicava controlo fronteiriço.

Apesar de todas estas enormes desvantagens, havia uma simplicidade apaixonante naqueles tempos. Por exemplo, quando as pesssoas iam ao café, era fácil escolher. Hoje, há tantas opções possíveis que para ir ao café em Junho, é melhor começar a estudar a gama de produtos em Abril.

- Boa noite.

- Boa noite. Queria um café, por favor?

- Normal, duplo, mocha, cappuccino, pingado…?

- Um café, café, por favor.

- Prefere um lote arábica, robusta ou uma mistura?

- Ah?!

- O café arábica tem menos cafeína, mas tem um sabor mais intenso. O robusta, por seu lado, fica mais cremoso.

- Pode ser um arábica.

- Prefere espresso, curto ou ristretto?

- Qual é a diferença?

- A quantidade de líquido. O expresso tem…

- Olhe, traga meia chávena, seja lá qual for o nome.

- Prefere um café sem início?

- Ah?

- Há pessoas que preferem que o café não tenha a primeira porção de líquido que sai da máquina.

- Olhe, comece a deitar na chávena logo ao começar a sair da máquina. Sabe que mais? Desisti do café. Quero um chá.

- Branco, verde, preto, limão, cidreira, camomila, tília, menta?

- Nem sei… Tem água com gás?

- Sim. Com muito ou pouco gás?

- Há águas com pouco gás? Tem águas com quase nenhum gás?

- Não, só com muito ou com pouco gás.

- Quero com muito gás. Traga a que tiver mais bolhinas. Pode contá-las.

- Com ou sem sabores?

- Pode ser com sabores.

- Limão, framboesa, pepino?

- Olhe, tem cerveja?

- Claro. Prefere industrial ou artesanal?

- Qual é a diferença?

- A cerveja artesanal é mais intensa e aromática.

- Pode ser artesanal.

- Loira, ruiva ou preta?

- Só três cores? Não há gamas intermédias? Que desilusão… Se calhar, prefiro um gin.

- Tem preferência por alguma referência?

- Qualquer um.

- Que tipo de botânico quer a acompanhar? Quer lima, limão, laranja?

- Olhe, traga-me um copo de vinho.

- Branco ou tinto?

- Tinto.

- Verde ou maduro?

- Maduro.

- Tem preferência por região?

- Douro.

- Alguma casta preferida? Touriga nacional, touriga franca, tinta toriz, tinta barroca?

- Chega! Desisto! Traga-me um copo de água.

- Mineral ou da torneira?

sábado, 17 de junho de 2017

A revolta dos designers

Há dias, vi um anúncio de um concurso, no qual se solicitavam propostas para a identidade gráfica de incubadoras municipais de empresas, sendo a proposta vencedora premiada com … um iPad. Sim, o trabalho de dezenas (ou centenas?) de criativos será premiado com um iPad. Eu sei que aquelas pessoas que são incapazes de distinguir um ábaco de um computador poderão dizer “Eh pá, é um iPad Pro, que tem uma caneta toda gira e que até pode ser uma ferramenta de trabalho útil a um designer”. A estas alimárias eu responderia: “Então podemos contratar um carpinteiro e pagar-lhe com um martelo”.

Não interessa revelar qual é a Câmara Municipal que fez isto, até porque foi a de Guimarães e, como eu sou de Braga, os trolls que estiverem de serviço, na Internet, nos próximos dias, poderão acusar-me de estar a fomentar querelas bairristas. O que não corresponde à verdade, uma vez que enunciei este concurso a título de exemplo. Não é uma novidade, é só mais uma, no imenso conjunto de iniciativas que tratam os designers como mercadoria.

Quando vi o anúncio, tive o cuidado de confirmar que o concurso não era promovido por uma empresa que comercializa carne ou lacticínios. Se fosse, a explicação para este caso poderia estar no facto de o responsável pelo concurso, afectado pelo cansaço e pelo stress da vida empresarial, ter confundido os designers com gado bovino. Até se aceitava, porque o homem andava cansado e confuso, ele fazia um pedido de desculpas, ou era queimado em público, dependendo de quem analisasse a situação, e a vida seguia.

Mas não. Isto foi objecto de uma decisão consciente (?!). Depois da vaga de pessoas que acham que “Isto o que era preciso era um Salazar para pôr ordem”, e das pessoas que acham que os direitos dos animais só farão sentido quando todos os seres humanos forem felizes, o nosso maior problema é a malta que diz” “Arranja aí 1,5Kg de bom design e 200g de texto, por favor. Ah, e 150 de fiambre, que o meu Gonçalinho gosta de uma sande ao lanche.”

Mas isto não vai ficar por aqui. As empresas estão sempre a reinventar-se e a adaptar-se aos novos desafios. Não faltará muito tempo para que os anúncios possam ser algo como:

- Cria a identidade gráfica da Câmara Municipal e ganha um presunto pata negra (não ia haver autarquias a premiar designers com um iPad Pro e nós a oferecermos presuntos normais, não, nós damos um pata negra!);

- Cria o logótipo da nossa empresa e ganha um voucher com 10% de desconto num fim-de-semana no melhor hotel do Mónaco;

- Cria o cartaz da nossa festa e ganha um bilhete duplo para um concerto do A.G.I.R. (éramos para escolher algo que se parecesse mais com música, mas o nosso contacto só nos arranjou do A.G.I.R.)

- Cria a mascote do nosso evento e ganha um like na tua página.

Nem faltará muito tempo para que, em sede de Concertação Social, os representantes das empresas proponham a criação de um zoo de designers, no qual os empresários possam atirar comida aos criativos, em troca de trabalho.

Amigos designers, revoltem-se. Proponho uma solução, que passa por todos os participantes enviarem propostas do mesmo calibre dos seguintes desenhos (eu sei, sou óptimo a desenhar no Paint, mas garanto que não fiz isto para promover o meu talento; coloco legenda, porque a minha arte foge para o abstracto e alguns leitores poderão não compreendê-la).

Menino 
Menina
Sol

Flor

Confrontados com tamanha qualidade, os empresários começariam a pensar em fazer algo que desonraria as suas famílias e colocaria em causa o futuro das suas empresas: pagar devidamente pelo trabalho dos designers.

sábado, 3 de junho de 2017

A culinária é a nova pornografia

O aparecimento da televisão por cabo, em Portugal, no início do século XXI, permitiu, entre outras coisas, que o acto de ver animais a copular freneticamente deixasse de ser exclusivo de quem assistia aos documentários sobre vida animal. Na caixinha mágica, onde podíamos ver o babuíno ou o pavão nos seus rituais de acasalamento, passámos a poder ver a senhorita que, tendo ido buscar o seu carro à oficina, e tendo-se esquecido da carteira, aproveitou para se envolver sexualmente com um profissional da reparação automóvel. Quem diz isto diz o profissional de entrega de um determinado tipo de comida italiana que faz uma relaxante pausa num difícil dia de trabalho, desenvolvendo actividades de cariz sexual com uma cliente possuidora de seios proeminentes. Foram anos de glória, sobretudo para quem estava na sua adolescência. Ávidos de narrativas capazes de exprimir a complexidade do ser humano, de mamas grandes e de sexo desenfreado, milhares, para não dizer milhões, de adolescentes encontraram o que acreditavam ser o sentido da vida.

Porém, depois da revolução, veio a banalização. A facilidade de encontrar conteúdos deste nível de romantismo, espontaneidade e penetração, em qualquer esquina da Internet, veio retirar-lhes a vertente de fruto proibido.

Logo vieram os “reality shows”, para que fosse possível espreitar para uma casa cheia de pessoas desinteressantes. Banalizado o sexo, o ideal era banalizar a privacidade e a falta de cultura geral. Uma fórmula inaflível, portanto. A possibilidade de assistir, em directo, ao envolvimento emocional e sexual de outros seres humanos foi demasiado boa para resistir. Só que também isto se banalizou. O número de programas aumentou, o número de concorrentes capazes de articular duas frases desceu drasticamente, e o tédio aumentou de novo.

Mas a indústria da televisão não dorme, e descobriu qual era o novo fruto proibido: a comida. Numa era em que não se pode comer açúcar, glúten, sal e nada que não seja verde, que não seja uma espécie de farelo ou que não pareça massa de tapar buracos na parede, mostrar a confecção de comida saborosa aos seres humanos é apelar aos seus instintos mais reprimidos. É impossível não resultar.

Antigamente, os programas de culinária eram transmitidos à hora do almoço, não só, para nos abrir o apetite, mas também para encherem chouriços (não literalmente) naquele período entre o programa da manhã e o telejornal da uma da tarde. Actualmente, os programas da manhã estão demasiado ocupados, durante esse período, a contar a bonita história da pessoa a quem partiram o pára-brisas com um piano de cauda, ou da pessoa a quem nasceu um bonsai no ombro direito. É isto ou promover concursos telefónicos que envolvem números, rodas, tômbolas e pessoas a cuspir fogo, e nos quais se pode ganhar muito dinheiro.

E ainda bem, porque se os programas de culinária colonizaram o resto do horário televisivo, é urgente preencher aquele tempinho antes do telejornal da uma da tarde.

Viveremos tempo suficiente para que os canais eróticos sejam livres e os de culinária sejam pagos. Viveremos tempo suficiente para que as pessoas estejam a ver programas de culinária e, surpreendidos por alguém que chega a casa, mudem para a pornografia.

- O que estás a ver, querido?

(Mudança rápida de canal.)

- Eeeeh, um filme.

- De que é?

- É esta senhora de mamas grandes que decidiu saltar para cima daquele canalizador.

- Parece giro. Faz pausa, venho já ver.

- (Merda, agora que ia ver como é que aquele carpaccio ia ficar…) OK, querida.

Viveremos tempo suficiente para que os adolescentes se esgueirem pela porta do quarto, durante a noite, para verem meia horinha de 24 Kitchen. Só o tempo de o Rudolph confeccionar uma tão deliciosa, quanto proibida, tarte de maçã.

Viveremos tempo suficiente para vermos maior facilidade em legalizar uma loja de venda de drogas do que um restaurante que venda arroz de cabidela.

Viveremos tempo suficiente para que a comida saborosa e com bom aspecto seja matéria do canal História.

Viveremos tempo suficiente para que os governantes sejam escolhidos num programa em que o Gordon Ramsay os insulta aos berros, enquanto cozinham risoto e vieiras.

Tendo em conta alguns resultados de eleições recentes, até pode nem ser má ideia. O que é perdermos as liberdades e fomentarmos o ódio entre pessoas, em comparação com um naco de porco preto, em redução de vinho, com puré de maçã?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Desculpas para não comparecer em convívios

Existe uma piada antiga em que uma tia escreve uma carta a um sobrinho e termina-a dizendo que era para lhe ter mandado cinco contos, mas já tinha fechado o envelope. Lembrei-me dela porque quero começar por sugerir ao leitor uma boa desculpa para não ler este texto: pode dizer, nos comentários, que era para tê-lo lido, mas ficou sem internet. Esta forma de começar o texto é estranha, mas prometo que fará sentido.

Não sou especialista em coisa nenhuma, senão numa tão específica como detestável área do saber: arranjar desculpas para não comparecer em convívios. Esta área implica muita arte e sabedoria, uma vez que não nos é permitido recusar um convite com um simples “não me apetece”. Da mesma forma que os médicos dizem “prognóstico reservado” em vez de “isto está f*d*d*”, que os políticos dizem “vamos tomar medidas complementares” em vez de “vamos ver se conseguimos, em cima do joelho, resolver a c*g*d* que para aqui fizemos”, e que os empresários dizem “reestruturar” em vez de “despedir”, nós temos que dizer que “não podemos ir”, em vez de “achas mesmo que eu quero ir???”.

São convenções sociais bonitas e que não quero, de forma nenhuma, contestar. Quando temos um amigo chato, ou com hálito duvidoso, não lhe referimos isso directamente. Podemos é ouvi-lo menos vezes, caso seja chato, ou com uma maior distância de segurança, caso cheire mal da boca, mas nunca o ostracizamos. Assim como quando sobra um rissol, é sempre o gordo que deve comê-lo, sem que isso seja referido explicitamente. Eu sei disto porque, muitas vezes, me convidam a desempenhar esse papel, como se fosse apenas por cortesia, sem explicitar que é por causa de uma convenção social que determina que os gordos rapem os restos.

O grande problema é que nós, enquanto sociedade, ainda não aprendemos a lidar com o facto de um amigo nosso não estar com vontade de aceitar um convite para ver um jogo de futebol, para ir a uma jantarada ou para estar presente numa mostra de documentários sobre as colheitas de trigo na Birmânia. Ou com o facto de ele ter outros planos para a sua noite.

Daí terem surgido as desculpas para não comparecer em convívios: aquela arte de dizer “não posso” em vez de “não me apetece”. Só que há um problema sério com as desculpas: da mesma forma que o uso indevido de antibióticos fortalece as bactérias, o uso indevido de desculpas torna o nosso interlocutor mais atento à falta de criatividade para inventar uma desculpa.

Todos aqueles que, como eu, sofrem de quedas acentuadas de sociabilidade e que não querem, por vezes, mais do que estar sossegadinhos sem terem que ouvir outros seres humanos, necessitam de boas e consistentes desculpas. “Já tenho compromissos”, “Estou cansado” ou “Tenho que fazer uma entrega de uma grande quantia, em numerário, que me foi emprestada por um mafioso de Leste” são desculpas que toda a gente já usou e que, por isso mesmo, perderam a sua eficácia.

É por isso que aqui publico alguns exemplos de desculpas, bem como os diálogos que estas podem gerar. É importante, não só, ser criativo, a inventar a desculpa, como ter capacidade de improviso, quando a nossa justificação for colocada à prova por um amigo mais desconfiado.

Cenário A
- Tenho que tirar um dente do siso.
- Às dez da noite?
- Não, às quatro da tarde, mas como vai doer, já estou a reservar a noite para ficar maldisposto.
- Mas este é o oitavo dente do siso que tiras!
(Isto é um aviso para pessoas que repetem desculpas.)
- Não, ainda é o mesmo, só que dividi a extracção em oito sessões. Dói menos a tirar o dente e a pagar ao dentista.

Cenário B
- Fui mordido pela mosca do sono.
- Na Europa?!
- Sim, tenho um vizinho que faz criação.
- Mas tu não estás com sono.
- Isso é porque as moscas são raçadas de lesma. O efeito demora a aparecer. Logo nem me vou aguentar.

Cenário C
- O meu castor está doente.
- Desde quando é que tens um castor?
- Desde que me fartei de ir ao Ikea. Agora, pego no Motinha, damos uma volta pelo bosque e, em 40 minutos, tenho uma mesa-de-cabeceira.
(Aqui, ao sugerir o nome do castor, estamos a direccionar a atenção do nosso interlocutor para outro assunto, o que é essencial para o sucesso de uma desculpa.)
- O teu castor chama-se Motinha?
- Sim, é diminutivo de “motosserra”. Se o visses a cortar um pinheiro percebias o nome.

Cenário D
- Tenho que levar o carro ao mecânico.
- Num Sábado à noite?
- Não, na Segunda de manhã, mas tenho que levar o carro para lá com antecedência, senão perco a vez. Uma vez, esperei tanto na fila que, quando chegou a minha vez, o melhor já era desfazer-me do carro.

Cenário E
- Tenho que tratar do IRS.
- Estamos em Outubro.
- Eu trato todos os meses. Achas que ia chegar a Abril e andar com papelada velha? Eu sou alérgico ao ácaro do papel velho, não posso conservar grandes quantidades.
- Nunca me disseste que eras alérgico ao ácaro do papel.
- Isso é porque eu trato do IRS o ano todo, nem chego a ter crises alérgicas.

Cenário F
- Tenho um casamento.
- Numa Terça-feira?
- Não, num Sábado do próximo mês. Mas vou comprar os sapatos agora, para me habituar a eles. Senão, nas fotografias do casamento, fico com cara de quem tem bolhas nos pés.

Cenário G
- Tenho jogo de xadrez.
- Tu não jogas xadrez.
- Tenho um jogo para ver. É uma final importante.
- Não podes acompanhar pelo telemóvel?
- Isso dá no futebol, que é um jogo sem movimento e sem emoção nenhuma. No xadrez, temos que acompanhar cada movimento.

Cenário H
- Tenho um encontro com a Scarlett Johansson.
- Desculpa lá, mas nessa desculpa não caio.
- OK, OK, é mentira. Eu não tenho um encontro com a Scarlett Johansson. Vou só ter com ela para lhe entregar umas roupas que ela deixou na minha casa.

Estes são apenas alguns exemplos, mas um bom mentiroso está em constante aprendizagem. O mais importante, na área das desculpas para não comparecer em convívios, é conservar um registo de desculpas usadas, de forma a evitar repetições num curto intervalo ou para que, mais tarde, se possam reciclar desculpas velhas. É o trabalho de uma vida.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Amemos os nossos "trolls"

Quando andares pelo Facebook e encontrares um rasto de baba, numa determinada página, não te assustes: não adormeceste e começaste a babar. Provavelmente, foi só um “troll” que passou por ali e desatou a libertar dejectos verbais na caixa de comentários. Desde que não leias mais do que dois comentários, não corres o risco de contaminação. Entre três e dez comentários, podes ficar diminuído intelectualmente durante algumas horas. Se leres mais do que dez comentários, começas a concordar com o “troll” e isso é como o mundo dos zombies: não há caminho de volta.

Outra forma de detectares um potencial “troll” é encontrares “você” escrito na forma “voçê”, ou uma confusão entre “há” e “à”. O “troll” é, hoje, um dos maiores flagelos da Internet mas, felizmente, deixa vestígios por todo o lado, sob forma de erros ortográficos, pelo que, podes facilmente evitar pisar o cocó que eles deixam por onde passam.

O “troll” é um ser que sabe tudo sobre todas as coisas. Como o Miguel Sousa Tavares, mas mais agressivo. Sendo assim tão sábio, o “troll” comenta tudo o que é notícia colocada online. Apesar de saber tudo, sobre todas as coisas, os seus comentários revelam frequentemente ignorância e preconceito. A comunidade científica vai tentar descobrir como pode um ser sábio comportar-se tendencialmente como um ignorante mas, para já, está a dedicar-se a produzir novos tipos de farelo sem glúten. Um dia, talvez saberemos como pode o “troll” saber tudo menos detectar a própria estupidez.

O “troll” vive mal com a diferença (seja ela de natureza política, religiosa, sexual ou étnica), sobretudo, porque tem pouca memória RAM. Uma vez que o seu cérebro tem, em média, menos 35% de massa encefálica do que o do ser humano normal, quando confrontado com a diferença, o “troll” sofre um ciclo infinito de informação e entra em colapso. Os neurónios deixam de comunicar entre si e o sistema só pode ser reiniciado com a colocação de um comentário preconceituoso na Internet. Depois disso, o cérebro volta ao normal.

Já que refiro esta caracterísitca, vou ser mais rigoroso com a linguagem científica: o ser humano normal tem cérebro e cerebelo; o “troll” tem cerebelo e cerebelito. É tudo uma questão de tamanho.

Uma vez que têm dificuldade em orientar-se sozinhos neste mundo tão complicado em que vivemos, os “trolls” agrupam-se em bandos, como os pombos. Basta um levantar voo para um lado qualquer que os outros seguem-no. Nem que, chegado ao destino, o pombo diga: “Calma, só vim ver as horas, não precisavam de vir atrás de mim”. Em conjunto, os “trolls” que hoje assolam a Internet são como uma infestação de baratas. Com uma diferença: a barata, quando vai à lixeira, sabe encontrar o caminho de volta.

Apesar da dimensão do problema, não embarco na tese de que a Internet é que fabricou o “troll”. Este espécime sempre existiu. Só que agora tem voz pública. Tem um palco. É como aquele tio bêbado que, nos casamentos, rouba o microfone e desata a dissertar sobre os voluptuosos seios de uma convidada, sobre a frequência com que o seu intestino liberta os detritos do processo digestivo ou sobre as belíssimas strippers que abrilhantaram a festa de despedida de solteiro.

Se a Natureza não eliminou o “troll”, é porque ele faz falta ao ecossistema. Se ainda não eliminou a ténia, ou “bicha solitária”, que é um bicho que se instala no intestino para ingerir cocó, por que razão haveria de eliminar o “troll”?

O ser humano deve aprender a conviver com este espécime. Não entrando em discussões com ele, porque vai ser arrastado para a lama e perder o combate, mas tentando complexificar, de tal maneira, a discussão, que os “trolls” só poderão ficar sossegadinhos a falar entre si. Quando falo complexificar a discussão, não pretendo torná-la imperceptível ao cidadão comum. Noto que basta construir devidamente um argumento, ao mesmo tempo que se respeita a concordância entre sujeito e verbo, para que o “troll” já considere o nosso texto “Literatura” e o rejeite liminarmente.

Amemos os nossos “trolls”. Eles são apenas animais revoltados, que precisam de atenção.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Balelas nos sites de emprego

O que mais me fascina na frase “Vergonha é roubar e ser apanhado” é o facto de o ponto final não estar colocado logo a seguir a “roubar”. Segundo este dizer, senhoras e senhores, roubar não é mau. Mau é ser néscio, laparoto, neca, babana ao ponto de se ser apanhado. Uma pessoa que rouba é uma pessoa que faz pela vida. Mas uma pessoa que é apanhada a roubar é alguém com quem não gostaríamos de casar um/a filho/a.

Bom, a avaliar pelo histórico português de eleições autárquicas, mesmo ser apanhado não quer dizer que se perca popularidade e que se seja um mau partido. E se o nosso/a filho/a estiver encalhado/a há muito tempo, até podemos esquecer o facto de a pessoa com quem o/a vamos casar ter sido apanhada a roubar. No caso de o pretendente se tratar de um banqueiro, a comunhão de bens pode ser uma óptima solução.

Vem esta introdução algo desinteressante e um pouco fatalista a propósito de uma tendência que acho preocupante nos sites de emprego: muitas empresas não dizem o que querem. Há uma espécie de complexo que leva a que não se diga qual a função para a qual há uma vaga. É como se se tivesse vergonha de dizer qual a função. É como quando alguém quer acabar uma relação e não sabe como: anda-se ali à volta com coisinhas e não se diz logo tudo de uma vez. Exemplifico.

Precisa-se vendedor porta-a-porta
Trabalho tão respeitável como qualquer outro, e infinitamente mais respeitável do que roubar (ser apanhado é opcional), para este tipo de trabalho, as empresas anunciam vaga para algo como “comunicadores” ou “dinamizadores comerciais, junto do cliente final, de marcas, bens e serviços”. Pergunto eu: se pedissem vendedores porta-a-porta, não teriam uma melhor triagem dos candidatos? Candidatava-se quem queria, quem não queria não ia ao engano. Até porque os “dinamizadores comerciais, junto do cliente final, de marcas, bens e serviços” podem não estar interessados no porta-a-porta.

Precisa-se de funcionário da limpeza
Para as empresas que, imagine-se, vendem serviços de limpeza, trabalhar na limpeza não é digno. É tipo vender droga: dá dinheiro, mas é feio. Nada mais errado: a limpeza é essencial, na vida, no trabalho, nas zonas púbicas ou num bordel. Sendo assim, podem pedir “funcionários de limpeza” nos anúncios, e não “operadores de logística higiénica”. Facilitavam a vida a toda a gente.

Precisa-se de canalizador
A canalização é como o intestino: só lhe damos valor quando a matéria empanca. Sendo assim, as empresas que vendem serviços de canalização podem solicitar, nos sites de emprego, canalizadores, em vez de “pipelining problem solvers”. É a mesma coisa, mas facilita a vida a um canalizador que procure trabalho. Por vezes, a um canalizador desempregado, é mais difícil encontrar trabalho do que um objecto que esteja a obstruir um cano. Tudo por culpa do pipelining das empresas.

Precisa-se de construtor civil
O que seria de nós se não houvesse gente de fibra que, à chuva e ao sol, com calor e com frio, nos construísse as casas e as infraestruturas necessárias à nossa vida? Pois bem, colocar um anúncio para “construtor civil” seria uma boa ideia para as empresas de construção civil. Mas há sempre alguém com uma ideia melhor: porque não pedir um “operário concretizador de concepções arquitectónicas”?

Outra tendência tem a ver com o facto de haver muitos jornalistas desempregados. Por este motivo, toda a gente desatou a pedir o seu jornalista, nos sites de emprego, para desempenhar as mais diversas funções, todas elas respeitáveis, mas que nada têm a ver com jornalismo. Deixo alguns exemplos.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para fazer telemarketing, mas as suas “skills” ao nível da escrita podem ajudar a escrever alguns e-mails.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para trabalhar como “operário concretizador de concepções arquitectónicas”, mas pelo meio, sempre pode dizer notícias aos colegas, como se estivesse na rádio. E fazer relatos de futebol.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para motorista de pesados. Mas as suas capacidades de comunicação podem ajudar na relação com os clientes.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para trabalhar no “Correio da Manhã”.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Quando não havia emojis, mas havia música na MTV

Como dizia Lavoisier, “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Dizia Lavoisier, mas também o senhor Alfredo, da tasca “O Pepino”, em Guilhofrei, que recolhia cirurgicamente os restos de vinho das mesas para um recipiente grande, onde esses restinhos de vinho misturados davam origem a novas e, por vezes, deliciosas “castas”, capazes, não só, de embebedar com eficiência, mas também de destruir um fígado em seis semanas.

Vem isto a propósito de eu não ter grandes ideias sobre como iniciar este texto, mas também desta nova moda de, do velho, se fazerem velhos em quantidade suficiente para vender. Não, não estou a falar sobre cirurgia plástica, esse domínio da Medicina que tanto faz pessoas velhas com aspecto jovial como, em casos de menor acerto, excelentes bonecos de cera para museus. Eu sei, estou a ser injusto, com esta comparação: há bonecos de cera com uma vida demasiado activa para serem comparados com pessoas velhas.

Do que eu quero mesmo falar, quando parar de engonhar, é desta tendência recente da tecnologia para recuperar aparelhos do passado. No Natal, foi a Nintendo NES que fez as delícias dos nostálgicos. Vivemos um tempo que as consolas são tão evoluídas que, se jogarmos FIFA e tivermos o Cristiano Ronaldo na nossa equipa, durante aquele tempo, deixamos de saber dizer “oleosidade” e fotografamo-nos abundantemente em cuecas. Mesmo assim, muita gente comprou a Nintendo NES, cujos jogos são uma mistura de quadradinhos coloridos e música foleira. Ou seja: parecem aquelas discotecas que abrem ao Domingo à tarde. Ou um casaco do Goucha.

O mesmo está a acontecer com os telemóveis: a Nokia anunciou que vai relançar o 3310 e a Internet explodiu. Num tempo em que os telemóveis têm ecrãs maiores do que um espelho de casa-de-banho e mais RAM do que a que existia nos computadores todos de Portugal, em 1990, preparamo-nos para o sucesso de uma carcacinha com botões.

Apesar de tudo, há uma diferença fundamental entre estes dois exemplos: enquanto que muitos vão conseguir reeditar os êxitos que tiveram na Nintendo NES, na sua juventude, poucos irão repetir os êxitos que tiveram aos comandos de um Nokia 3310, nomeadamente no envio SMS de cariz romântico. No máximo, irão recuperar o recorde do jogo da cobra.

[Durante esta pausa, fica no ar a ideia de que eu poderia fazer um trocadilho de cariz sexual, com a expressão “jogo da cobra”, mas importa reforçar que eu não sou tão ordinário como vocês pensam.]

Pegando nesta moda de recuperar coisas do passado, passo a propor algumas que gostaria que voltassem.

Quem gostava de comer comida tradicional podia fazê-lo abertamente
Hoje, se quiseres comer arroz de cabidela ou papas de sarrabulho, tens que o fazer às escondidas. Caso contrário, podes ser apanhado e punido por grupos extremistas incrivelmente perigosos, como os “Caçadores do Glúten”, a “Brigada do Tofu”, o “Esquadrão Curgete”, a “Força de Intervenção Alface” ou os “Cortadores de Tomates”. (Como é óbvio, esta sequência de nomes ia acabar com um que desse para um trocadilho de cariz obsceno, mas eu não sou assim tão ordinário.) Caso sejas um destes grupos, vais desejar ter nascido frango do campo e ter acabado numa panela de arroz de cabidela.

Os seres humanos conseguirem pensar em mais do que 140 caracteres
Isto do Twitter é muito bonito, mas é bom para pessoas com pouca memória RAM. Eu sei, hoje em dia, ter pouca memória RAM não impede ninguém de ser, por exemplo, Presidente dos Estados Unidos, mas houve um tempo em que um ser humano sabia, em média, mais do que 36 palavras.

Não era preciso usar emojis
Em tempos, os seres humanos tinham palavras que designavam coisas. Por estranho que pareça, os seres humanos recorriam a essas palavras, e não a bonecos, para se fazerem entender. Para encontrarmos emojis na nossa linguagem, temos que recuar ao tempo das pinturas rupestres. Mas, nesse tempo, os seres humanos andavam semi-nus, pelo que se perdia na comunicação, mas se ganhava na interacção.

A MTV passava música
Eu sou do tempo em que a MTV era arrojada ao ponto de, não só, passar música, como também de transmitir programas sobre música. Não se entendia, de facto. Felizmente, alguma mente mais atenta mudou essa estratégia e hoje a MTV só transmite “reality shows”. Ainda assim, enquanto que a TVI tem a Teresa Guilherme, a MTV tem miúdas giras em bikini em locais paradisíacos. Por outras palavras, a MTV ainda não desceu ao nível TVI.

Quando um amigo viajava, mostrava-nos fotografias só quando voltava        
Hoje, começamos logo a ver uma fotografia da asa do avião, no nosso Facebook, ainda o veículo se encontra no chão. Para além disso, os seres humanos, nas viagens, contavam experiências. Hoje, contam likes em selfies. Agora que penso nisso: os seres humanos, hoje, passam mais tempo de costas para os locais que visitam, por causa das selfies. Mas isso não muda grande coisa: dantes, as pessoas diziam “Que fixe, fui ao Louvre!”, enquanto que hoje fazem tudo nas redes sociais para que lhes digam “Que fixe, foste ao Louvre!”.

Nas discotecas, os slows eram do Prince
…e outros artistas do mesmo nível. Hoje, os slows são kizombas. Nada contra, para quem pratica os slows, até fica uma parte dos preliminares já feita. Mas para quem, como eu, não dança slows, perde-se na qualidade musical. Mas quem vai a uma discoteca por causa da qualidade musical não merece nada. É como ir a uma sucata procurar arte contemporânea. Mau exemplo: muita da arte contemporânea é feita de sucata. Enfim, vocês entenderam-me.

Podem acrescentar outras sugestões, nos comentários a esta pequena dissertação. Eu prometo que leio, quando acabar este programa que estou a ver na MTV.