terça-feira, 8 de agosto de 2017

Como está o tempo na praia?

Por estes dias, andamos entretidos com as grandes questões, aquelas que nos fazem pensar em nós, enquanto civilização, aquelas que realmente definem o nosso mundo, tais como “Será que António Costa vai mexer no Governo?”, “Quem vai despedir hoje Donald Trump?”, “Como evolui a situação na Venezuela?” ou, mais importante do que todas as anteriores, “Como está o tempo na praia?”.

(Sean MacEntee/Flickr)

Sobre esta última, noto que é difícil chegar a um consenso. Existem diversos grupos de Facebook dedicados ao tema, mas a malta já perde muito tempo com os grupos de jantares, de compra e venda de cangalho e de conteúdos eróticos. Para além disso, é difícil utilizar uma linguagem que seja universalmente compreensível. “Tá bom”, Tá mau”, “Tá assim-assim” ou “Tá top tipo sunset no rooftop” são expressões que pouco ou nada acrescentam.

Existem sites dedicados à informação sobre o estado do tempo mas, para além de não termos tempo de nos graduarmos em Meteorologia, numa manhã de Sábado, existe um problema de escala. O que é “vento fraco a moderado”? Não consigo estar em paz, com a vida, em geral, se não me disserem a partir de que ponto o vento abandona a região do “fraco”, para entrar, com toda a moderação, na região do “moderado”?

Para além disso, estes sites não contêm informações que tem que ser dadas por quem está na praia, tais como o número de pessoas, em geral, o número de pessoas ruidosas, em particular, o número de pessoas a praticarem desportos diversos, que possam resultar, para nós, em boladas na cara ou em areia na toalha a toda a hora, o cheiro a fritos provindo de tupperwares abertos, entre outras.

Sendo que, das 24 horas diárias de um canal de TV cabo, 32 são dedicadas ao comentário de futebol, todas as pessoas sabem, hoje em dia, o que é organização defensiva e organização ofensiva, transição rápida, ataque rápido e contra-ataque, pressão alta, corredores laterais e corredor central, último passe, circulação, exercícios de aquecimento, fora-de-jogo, cartões amarelos e vermelhos, entre outros termos, alguns dos quais oriundos da Física de partículas. Por isso mesmo, proponho que os comentadores de futebol passem o dia na praia, acumulando o comentário desportivo com a informação sobre o estado do tempo. Ganham eles, porque fazem as suas 32 horas diárias de programa com os pezinhos na areia Ganhamos nós, porque temos, finalmente, quem nos saiba dizer que tempo está na praia.

Dia muito quente
“O sol está a fazer uma circulação de calor perfeita, não deixando possibilidade ao vento de fazer o seu jogo e refrescar os banhistas. E o sol não dá sinais de poder abrandar o ritmo do ataque, tendo o jogo perfeitamente controlado.”

Dia com sol, mas com nortada
“O vento está a fazer uma transição muito rápida, do Norte para o Sul, levando consigo areia, toalhas e caranguejos. O jogo está a pedir uma substituição do tapa-vento, que dá sinais evidentes de desgaste e está rasgado em três sítios, por um muro de betão que seja capaz de conter esta toada ofensiva.”

Dia conzento
“As nuvens estão a pressionar tão alto que tapam o sol. O melhor é fazer exercícios de aquecimento, que está muito frio na praia.”
Dia com sol, mas com mar revolto
“O mar está a carregar com muita força no areal. Só a permissividade do nadador-salvador tem retardado o cartão amarelo. Há que proteger o jogo e entradas destas colocam em risco a integridade física do adversário.”

Muita gente na praia
“Os corredores laterais, assim como o corredor central, estão bem povoados. A organização defensiva dos banhistas torna quase impossível a penetração nas zonas mais próximas do mar. Há quem tenha fugido para locais mais isolados, mas está em clara posição de fora-de-jogo.”

Pouca gente na praia
"Os banhistas a concederem muito espaço para jogar entre linhas. Se a situação não se alterar, vão perder o controlo do jogo."

Para além de termos informação confiável, quando chegássemos a casa, tínhamos direito à análise do dia de praia. “Foi um dia competitivo, com o sol e o mar a darem uma boa réplica aos banhistas. Estes acabaram por vencer com justiça, já que mantiveram um ritmo de jogo elevado até aos últimos minutos. Nota negativa apenas para o Sr. Martins, que adormeceu ao sol, de barriga para o ar, e está com um escaldão que merece atenção do departamento médico. Talvez fique uma semana sem competir.”

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Onde está o teu telemóvel?

A minha relação com o telemóvel é igual à que um bêbado tem com o bom senso: é raro recorrer aos seus serviços. No entanto, por razões de sociabilidade, tenho telemóvel. Até porque acredito que, um dia, poderei estar numa situação em que tenha que salvar o mundo e precise de fazer um telefonema.

(Tim G. Photography/Flickr)

Imaginemos que uma civilização extraterrestre, totalmente hostil, nos invade. Eu posso ser o primeiro a saber e ter que avisar a NASA, o Donald Trump, ou os tipos da Coreia do Norte. Bom, embora tenham mísseis espectaculares, não sei se o pessoal da Coreia do Norte tem telemóvel.

Numa segunda análise, a hipótese de ser eu a avisar toda a gente acerca de uma invasão extraterrestre é estúpida: não por ser extremamente provável que a NASA saiba antes de mim, mas sobretudo porque, mesmo perante a extinção, não me vai apetecer telefonar a ninguém.

Eu tenho sempre uma boa desculpa para não atender o telefone. Começo pelo facto de o ter muitas vezes em modo silencioso. Eu sei: o Bell matou-se a trabalhar para inventar o telefone e a piada é ele tocar, alertando-nos para o facto de alguém querer falar connosco. Mas é uma espécie de mecanismo de seriedade: se ele estiver sem som, eu posso dizer que não o ouvi a tocar, porque não ouvi mesmo. Estou a mentir com a verdade, e isso parece-me ser menos mentiroso do que mentir com a mentira.

Outra das situações que pode suceder é estar com o telemóvel na casa-de-banho e não atender por isso mesmo. Falar com alguém enquanto estamos sentados na sanita é como se trouxéssemos essa pessoa para a casa-de-banho, naquele preciso momento. E imaginar determinadas pessoas na casa-de-banho, num momento em que temos um pouco menos de dignidade do que o habitual pode ser, no mínimo, inibidor de cocó.

Um problema que os telemóveis trouxeram e que é uma violência muito grande para mim é atender o telefone e do outro lado atirarem-nos com um determinado “Onde estás?”. Aqui, nem precisamos de estar com o telemóvel na casa-de-banho: há várias situações em que não nos interessa muito dizer onde estamos. Ou porque estamos noutra cidade, noutro país, ou noutro planeta com boa cobertura de rede telefónica. Ou porque não queremos que a pessoa que nos está a ligar tenha a infeliz ideia de perguntar “Não queres vir cá?” ou, pior ainda, “E se eu aparecesse aí?”, esquecendo-se, muitas vezes, que se quiséssemos estar com ela, provavelmente tê-la-íamos feito saber. Ou porque, muitas das vezes, o problema não é onde estamos, mas sim com quem estamos, que será a pergunta seguinte, em 87% dos casos. Aí, sugiro boas respostas como “Estou a fugir de um leopardo” ou “Trouxe o meu hipopótamo à rua”: ou a pessoa que nos liga acredita e nos deixa em paz, tanto para fugirmos com sucesso do leopardo, como para darmos toda a atenção ao hipopótamo; ou não acredita e percebe que o sarcasmo é uma forma de dizer que não vamos responder a mais perguntas. É 100% eficaz.

Mas, quando tenho que falar, falo, pelo que, há pessoas bem piores do que eu, que são aquelas que não querem gastar a rede telefónica: parece que têm medo de que a sociedade fique sem rede, se elas demorarem muito. Então fazem chamadas de duas palavras, tais como “Não almoço”, “Chego tarde”, “Vou casar”. Algumas há que, se disserem quatro palavras, como “Não durmo em casa”, precisam de pedir baixa médica, por esgotamento. As SMS destas pessoas também são, geralmente, tão parcas em palavras que só têm pontos e traços. Sim, estas pessoas enviam mensagens em código Morse. Pegando no exemplo mais simples e quotidiano acima referido, como “Vou casar”, a mensagem em Morse resulta da seguinte forma “...- --- ..- / -.-. .- ... .- .-.”. e assim se poupa a rede de infinitos bytes de memória desperdiçada em palavras. Até porque se as pessoas percebem a complexa linguagem dos emojis, de certeza que sabem Morse.

Do outro lado da moeda, estão as pessoas para quem, se não o ouviram num telefonema, então não aconteceu. São aquelas que actualizam o seu estado, por telefone, doze vezes por dia, junto das pessoas mais próximas. São aquelas que partem a frase em três partes, para mandarem três SMS’s, em vez de uma. E são as mesmas que, quando eu avisar a NASA de que o mundo está a ser invadido, vão esperar no sofá, reforçando que ainda ninguém lhes ligou a avisar.

Quando isso acontecer, de certeza que vão ter o telefone com som.

domingo, 9 de julho de 2017

Pessoas que vão a festivais de música

Verão é calor, luz do dia até tarde, noites quentes e, fundamentalmente, moças extremamente sensuais com roupas diminutas. Um sonho, portanto. Mas é, também, festivais de música a cada três dias. Festivais de música rock, festivias de música clássica, festivais de música alternativa, festivais de música mais comercial, festivais de música do mundo, festivais de música que ainda nem foi inventada, festivais de francesinhas e de marisco, nos quais também há concertos semi-musicais, como os dos D. A. M. A. e de artistas similares. Há festivais para todos os gostos.

(Veld Music Festival/Flickr)

É sobre o público dos festivais mais concorridos que pretendo discorrer, neste texto. Há dois tipos de pessoas que vão a festivais: as que vão para curtir e as que vão para mostrar que foram. Vou tentar estabelecer algumas diferenças, face a determinados parâmetros.

Companhia
As pessoas que vão para curtir gostariam de poder levar mais dois ou três amigos, para poderem partilhar aqueles dias de festa. As pessoas que vão para mostrar que foram gostariam de poder levar um gestor de redes sociais, para planear todas as publicações no Facebook, no Instagram, no Snapchat, bem como os comunicados de imprensa.

Bandas
As pessoas que vão para curtir têm três ou quatro bandas cujo trabalho acompanham e cujos concertos lhes causam expectativa. As pessoas que vão para mostrar que foram têm três ou quatro publicações, preparadas há dois meses, para mostrar, não só, o quanto amam determinadas bandas, mas também que são as pessoas que mais as amam, no Universo.

Concertos
As pessoas que vão para curtir divertem-se nos concertos, mesmo que não vejam bem o palco. As pessoas que vão para mostrar que foram só se divertem se colocarem o palco todo num ecrã de cinco polegadas.

Localização
As pessoas que vão para curtir procuram os palcos onde estão a decorrer concertos que lhes pareçam interessantes. As pessoas que vão para mostrar que foram procuram locais com boa luminosidade para fotografar, com pouco ruído visual e com pontos para carregar o telemóvel.

Deslocações
As pessoas que vão para curtir parecem um bumerangue, entre o local onde assistem ao concerto e o local onde compram cerveja. As pessoas que vão para mostrar que foram fazem um bumerangue, no Instagram, a beber uma cerveja.

Confusão
As pessoas que vão para mostrar que foram desviam-se das pessoas, para poderem filmar/fotografar com bom ângulo. As pessoas que vão para curtir desviam-se das pessoas que vão para mostrar que foram, porque há um momento em que já chega de tanto telemóvel à frente.

Histórias
As pessoas que vão para curtir trazem boas memórias para partilhar com os amigos. As pessoas que vão para mostrar que foram trazem o cartão de memória a abarrotar.

Balanço
As pessoas que vão para curtir chegam ao fim satisfeitas, porque fizeram a festa com meia dúzia de amigos. As pessoas que vão para mostrar que foram ficam insatisfeitas se só tiverem meia dúzia de likes numa publicação.

Reportagem
As pessoas que vão para curtir contam como foi o festival com uma satisfação que nos deixa colados ao relato dos acontecimentos. As pessoas que vão para mostrar que foram são como um jogo de futebol transmitido em diferido: contam-nos coisas que já todos ficamos a saber pelas redes sociais.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Consegues escolher uma bebida em menos de dez minutos?

Se nos lembrarmos do início dos anos 90, pensamos automaticamente que vivíamos na idade da pedra. A televisão tinha dois canais e não dava para parar ou recuar sete dias. Qualquer pessoa que tivesse um computador parecia vinda do futuro e muito mais inteligente do que as demais, e só a ideia de poder ligar os computadores em rede podia provocar um esgotamento ao cidadão comum. Telefone, só ligado à corrente e, para mandar uma mensagem, ia-se aos CTT e mandava-se um telegrama. Uma viagem entre Braga e Lisboa demorava uma eternidade e implicava uma tamanha distorção no eixo espácio-temporal que era como aqueles filmes do espaço, em que uma personagem regressa de uma missão e reencontra um familiar demasiado envelhecido. Ir a Espanha tinha qualquer coisa de filme de James Bond, uma vez que implicava controlo fronteiriço.

Apesar de todas estas enormes desvantagens, havia uma simplicidade apaixonante naqueles tempos. Por exemplo, quando as pesssoas iam ao café, era fácil escolher. Hoje, há tantas opções possíveis que para ir ao café em Junho, é melhor começar a estudar a gama de produtos em Abril.

(Camila Tamara Silva Sepúlveda/Flickr)

- Boa noite.

- Boa noite. Queria um café, por favor?

- Normal, duplo, mocha, cappuccino, pingado…?

- Um café, café, por favor.

- Prefere um lote arábica, robusta ou uma mistura?

- Ah?!

- O café arábica tem menos cafeína, mas tem um sabor mais intenso. O robusta, por seu lado, fica mais cremoso.

- Pode ser um arábica.

- Prefere espresso, curto ou ristretto?

- Qual é a diferença?

- A quantidade de líquido. O expresso tem…

- Olhe, traga meia chávena, seja lá qual for o nome.

- Prefere um café sem início?

- Ah?

- Há pessoas que preferem que o café não tenha a primeira porção de líquido que sai da máquina.

- Olhe, comece a deitar na chávena logo ao começar a sair da máquina. Sabe que mais? Desisti do café. Quero um chá.

- Branco, verde, preto, limão, cidreira, camomila, tília, menta?

- Nem sei… Tem água com gás?

- Sim. Com muito ou pouco gás?

- Há águas com pouco gás? Tem águas com quase nenhum gás?

- Não, só com muito ou com pouco gás.

- Quero com muito gás. Traga a que tiver mais bolhinas. Pode contá-las.

- Com ou sem sabores?

- Pode ser com sabores.

- Limão, framboesa, pepino?

- Olhe, tem cerveja?

- Claro. Prefere industrial ou artesanal?

- Qual é a diferença?

- A cerveja artesanal é mais intensa e aromática.

- Pode ser artesanal.

- Loira, ruiva ou preta?

- Só três cores? Não há gamas intermédias? Que desilusão… Se calhar, prefiro um gin.

- Tem preferência por alguma referência?

- Qualquer um.

- Que tipo de botânico quer a acompanhar? Quer lima, limão, laranja?

- Olhe, traga-me um copo de vinho.

- Branco ou tinto?

- Tinto.

- Verde ou maduro?

- Maduro.

- Tem preferência por região?

- Douro.

- Alguma casta preferida? Touriga nacional, touriga franca, tinta toriz, tinta barroca?

- Chega! Desisto! Traga-me um copo de água.

- Mineral ou da torneira?

sábado, 17 de junho de 2017

A revolta dos designers

Há dias, vi um anúncio de um concurso, no qual se solicitavam propostas para a identidade gráfica de incubadoras municipais de empresas, sendo a proposta vencedora premiada com … um iPad. Sim, o trabalho de dezenas (ou centenas?) de criativos será premiado com um iPad. Eu sei que aquelas pessoas que são incapazes de distinguir um ábaco de um computador poderão dizer “Eh pá, é um iPad Pro, que tem uma caneta toda gira e que até pode ser uma ferramenta de trabalho útil a um designer”. A estas alimárias eu responderia: “Então podemos contratar um carpinteiro e pagar-lhe com um martelo”.

(Simone Bosotti/Flickr)

Não interessa revelar qual é a Câmara Municipal que fez isto, até porque foi a de Guimarães e, como eu sou de Braga, os trolls que estiverem de serviço, na Internet, nos próximos dias, poderão acusar-me de estar a fomentar querelas bairristas. O que não corresponde à verdade, uma vez que enunciei este concurso a título de exemplo. Não é uma novidade, é só mais uma, no imenso conjunto de iniciativas que tratam os designers como mercadoria.

Quando vi o anúncio, tive o cuidado de confirmar que o concurso não era promovido por uma empresa que comercializa carne ou lacticínios. Se fosse, a explicação para este caso poderia estar no facto de o responsável pelo concurso, afectado pelo cansaço e pelo stress da vida empresarial, ter confundido os designers com gado bovino. Até se aceitava, porque o homem andava cansado e confuso, ele fazia um pedido de desculpas, ou era queimado em público, dependendo de quem analisasse a situação, e a vida seguia.

Mas não. Isto foi objecto de uma decisão consciente (?!). Depois da vaga de pessoas que acham que “Isto o que era preciso era um Salazar para pôr ordem”, e das pessoas que acham que os direitos dos animais só farão sentido quando todos os seres humanos forem felizes, o nosso maior problema é a malta que diz” “Arranja aí 1,5Kg de bom design e 200g de texto, por favor. Ah, e 150 de fiambre, que o meu Gonçalinho gosta de uma sande ao lanche.”

Mas isto não vai ficar por aqui. As empresas estão sempre a reinventar-se e a adaptar-se aos novos desafios. Não faltará muito tempo para que os anúncios possam ser algo como:

- Cria a identidade gráfica da Câmara Municipal e ganha um presunto pata negra (não ia haver autarquias a premiar designers com um iPad Pro e nós a oferecermos presuntos normais, não, nós damos um pata negra!);

- Cria o logótipo da nossa empresa e ganha um voucher com 10% de desconto num fim-de-semana no melhor hotel do Mónaco;

- Cria o cartaz da nossa festa e ganha um bilhete duplo para um concerto do A.G.I.R. (éramos para escolher algo que se parecesse mais com música, mas o nosso contacto só nos arranjou do A.G.I.R.)

- Cria a mascote do nosso evento e ganha um like na tua página.

Nem faltará muito tempo para que, em sede de Concertação Social, os representantes das empresas proponham a criação de um zoo de designers, no qual os empresários possam atirar comida aos criativos, em troca de trabalho.

Amigos designers, revoltem-se. Proponho uma solução, que passa por todos os participantes enviarem propostas do mesmo calibre dos seguintes desenhos (eu sei, sou óptimo a desenhar no Paint, mas garanto que não fiz isto para promover o meu talento; coloco legenda, porque a minha arte foge para o abstracto e alguns leitores poderão não compreendê-la).~

Menino 
Menina
Sol

Flor

Confrontados com tamanha qualidade, os empresários começariam a pensar em fazer algo que desonraria as suas famílias e colocaria em causa o futuro das suas empresas: pagar devidamente pelo trabalho dos designers.

sábado, 3 de junho de 2017

A culinária é a nova pornografia

O aparecimento da televisão por cabo, em Portugal, no início do século XXI, permitiu, entre outras coisas, que o acto de ver animais a copular freneticamente deixasse de ser exclusivo de quem assistia aos documentários sobre vida animal. Na caixinha mágica, onde podíamos ver o babuíno ou o pavão nos seus rituais de acasalamento, passámos a poder ver a senhorita que, tendo ido buscar o seu carro à oficina, e tendo-se esquecido da carteira, aproveitou para se envolver sexualmente com um profissional da reparação automóvel. Quem diz isto diz o profissional de entrega de um determinado tipo de comida italiana que faz uma relaxante pausa num difícil dia de trabalho, desenvolvendo actividades de cariz sexual com uma cliente possuidora de seios proeminentes. Foram anos de glória, sobretudo para quem estava na sua adolescência. Ávidos de narrativas capazes de exprimir a complexidade do ser humano, de mamas grandes e de sexo desenfreado, milhares, para não dizer milhões, de adolescentes encontraram o que acreditavam ser o sentido da vida.

Porém, depois da revolução, veio a banalização. A facilidade de encontrar conteúdos deste nível de romantismo, espontaneidade e penetração, em qualquer esquina da Internet, veio retirar-lhes a vertente de fruto proibido.

Logo vieram os “reality shows”, para que fosse possível espreitar para uma casa cheia de pessoas desinteressantes. Banalizado o sexo, o ideal era banalizar a privacidade e a falta de cultura geral. Uma fórmula inaflível, portanto. A possibilidade de assistir, em directo, ao envolvimento emocional e sexual de outros seres humanos foi demasiado boa para resistir. Só que também isto se banalizou. O número de programas aumentou, o número de concorrentes capazes de articular duas frases desceu drasticamente, e o tédio aumentou de novo.

Mas a indústria da televisão não dorme, e descobriu qual era o novo fruto proibido: a comida. Numa era em que não se pode comer açúcar, glúten, sal e nada que não seja verde, que não seja uma espécie de farelo ou que não pareça massa de tapar buracos na parede, mostrar a confecção de comida saborosa aos seres humanos é apelar aos seus instintos mais reprimidos. É impossível não resultar.

(Markus Spiske/Flickr)

Antigamente, os programas de culinária eram transmitidos à hora do almoço, não só, para nos abrir o apetite, mas também para encherem chouriços (não literalmente) naquele período entre o programa da manhã e o telejornal da uma da tarde. Actualmente, os programas da manhã estão demasiado ocupados, durante esse período, a contar a bonita história da pessoa a quem partiram o pára-brisas com um piano de cauda, ou da pessoa a quem nasceu um bonsai no ombro direito. É isto ou promover concursos telefónicos que envolvem números, rodas, tômbolas e pessoas a cuspir fogo, e nos quais se pode ganhar muito dinheiro.

E ainda bem, porque se os programas de culinária colonizaram o resto do horário televisivo, é urgente preencher aquele tempinho antes do telejornal da uma da tarde.

Viveremos tempo suficiente para que os canais eróticos sejam livres e os de culinária sejam pagos. Viveremos tempo suficiente para que as pessoas estejam a ver programas de culinária e, surpreendidos por alguém que chega a casa, mudem para a pornografia.

- O que estás a ver, querido?

(Mudança rápida de canal.)

- Eeeeh, um filme.

- De que é?

- É esta senhora de mamas grandes que decidiu saltar para cima daquele canalizador.

- Parece giro. Faz pausa, venho já ver.

- (Merda, agora que ia ver como é que aquele carpaccio ia ficar…) OK, querida.

Viveremos tempo suficiente para que os adolescentes se esgueirem pela porta do quarto, durante a noite, para verem meia horinha de 24 Kitchen. Só o tempo de o Rudolph confeccionar uma tão deliciosa, quanto proibida, tarte de maçã.

Viveremos tempo suficiente para vermos maior facilidade em legalizar uma loja de venda de drogas do que um restaurante que venda arroz de cabidela.

Viveremos tempo suficiente para que a comida saborosa e com bom aspecto seja matéria do canal História.

Viveremos tempo suficiente para que os governantes sejam escolhidos num programa em que o Gordon Ramsay os insulta aos berros, enquanto cozinham risoto e vieiras.

Tendo em conta alguns resultados de eleições recentes, até pode nem ser má ideia. O que é perdermos as liberdades e fomentarmos o ódio entre pessoas, em comparação com um naco de porco preto, em redução de vinho, com puré de maçã?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Desculpas para não comparecer em convívios

Existe uma piada antiga em que uma tia escreve uma carta a um sobrinho e termina-a dizendo que era para lhe ter mandado cinco contos, mas já tinha fechado o envelope. Lembrei-me dela porque quero começar por sugerir ao leitor uma boa desculpa para não ler este texto: pode dizer, nos comentários, que era para tê-lo lido, mas ficou sem internet. Esta forma de começar o texto é estranha, mas prometo que fará sentido.

Não sou especialista em coisa nenhuma, senão numa tão específica como detestável área do saber: arranjar desculpas para não comparecer em convívios. Esta área implica muita arte e sabedoria, uma vez que não nos é permitido recusar um convite com um simples “não me apetece”. Da mesma forma que os médicos dizem “prognóstico reservado” em vez de “isto está f*d*d*”, que os políticos dizem “vamos tomar medidas complementares” em vez de “vamos ver se conseguimos, em cima do joelho, resolver a c*g*d* que para aqui fizemos”, e que os empresários dizem “reestruturar” em vez de “despedir”, nós temos que dizer que “não podemos ir”, em vez de “achas mesmo que eu quero ir???”.

(XoMEoX/Flickr)

São convenções sociais bonitas e que não quero, de forma nenhuma, contestar. Quando temos um amigo chato, ou com hálito duvidoso, não lhe referimos isso directamente. Podemos é ouvi-lo menos vezes, caso seja chato, ou com uma maior distância de segurança, caso cheire mal da boca, mas nunca o ostracizamos. Assim como quando sobra um rissol, é sempre o gordo que deve comê-lo, sem que isso seja referido explicitamente. Eu sei disto porque, muitas vezes, me convidam a desempenhar esse papel, como se fosse apenas por cortesia, sem explicitar que é por causa de uma convenção social que determina que os gordos rapem os restos.

O grande problema é que nós, enquanto sociedade, ainda não aprendemos a lidar com o facto de um amigo nosso não estar com vontade de aceitar um convite para ver um jogo de futebol, para ir a uma jantarada ou para estar presente numa mostra de documentários sobre as colheitas de trigo na Birmânia. Ou com o facto de ele ter outros planos para a sua noite.

Daí terem surgido as desculpas para não comparecer em convívios: aquela arte de dizer “não posso” em vez de “não me apetece”. Só que há um problema sério com as desculpas: da mesma forma que o uso indevido de antibióticos fortalece a s bactérias, o uso indevido de desculpas torna o nosso interlocutor mais atento à falta de criatividade para inventar uma desculpa.

Todos aqueles que, como eu, sofrem de quedas acentuadas de sociabilidade e que não querem, por vezes, mais do que estar sossegadinhos sem terem que ouvir outros seres humanos, necessitam de boas e consistentes desculpas. “Já tenho compromissos”, “Estou cansado” ou “Tenho que fazer uma entrega de uma grande quantia, em numerário, que me foi emprestada por um mafioso de Leste” são desculpas que toda a gente já usou e que, por isso mesmo, perderam a sua eficácia.

É por isso que aqui publico alguns exemplos de desculpas, bem como os diálogos que estas podem gerar. É importante, não só, ser criativo, a inventar a desculpa, como ter capacidade de improviso, quando a nossa justificação for colocada à prova por um amigo mais desconfiado.

Cenário A
- Tenho que tirar um dente do siso.
- Às dez da noite?
- Não, às quatro da tarde, mas como vai doer, já estou a reservar a noite para ficar maldisposto.
- Mas este é o oitavo dente do siso que tiras!
(Isto é um aviso para pessoas que repetem desculpas.)
- Não, ainda é o mesmo, só que dividi a extracção em oito sessões. Dói menos a tirar o dente e a pagar ao dentista.

Cenário B
- Fui mordido pela mosca do sono.
- Na Europa?!
- Sim, tenho um vizinho que faz criação.
- Mas tu não estás com sono.
- Isso é porque as moscas são raçadas de lesma. O efeito demora a aparecer. Logo nem me vou aguentar.

Cenário C
- O meu castor está doente.
- Desde quando é que tens um castor?
- Desde que me fartei de ir ao Ikea. Agora, pego no Motinha, damos uma volta pelo bosque e, em 40 minutos, tenho uma mesa-de-cabeceira.
(Aqui, ao sugerir o nome do castor, estamos a direccionar a atenção do nosso interlocutor para outro assunto, o que é essencial para o sucesso de uma desculpa.)
- O teu castor chama-se Motinha?
- Sim, é diminutivo de “motosserra”. Se o visses a cortar um pinheiro percebias o nome.

Cenário D
- Tenho que levar o carro ao mecânico.
- Num Sábado à noite?
- Não, na Segunda de manhã, mas tenho que levar o carro para lá com antecedência, senão perco a vez. Uma vez, esperei tanto na fila que, quando chegou a minha vez, o melhor já era desfazer-me do carro.

Cenário E
- Tenho que tratar do IRS.
- Estamos em Outubro.
- Eu trato todos os meses. Achas que ia chegar a Abril e andar com papelada velha? Eu sou alérgico ao ácaro do papel velho, não posso conservar grandes quantidades.
- Nunca me disseste que eras alérgico ao ácaro do papel.
- Isso é porque eu trato do IRS o ano todo, nem chego a ter crises alérgicas.

Cenário F
- Tenho um casamento.
- Numa Terça-feira?
- Não, num Sábado do próximo mês. Mas vou comprar os sapatos agora, para me habituar a eles. Senão, nas fotografias do casamento, fico com cara de quem tem bolhas nos pés.

Cenário G
- Tenho jogo de xadrez.
- Tu não jogas xadrez.
- Tenho um jogo para ver. É uma final importante.
- Não podes acompanhar pelo telemóvel?
- Isso dá no futebol, que é um jogo sem movimento e sem emoção nenhuma. No xadrez, temos que acompanhar cada movimento.

Cenário H
- Tenho um encontro com a Scarlett Johansson.
- Desculpa lá, mas nessa desculpa não caio.
- OK, OK, é mentira. Eu não tenho um encontro com a Scarlett Johansson. Vou só ter com ela para lhe entregar umas roupas que ela deixou na minha casa.

Estes são apenas alguns exemplos, mas um bom mentiroso está em constante aprendizagem. O mais importante, na área das desculpas para não comparecer em convívios, é conservar um registo de desculpas usadas, de forma a evitar repetições num curto intervalo ou para que, mais tarde, se possam reciclar desculpas velhas. É o trabalho de uma vida.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Amemos os nossos "trolls"

Quando andares pelo Facebook e encontrares um rasto de baba, numa determinada página, não te assustes: não adormeceste e começaste a babar. Provavelmente, foi só um “troll” que passou por ali e desatou a libertar dejectos verbais na caixa de comentários. Desde que não leias mais do que dois comentários, não corres o risco de contaminação. Entre três e dez comentários, podes ficar diminuído intelectualmente durante algumas horas. Se leres mais do que dez comentários, começas a concordar com o “troll” e isso é como o mundo dos zombies: não há caminho de volta.

Outra forma de detectares um potencial “troll” é encontrares “você” escrito na forma “voçê”, ou uma confusão entre “há” e “à”. O “troll” é, hoje, um dos maiores flagelos da Internet mas, felizmente, deixa vestígios por todo o lado, sob forma de erros ortográficos, pelo que, podes facilmente evitar pisar o cocó que eles deixam por onde passam.

(aimee rivers/Flickr)

O “troll” é um ser que sabe tudo sobre todas as coisas. Como o Miguel Sousa Tavares, mas mais agressivo. Sendo assim tão sábio, o “troll” comenta tudo o que é notícia colocada online. Apesar de saber tudo, sobre todas as coisas, os seus comentários revelam frequentemente ignorância e preconceito. A comunidade científica vai tentar descobrir como pode um ser sábio comportar-se tendencialmente como um ignorante mas, para já, está a dedicar-se a produzir novos tipos de farelo sem glúten. Um dia, talvez saberemos como pode o “troll” saber tudo menos detectar a própria estupidez.

O “troll” vive mal com a diferença (seja ela de natureza política, religiosa, sexual ou étnica), sobretudo, porque tem pouca memória RAM. Uma vez que o seu cérebro tem, em média, menos 35% de massa encefálica do que o do ser humano normal, quando confrontado com a diferença, o “troll” sofre um ciclo infinito de informação e entra em colapso. Os neurónios deixam de comunicar entre si e o sistema só pode ser reiniciado com a colocação de um comentário preconceituoso na Internet. Depois disso, o cérebro volta ao normal.

Já que refiro esta caracterísitca, vou ser mais rigoroso com a linguagem científica: o ser humano normal tem cérebro e cerebelo; o “troll” tem cerebelo e cerebelito. É tudo uma questão de tamanho.

Uma vez que têm dificuldade em orientar-se sozinhos neste mundo tão complicado em que vivemos, os “trolls” agrupam-se em bandos, como os pombos. Basta um levantar voo para um lado qualquer que os outros seguem-no. Nem que, chegado ao destino, o pombo diga: “Calma, só vim ver as horas, não precisavam de vir atrás de mim”. Em conjunto, os “trolls” que hoje assolam a Internet são como uma infestação de baratas. Com uma diferença: a barata, quando vai à lixeira, sabe encontrar o caminho de volta.

Apesar da dimensão do problema, não embarco na tese de que a Internet é que fabricou o “troll”. Este espécime sempre existiu. Só que agora tem voz pública. Tem um palco. É como aquele tio bêbado que, nos casamentos, rouba o microfone e desata a dissertar sobre os voluptuosos seios de uma convidada, sobre a frequência com que o seu intestino liberta os detritos do processo digestivo ou sobre as belíssimas strippers que abrilhantaram a festa de despedida de solteiro.

Se a Natureza não eliminou o “troll”, é porque ele faz falta ao ecossistema. Se ainda não eliminou a ténia, ou “bicha solitária”, que é um bicho que se instala no intestino para ingerir cocó, por que razão haveria de eliminar o “troll”?

O ser humano deve aprender a conviver com este espécime. Não entrando em discussões com ele, porque vai ser arrastado para a lama e perder o combate, mas tentando complexificar, de tal maneira, a discussão, que os “trolls” só poderão ficar sossegadinhos a falar entre si. Quando falo complexificar a discussão, não pretendo torná-la imperceptível ao cidadão comum. Noto que basta construir devidamente um argumento, ao mesmo tempo que se respeita a concordância entre sujeito e verbo, para que o “troll” já considere o nosso texto “Literatura” e o rejeite liminarmente.

Amemos os nossos “trolls”. Eles são apenas animais revoltados, que precisam de atenção.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Balelas nos sites de emprego

O que mais me fascina na frase “Vergonha é roubar e ser apanhado” é o facto de o ponto final não estar colocado logo a seguir a “roubar”. Segundo este dizer, senhoras e senhores, roubar não é mau. Mau é ser néscio, laparoto, neca, babana ao ponto de se ser apanhado. Uma pessoa que rouba é uma pessoa que faz pela vida. Mas uma pessoa que é apanhada a roubar é alguém com quem não gostaríamos de casar um/a filho/a.

Bom, a avaliar pelo histórico português de eleições autárquicas, mesmo ser apanhado não quer dizer que se perca popularidade e que se seja um mau partido. E se o nosso/a filho/a estiver encalhado/a há muito tempo, até podemos esquecer o facto de a pessoa com quem o/a vamos casar ter sido apanhada a roubar. No caso de o pretendente se tratar de um banqueiro, a comunhão de bens pode ser uma óptima solução.

Vem esta introdução algo desinteressante e um pouco fatalista a propósito de uma tendência que acho preocupante nos sites de emprego: muitas empresas não dizem o que querem. Há uma espécie de complexo que leva a que não se diga qual a função para a qual há uma vaga. É como se se tivesse vergonha de dizer qual a função. É como quando alguém quer acabar uma relação e não sabe como: anda-se ali à volta com coisinhas e não se diz logo tudo de uma vez. Exemplifico.

(Véronique Debord-Lazaro/Flickr)

Precisa-se vendedor porta-a-porta
Trabalho tão respeitável como qualquer outro, e infinitamente mais respeitável do que roubar (ser apanhado é opcional), para este tipo de trabalho, as empresas anunciam vaga para algo como “comunicadores” ou “dinamizadores comerciais, junto do cliente final, de marcas, bens e serviços”. Pergunto eu: se pedissem vendedores porta-a-porta, não teriam uma melhor triagem dos candidatos? Candidatava-se quem queria, quem não queria não ia ao engano. Até porque os “dinamizadores comerciais, junto do cliente final, de marcas, bens e serviços” podem não estar interessados no porta-a-porta.

Precisa-se de funcionário da limpeza
Para as empresas que, imagine-se, vendem serviços de limpeza, trabalhar na limpeza não é digno. É tipo vender droga: dá dinheiro, mas é feio. Nada mais errado: a limpeza é essencial, na vida, no trabalho, nas zonas púbicas ou num bordel. Sendo assim, podem pedir “funcionários de limpeza” nos anúncios, e não “operadores de logística higiénica”. Facilitavam a vida a toda a gente.

Precisa-se de canalizador
A canalização é como o intestino: só lhe damos valor quando a matéria empanca. Sendo assim, as empresas que vendem serviços de canalização podem solicitar, nos sites de emprego, canalizadores, em vez de “pipelining problem solvers”. É a mesma coisa, mas facilita a vida a um canalizador que procure trabalho. Por vezes, a um canalizador desempregado, é mais difícil encontrar trabalho do que um objecto que esteja a obstruir um cano. Tudo por culpa do pipelining das empresas.

Precisa-se de construtor civil
O que seria de nós se não houvesse gente de fibra que, à chuva e ao sol, com calor e com frio, nos construísse as casas e as infraestruturas necessárias à nossa vida? Pois bem, colocar um anúncio para “construtor civil” seria uma boa ideia para as empresas de construção civil. Mas há sempre alguém com uma ideia melhor: porque não pedir um “operário concretizador de concepções arquitectónicas”?

Outra tendência tem a ver com o facto de haver muitos jornalistas desempregados. Por este motivo, toda a gente desatou a pedir o seu jornalista, nos sites de emprego, para desempenhar as mais diversas funções, todas elas respeitáveis, mas que nada têm a ver com jornalismo. Deixo alguns exemplos.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para fazer telemarketing, mas as suas “skills” ao nível da escrita podem ajudar a escrever alguns e-mails.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para trabalhar como “operário concretizador de concepções arquitectónicas”, mas pelo meio, sempre pode dizer notícias aos colegas, como se estivesse na rádio. E fazer relatos de futebol.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para motorista de pesados. Mas as suas capacidades de comunicação podem ajudar na relação com os clientes.

- Precisa-se de jornalista.
- Para fazer jornalismo?
- Na realidade, é para trabalhar no “Correio da Manhã”.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Quando não havia emojis, mas havia música na MTV

Como dizia Lavoisier, “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Dizia Lavoisier, mas também o senhor Alfredo, da tasca “O Pepino”, em Guilhofrei, que recolhia cirurgicamente os restos de vinho das mesas para um recipiente grande, onde esses restinhos de vinho misturados davam origem a novas e, por vezes, deliciosas “castas”, capazes, não só, de embebedar com eficiência, mas também de destruir um fígado em seis semanas.

Vem isto a propósito de eu não ter grandes ideias sobre como iniciar este texto, mas também desta nova moda de, do velho, se fazerem velhos em quantidade suficiente para vender. Não, não estou a falar sobre cirurgia plástica, esse domínio da Medicina que tanto faz pessoas velhas com aspecto jovial como, em casos de menor acerto, excelentes bonecos de cera para museus. Eu sei, estou a ser injusto, com esta comparação: há bonecos de cera com uma vida demasiado activa para serem comparados com pessoas velhas.

Do que eu quero mesmo falar, quando parar de engonhar, é desta tendência recente da tecnologia para recuperar aparelhos do passado. No Natal, foi a Nintendo NES que fez as delícias dos nostálgicos. Vivemos um tempo que as consolas são tão evoluídas que, se jogarmos FIFA e tivermos o Cristiano Ronaldo na nossa equipa, durante aquele tempo, deixamos de saber dizer “oleosidade” e fotografamo-nos abundantemente em cuecas. Mesmo assim, muita gente comprou a Nintendo NES, cujos jogos são uma mistura de quadradinhos coloridos e música foleira. Ou seja: parecem aquelas discotecas que abrem ao Domingo à tarde. Ou um casaco do Goucha.

O mesmo está a acontecer com os telemóveis: a Nokia anunciou que vai relançar o 3310 e a Internet explodiu. Num tempo em que os telemóveis têm ecrãs maiores do que um espelho de casa-de-banho e mais RAM do que a que existia nos computadores todos de Portugal, em 1990, preparamo-nos para o sucesso de uma carcacinha com botões.

(raindog808/Flickr)

Apesar de tudo, há uma diferença fundamental entre estes dois exemplos: enquanto que muitos vão conseguir reeditar os êxitos que tiveram na Nintendo NES, na sua juventude, poucos irão repetir os êxitos que tiveram aos comandos de um Nokia 3310, nomeadamente no envio SMS de cariz romântico. No máximo, irão recuperar o recorde do jogo da cobra.

[Durante esta pausa, fica no ar a ideia de que eu poderia fazer um trocadilho de cariz sexual, com a expressão “jogo da cobra”, mas importa reforçar que eu não sou tão ordinário como vocês pensam.]

Pegando nesta moda de recuperar coisas do passado, passo a propor algumas que gostaria que voltassem.

Quem gostava de comer comida tradicional podia fazê-lo abertamente
Hoje, se quiseres comer arroz de cabidela ou papas de sarrabulho, tens que o fazer às escondidas. Caso contrário, podes ser apanhado e punido por grupos extremistas incrivelmente perigosos, como os “Caçadores do Glúten”, a “Brigada do Tofu”, o “Esquadrão Curgete”, a “Força de Intervenção Alface” ou os “Cortadores de Tomates”. (Como é óbvio, esta sequência de nomes ia acabar com um que desse para um trocadilho de cariz obsceno, mas eu não sou assim tão ordinário.) Caso sejas um destes grupos, vais desejar ter nascido frango do campo e ter acabado numa panela de arroz de cabidela.

Os seres humanos conseguirem pensar em mais do que 140 caracteres
Isto do Twitter é muito bonito, mas é bom para pessoas com pouca memória RAM. Eu sei, hoje em dia, ter pouca memória RAM não impede ninguém de ser, por exemplo, Presidente dos Estados Unidos, mas houve um tempo em que um ser humano sabia, em média, mais do que 36 palavras.

Não era preciso usar emojis
Em tempos, os seres humanos tinham palavras que designavam coisas. Por estranho que pareça, os seres humanos recorriam a essas palavras, e não a bonecos, para se fazerem entender. Para encontrarmos emojis na nossa linguagem, temos que recuar ao tempo das pinturas rupestres. Mas, nesse tempo, os seres humanos andavam semi-nus, pelo que se perdia na comunicação, mas se ganhava na interacção.

A MTV passava música
Eu sou do tempo em que a MTV era arrojada ao ponto de, não só, passar música, como também de transmitir programas sobre música. Não se entendia, de facto. Felizmente, alguma mente mais atenta mudou essa estratégia e hoje a MTV só transmite “reality shows”. Ainda assim, enquanto que a TVI tem a Teresa Guilherme, a MTV tem miúdas giras em bikini em locais paradisíacos. Por outras palavras, a MTV ainda não desceu ao nível TVI.

Quando um amigo viajava, mostrava-nos fotografias só quando voltava        
Hoje, começamos logo a ver uma fotografia da asa do avião, no nosso Facebook, ainda o veículo se encontra no chão. Para além disso, os seres humanos, nas viagens, contavam experiências. Hoje, contam likes em selfies. Agora que penso nisso: os seres humanos, hoje, passam mais tempo de costas para os locais que visitam, por causa das selfies. Mas isso não muda grande coisa: dantes, as pessoas diziam “Que fixe, fui ao Louvre!”, enquanto que hoje fazem tudo nas redes sociais para que lhes digam “Que fixe, foste ao Louvre!”.

Nas discotecas, os slows eram do Prince
…e outros artistas do mesmo nível. Hoje, os slows são kizombas. Nada contra, para quem pratica os slows, até fica uma parte dos preliminares já feita. Mas para quem, como eu, não dança slows, perde-se na qualidade musical. Mas quem vai a uma discoteca por causa da qualidade musical não merece nada. É como ir a uma sucata procurar arte contemporânea. Mau exemplo: muita da arte contemporânea é feita de sucata. Enfim, vocês entenderam-me.

Podem acrescentar outras sugestões, nos comentários a esta pequena dissertação. Eu prometo que leio, quando acabar este programa que estou a ver na MTV.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Por políticos que joguem à "sueca"

Entregaram, ao Presidente da República, uma lista com 15 propostas sobre como melhorar a relação entre políticos e cidadãos. Adoro a ideia. Isto é uma espécie de arranjinho, como aqueles que os casais fazem para juntar dois amigos. Esses arranjinhos servem dois propósitos fundamentais. Um deles é aumentar o leque de opções que os casais têm para sair ou jantar aos fins-de-semana. Todos os casais têm alturas em que já não têm paciência para estar a sós, pelo que, poderão minorar o sofrimento partilhando-o com outro casal. Outro dos propósitos fundamentais é o “babysitting”. Elas querem ir às compras mas não têm com quem os deixar: deixam-nos a tomar conta um do outro. Eles querem ir à bola mas não têm com quem as deixar: deixam-nas a tomar conta uma da outra.

E o que estas 15 propostas tentam é conseguir um bom arranjinho entre políticos e cidadãos. Até porque o político tem dificuldades em arranjar relações duradouras: ora se dá bem com um construtor civil, ora se dá bem com outro construtor civil. E isto das aventuras é giro, mas toda a gente gosta de assentar.

Já sei, há meia dúzia de lunáticos que defendem que a melhor maneira de os políticos se darem melhor com os cidadãos é através da política, propriamente dita. Mas isso é malta ingénua, que acredita que, se partilhar uma publicação no Facebook a dizer que ninguém pode copiar as suas fotografias, ninguém pode mesmo copiar as suas fotografias. Ou que se publicar uma fotografia num grupo secreto, ela é mesmo secreta. Políticos e cidadãos só vão lá com um bom arranjinho.

Um “Reality Show”
Ora, a minha ideia é contribuir para este arranjinho. Dado que toda a gente vê “reality shows” e há mais pessoas a comunicar com extra-terrestres do que a ver a “Assembleia da República TV”, proponho a criação de um programa de televisão com os políticos menos conhecidos da Assembleia da República. Nós temos 230 deputados e convidamos para este programa só os menos conhecidos, só aqueles quase anónimos. Ou seja, uns 210. E não esticamos muito o conceito, fazemos só 20 temporadas.

(fdecomite/Flickr)

Neste programa, os políticos vão discutir grandes temas da actualidade, como o Orçamento de Estado, o Serviço Nacional de Saúde, a Taxa Social Única, o uso das proteínas para o aumento da massa muscular ou a colocação de silicone em partes do corpo. Vão realizar tarefas diversas, tais como elaborar um plano para a Educação, para os próximos 20 anos, discutir o orçamento para o Ministério da Cultura, organizar uma festa temática sobre anos 80 ou fazer concursos de karaoke só com canções do David Carreira e do A. G. I. R. Finalmente, vão fazer coisas que realmente tenham importância para os restantes cidadãos, tais como falar mal dos outros, embebedar-se e ter relações sexuais.

Isto tudo, sem nunca esquecer o mais importante, aquilo que a maioria dos nossos deputados faz quando está na Assembleia: impedir que o se acumule pó no mobiliário e levantar-se da cadeira quando os mandam (neste caso, será a Voz a fazê-lo).

No fim, quem ganhar será premiado com um prémio simbólico: justificação para três meses de faltas às sessões na Assembleia.

Com este plano, os cidadãos poderão acompanhar de forma apaixonada a intriga de um “reality show”, ao mesmo tempo que formam opinião e se envolvem nas grandes questões dos nossos dias, tais como “Quem vai acabar na cama com quem?” ou “Qual o candidato que deve sair esta semana?”.

Assessores nomeados pelas Juntas de Freguesia
Outra das críticas feitas aos nossos políticos tem a ver com o facto de eles nomearem demasiados assessores oriundos dos seus partidos. Ou das suas famílias.

Quanto a isto, é simples: para cada lugar de assessoria que esteja livre, sorteamos uma freguesia que irá nomear o respectivo assessor. A freguesia vai a votos e será eleita uma pessoa cuja popularidade já foi testada entre a população local.

Em pouco tempo, teremos, certamente, um corpo de assessores que saberá jogar à “sueca”, que frequentará tascas e que terá participação assídua nos melhores torneios de futebol de salão. Que saberá mudar uma correia de distribuição num automóvel ou consertar um rádio transístor. Não demorará muito até que, enquanto um ministro discursa sobre o ordenamento do território, na inauguração de um centro de saúde, os jornalistas que acompanham o evento estejam apenas interessados em documentar a participação do assessor do ministro num grandioso torneio de “sueca”. Não faltarão directos sobre a ingestão de chouriço assado e de broa caseira, sobre a possibilidade de um dos jogadores ter feito uma renúncia ou uma passagem de ás, sobre o arremesso de uma caneca de vinho, por parte de um jogador a um adversário, nem faltarão, no final, as “entrevistas rápidas”, como fazem os treinadores, no final dos jogos.

Só temos a ganhar em tornar a política mais apaixonante, no fundo, mais parecida com o futebol e os “reality shows”. Até para que se fale menos de futebol e de “reality shows”.

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