quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Não queremos direitos a mais

O mundo, caro leitor, caminha para um futuro assustador, no qual estaremos entregues à nossa sorte, abandonados perante os caprichos do destino. Imaginem o que um tribunal do Reino Unido teve o desplante de fazer: condenou a Uber a pagar salário mínimo e férias aos seus motoristas.

(Nicki Mannix/Flickr)

Que horror. Como é que, em pleno século XXI, um tribunal comete a barbárie de atacar, com tamanha violência, uma empresa que trabalha de forma séria para garantir a sua sobrevivência. Mas esta canalhice não se fica por aqui: o tribunal, não contente com o grau de violência do seu ataque, foi mais longe, e determinou que o tempo de trabalho fosse contado atendendo ao tempo em que o motorista está disponível na aplicação, e não através da soma das durações das viagens. Sim, senhor, que bonito exemplo, senhor tribunal.

Quer dizer, uma empresazinha avaliada em mais de 40 mil milhões de euros esforça-se para ganhar a vida e vem um tribunal inventar regras tão século XX. Uma empresa “trendy”, com uma aplicação móvel toda “fancy” e carros todos “cosy”, voltada para o futuro, ainda tem de lidar com regras tão do passado.

Como é óbvio, a Uber quer recorrer. Estou a torcer para que consiga ser bem sucedida. E para mostrar como estou a torcer, vou tentar ajudar a Uber, propondo algumas ideias por cuja implementação a empresa deve lutar. Por um futuro melhor!

Horário
Para não dizerem que estamos a ser tendenciosos, o tempo de trabalho deve ser contado tendo em conta um qualquer factor externo. Por exemplo, o tempo de rotação de um planeta. Assim à sorte, Neptuno, que demora 16 horas a girar sobre si mesmo. A sério, foi mesmo à sorte. O horário deve ser tão flexível quanto possível. Ser flexível é ser capaz de dobrar. Logo, o horário deverá, por princípio, ter horas a dobrar. Mas ser flexível é, também, ser capaz de dobrar sem partir. Logo, o trabalhador deve dobrar as horas sem partir para férias. E deve estar contactável 24 horas por dia. Tipo James Bond, mas sem as mulheres bonitas e as armas sofisticadas.

Remuneração
O trabalhador tem direito a uma remuneração digna e deve receber tudo até ao último cêntimo. No entanto, e como as empresas modernas se preocupam com os seus trabalhadores, o trabalhador irá receber numa conta bancária que só a empresa controla e que será gerida por um grupo de gestores espectaculares. Desta forma, os trabalhadores não gastarão o dinheiro em coisas inúteis, como em jantaradas, copos ou água canalizada.

Aumentos salariais
Os aumentos serão alinhados, não só, com a inflação, mas também com a Bolsa de Tóquio, o casino Bellagio, em Las Vegas, o valor de mercado do ouro, dos diamantes e do passe do Cristiano Ronaldo. Mesmo que todos estes indicadores apontem para um aumento, este só acontecerá se a empresa tiver crescido, no ano anterior, 15000%, de forma a evitar problemas de tesouraria que coloquem o futuro da empresa em risco. Nenhum trabalhador quer que a empresa feche…

Negociações
Os trabalhadores poderão, em qualquer momento, negociar com a administração da empresa que os emprega. Porém, para garantir que transmitirão a mensagem da melhor maneira, a empresa contratará um assessor de comunicação. Este irá convencer os trabalhadores de que terão mais benefícios, por exemplo, ao emitirem um comunicado a dizer que estimam as qualidades pessoais e profissionais dos administradores, do que a fazerem coisas sem qualquer sentido, como pedir melhores condições de trabalho.

Greve
Os trabalhadores têm direito à greve. Já as manifestações, como dão cabo do trânsito (e a Uber preocupa-se, particularmente, com a questão do trânsito), deverão ser realizadas no “Manifestódromo”, um recinto que será construído pelas empresas, nas Ilhas Phi Phi (Tailândia), para garantir todas as condições necessárias a uma manifestação como deve ser.

Baixa
Quando um trabalhador estiver doente, receberá o salário na íntegra. Mas, como a doença poderá diminui-lo das suas faculdades mentais, o dinheiro será gerido por um “gestor de desgraças”, que comprará medicamentos, mantinhas, bolachas e chá, entre outros bens, e que fará companhia ao doente, enquanto este vê o futebol ou a novela da noite. O dinheiro que sobrar, no fim da baixa, ficará guardado pela empresa, durante 30 anos, porque o trabalhador poderá ter uma recaída.

Despedimento
Sempre que uma empresa quiser despedir trabalhadores, os trabalhadores poderão lutar pelo seu posto de trabalho. Nomeadamente, num concurso televisivo, tipo “Jogos sem Fronteiras”. Ganham todos: o trabalhador pode safar-se do despedimento; a empresa consegue uma boa fonte de rendimento, ao vender os direitos televisivos.

Eu sei, eu sei, estas ideias são utópicas. Mas eu não desisto de lutar por um mundo melhor, por um mundo em que uma empresa modesta, com o a Uber, pode trabalhar sem ser incomodada. Não desistamos, camaradas, até porque o nosso camarada Donald Trump pode vencer as eleições.

2 comentários:

  1. O propósito inicial da Uber foi para pessoas com veículo próprio que pudessem conciliar o seu emprego verdadeiro com o transporte de clientes nos tempos vagos. Em Portugal faz se muito isto em full time e várias empresas alugam carros e dividem lucros com condutores, recebendo assim bem ou mal, conforme qualquer trabalho à comissão e a recibos verdes. O texto está bem elaborado, mas devia ser feito um para o sector da vigilância privada (se é que já não foi feito). Saía uma coisa bem mais épica.

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  2. A Uberização da economia é exactamente isto. Um dia (mais cedo do que se pensa) chegará a todas as profissões.
    O Frozen referiu um ponto importante do ramo da vigilância privada em que se faz isso há anos, mas não invalida a verdade deste artigo de opinião.

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