Um Uber nunca será um táxi

Esta polémica entre táxi e Uber não me diz muito. Nem me dou ao trabalho de escolher um lado. Desde que se proteja a integridade física, o dinheiro e a possibilidade de o utente dar uma volta muito maior do que a necessária, caso queira conhecer a cidade, por mim, tudo bem. Nem vou escolher, porque se escolher Uber ainda levo na tromba. E isso não fica muito em caminho.

(Repara como faço um bom uso dos sentidos literal e figurado da palavra “caminho”.)

Para além disso, tinha que instalar o Uber e o meu telemóvel não tem espaço para mais aplicações. Entre os resultados da bola e meia dúzia de jogos divertidos, não sobra grande coisa.

(Paul K/Flickr)

O que quero frisar, com este texto, é que ainda não vi ninguém referir um ponto importantíssimo, nesta questão: a componente de experiência de andar de táxi não é fácil de medir. Por experiência, refiro-me às coisas que podem acontecer num táxi e que dificilmente poderão acontecer num Uber. Coisas essas que tornam a experiência do táxi infinitamente mais divertida.

Requisição do serviço
O Uber é chamado através de uma “app”, onde está toda a informação necessária ao motorista. O táxi é chamado através de um telefonema e quem está do lado de lá nem sempre compreende bem o Português. Ou qualquer língua ou linguagem humana. Às vezes, quem atende o telefone urra uma série de coisas, até perceber onde fica a rua aonde queremos que o táxi vá ter. Enquanto fazemos figura de urso, a berrar o nome do local, no meio da rua, também fazemos um esforço por comunicar com outro ser humano. E isso é sempre bonito. Cria laços.

Motorista
O motorista do Uber é uma pessoa com uma certa urbanidade e boa compreensão da tecnologia. É uma espécie de andróide com óculos de velhinha, conta de Instagram e “reviews” de passageiros chóninhas.  O motorista de táxi pode ser muita coisa. Pode ser um tipo que cospe enquanto conduz (janela aberta opcional), ou um tipo que nos pergunta se vamos ter bom tempo (sabermos se vem ou não é opcional). Pode ser um tipo que nos fala daquela vez que lhe apontaram uma faca e ele teve que resolver tudo à chapada. É o Clint Eastwood ao volante de um Gran Torino. O motorista do Uber, em compensação, fala-nos daquela vez em que o primo Gonçalo ficou sem a câmara Polaroid, numa rua manhosa.

Música
O motorista de táxi ouve rádios locais. Ouve discos pedidos. Uma cassetezinha de Julio Iglesias. Em dia de futebol, ouve relato e enxovalha o árbitro. Tudo coisas com identidade. O motorista do Uber tem uma playlist de Spotify com o nome “Relax”, com uma selecção dos dez melhores violinistas da Islândia. Se pedirmos uma música mais animada, ele ainda começa a chorar.

Destinos
Se quiseres ir beber um copo ao bar onde tudo acontece, o taxista liga para o dono para te reservar mesa. Se for uma discoteca com critério rigoroso de porta, ele faz um telefonema e vais para a zona VIP. O motorista do Uber leva-te a uma sessão de cinema independente da Mongólia, em casa do primo Gonçalo. Sem pipocas. Se quiseres petiscar à uma da manhã, o taxista sabe onde te levar a comer, por exemplo, iscas de bacalhau. Se pedires o mesmo ao motorista do Uber, ele saca-te de um “tupperware” com panados de tofu.

Já sei, já sei: vão dizer-me que o Uber é mais barato. Mas, por todas as razões que enunciei, o preço do táxi acaba por ser justo. Digo isto porque gosto de iscas de bacalhau. E porque não quero levar na tromba.

Comentários

  1. Se usasse chapéu tirava-o agora para te fazer uma vénia, não pelas palavras sobre esses andróides nem do cospe saliva, mas sim por seres português, e por entenderes o significado de o ser... Acima de tudo por gostares de iscas de bacalhau.
    Ass: cospe saliva

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  2. Espetacular. Também sou Português, nunca serei igual a ninguém e adoro igualmente Iscas. Obrigado

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  3. Espetacular. Também sou Português, nunca serei igual a ninguém e adoro igualmente Iscas. Obrigado

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  4. Espetacular,sou português e motorista de táxi também,á pessoa que escreveu este texto e enumerou algumas das mil e uma razoes para se andar de taxi e não numa caixinha bem brilhante,numa escala de 0 a 20,eu dou 21.motorista de taxi pode ter muitos defeitos, mas, o cliente pede ou pergunta,o taxista desenrasca sempre. Um abraço a todos/as os portugueses/as que gostam de iscas e de preservar o meio de transporte mais a mão e sem muita tecnologia da treta. ��������

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  5. Espetacular,sou português e motorista de táxi também,á pessoa que escreveu este texto e enumerou algumas das mil e uma razoes para se andar de taxi e não numa caixinha bem brilhante,numa escala de 0 a 20,eu dou 21.motorista de taxi pode ter muitos defeitos, mas, o cliente pede ou pergunta,o taxista desenrasca sempre. Um abraço a todos/as os portugueses/as que gostam de iscas e de preservar o meio de transporte mais a mão e sem muita tecnologia da treta. ��������

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  6. De tudo que li, se quiser interpretar palavras vs eficiência, aposto na sátira em que, quem escreveu o texto disse quase tudo para não andar de táxi, digo eu...gosto de comparação de quem não usa a Uber pela aplicação não Uber no telemóvel, mas sabe como funciona...ok! Terceira pessoa? Já agora e como referi antes só um taxista agride quem pertence à Uber, logo posso deduzir quando disse que não queria levar na tromba, não anda apenas por medo dos taxistas? Por quem torce afinal? As iscas caiem sempre bem e se a aplicação me levar lá, não tenho de comer tofu...

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  7. Caro João Dias,
    Sou taxista, e, independentemente de você gostar dos "meus" ou não, quero dar-lhe os parabéns pelo fantástico parágrafo "Destinos".
    Simplesmente... delicioso! :-D

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  8. O velho do Restelo sempre vai resistir... é o nosso fado. Os taxistas não são claramente o Clint Eastwood eles são o Eli Wallach... tem de ver mais filmes de cowboys ou andar mais de táxi...

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