O Facebook é um creme de notícias

O Facebook, para mim, é uma espécie de creme de notícias. Passo a explicar: estão a ver aquela sopa passada, cheia de nível, que servem nos casamentos, antes do prato de peixe, do prato de carne e daquele primo da noiva deixar cair um bocado de vinho na camisa? Sim, o creme de legumes. O Facebook é um creme de notícias. Mas sem o nível do creme de legumes.

(Silke Remmery/Flickr)

Percorrendo o nosso feed, podemos ficar a conhecer “notícias” com bem díspares graus de interesse e de credibilidade. Podemos ficar a saber mais sobre o Orçamento do Estado, sobre a situação entre os Estados Unidos e a Rússia, ou sobre o facto de um especialista em gastronomia achar que o prémio Nobel da Literatura poderá vir a ser atribuído a um funcionário de um restaurante, pelo facto de ele declamar, como se fosse poesia, quais os pratos do dia e em que consiste o “Bacalhau à Gomes de Sá”, o “Polvo à Lagareiro” ou a “Lampreia à Bordalesa”.

Antigamente, as pessoas que queriam saber as notícias eram umas malucas e iam aos sites de notícias. Agora, vão ao Facebook. Só que ir ao Facebook para saber notícias é o mesmo que ir ao talho para comprar uma escultura: no fim, não trouxemos escultura nenhuma, mas sempre se arranjaram, por excelente preço, duas costeletas e um bife da rabada.

Vamos fazer de conta que o espaço que se segue é um feed do Facebook e vamos simular uma possível sucessão de “notícias”.

“PS, Bloco e PCP chegam a acordo sobre Orçamento para 2017”

“Comer nozes ao pequeno-almoço reduz a irritabilidade”
O estudo da Universidade de Ésmesmoparvo, na Roménia, conclui que comer nozes ao pequeno-almoço também reduz a vontade de comer nozes durante a manhã.

“Empresário avança com 10% acções do Novo Banco para pagar a compra de um restaurante”
Esta nota-se logo que é falsa, porque com 10% das acções do banco, o deputado apenas conseguiria pagar as azeitonas.

“Ler ao lado de um gato aumenta os níveis de concentração”
Um estudo da Universidade de Nãotensmaisnadaparafazer, na Noruega, conclui que, caso seja alérgico ao pêlo de gato, o leitor também aumenta os níveis de concentração de muco nasal.

“Cresce a tensão entre Estados Unidos e Rússia”

“Homem descobre 82 rubis num armário no sótão”
Afinal, eram baratas.

“Escócia pondera referendar a saída do Reino Unido”

“A Apple vai oferecer 150 iPhones aos primeiros a partilharem esta publicação”
Esta é das minhas preferidas. Uma das mais valiosas empresas do Mundo precisa mesmo que as pessoas partilhem uma publicação no Facebook, para obter algum ganho de marca… A minha dúvida, quando as pessoas partilham este tipo de campanha fraudulenta, é se elas me dariam o seu dinheiro todo, se eu lhes batesse à porta a dizer que vinha aí uma invasão de espanhóis e que eu tinha um sítio seguro onde guardar o dinheiro.

“Hillary Clinton à frente nas sondagens”

“Ar de Pequim está tão poluído que um homem dissolveu-se em plena rua. Clica para que se abram seis janelas de spam, se instalem quatro spywares no teu computador e possas, enfim, ver o vídeo”
O povo depois vê um vídeo em que não acontece nada e está tão disposto a acreditar que diz “Não se vê o homem, é porque já se dissolveu”.

“Primeira-Ministra britânica anuncia plano para o Brexit”

“Abraçar pessoas gordas reduz os níveis de CO2 na atmosfera”
Um estudo da Universidade de Sóumpalermacainisto, em Itália, diz que, se todos os chineses abraçassem um gordo, todos os dias, não precisávamos de limitar a emissão de CO2. O professor que conduziu este estudo pesa 136 Kg.

“Depeche Mode em Portugal, em 2017”

“Depois de queimado com ácido sulfúrico, homem melhora com chá de cidreira”
Melhora da ardência no estômago, provocada pelos fritos que comeu, porque o braço queimado foi quase para o galheiro.

“Tesla lança o novo carro eléctrico”

“Comer cebolas de manhã reduz o máu hálito matinal”
Substituindo-o pelo máu hálito de fim de almoço.

“Jogar à malha é melhor do que ir ao ginásio”
Um estudo da Universidade de Tuquereséborga, na Alemanha, concluiu que a malha permite queimar mais calorias do que uma hora de ginásio. Se os ginásios sabem disto, acrescentam, às aulas de cycling, bodycombat, pipelining, soft printing, stupid jumping e cream cracking, as aulas de malha. Peço desculpa: aulas de “malhing”, assim é que está certo.

Partilhar, de forma acrítica, qualquer tralha que apareça no Facebook até me parece inofensivo. Sobretudo, se comparado com acender um isqueiro para encontrar uma fuga de gás.

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