terça-feira, 11 de outubro de 2016

Mundify: playlists com pessoas a debater cenas

Hoje em dia, temos acesso fácil a tudo: há milhares de vídeos de gatinhos fofos no Youtube, uma infinidade de discografias no Spotify, carradas de documentos de pessoas que fogem ao fisco, nos “Panama Papers”. E uma nova perspectiva do rabo da Kim Kardashian, todos os dias.

Uma vez que o rabo da Kim é como um dicionário, definindo-se a si mesmo, gostaria de elaborar um pouco mais sobre o Spotify. Esta bonita plataforma tem, logo à partida, a vantagem de não colocar os taxistas a varrer tudo ao pontapé. Logo aí, ganha pontos ao Uber.

Depois, permite explorar discografias de grandes nomes, como U2, Queen, Rolling Stones ou os D.A.M.A.; David Bowie, Frank Sinatra, Nina Simone ou o A.G.I.R.

Já agora: D.A.M.A. e A.G.I.R.? Que treta é esta das siglas? Não bastava os músicos da nova vaga terem música difícil de se gostar, também tinham que ter nomes difíceis de entender? Uma coisa é certa: se desaparecerem da ribalta, na música, pelo menos já têm bons nomes para movimentos cívicos. Movimentos que lutem, por exemplo, contra músicas como aquela que diz “ela é linda sem makeup”.

Inspirado no Spotify, gostaria de apresentar uma ideia para que alguém com conhecimentos técnicos, dinheiro e parvoíce suficientes possa realizar. Falo do Mundify, uma plataforma com playlists de pessoas a falar sobre todos os temas possíveis. Tudo isto, sem o pessoal que trabalha no Spotify faça um protesto em que ande com tudo ao pontapé.

(TVZ Design/Flickr)
O Mundify seria um espaço incrivelmente democrático, onde as pessoas poderiam falar até de assuntos dos quais não percebem nada. Como, por exemplo, o Cristiano Ronaldo a falar de literatura, a Ana Malhoa a falar do problema do Médio Oriente ou o Passos Coelho a falar de política. Neste ponto, Miguel Sousa Tavares não poderia de falar de um assunto do qual não percebesse nada, pela simples razão de que ele é extraordinariamente versado em todos os temas.

Poderíamos ouvir, por exemplo, Jorge Jesus a ler Shakespeare em Inglês. Do séc. XVII. Poderíamos ouvir uma aula de uma das maiores personalidades do meio académico português. Falo, obviamente, de Miguel Relvas, que tira uma licenciatura e meia enquanto Jorge Jesus lê o “Hamlet” (em Português da Amadora do séc. XXI). Poderíamos ouvir uma playlist do PCP, que consistiria em ouvir sempre o mesmo discurso, mas dito por vozes diferentes, como se fosse o Google tradutor (discurso esse que teria, muitas vezes, o mesmo sentido que as traduções feitas no Google tradutor). Poderíamos ouvir a malta do CDS a defender grandes causas do nosso tempo, como os direitos dos grandes capitalistas oprimidos pelos governos de esquerda, a importância das touradas para as ganadarias ou a crise da equitação nos colégios privados.

Mas o que tornaria o Mundify verdadeiramente democrático seria a possibilidade dejuntar os cidadãos anónimos ao coro de vozes participantes. Imagina que podias desafiar o teu tio Júlio a criar um podcast sobre temas fracturantes, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o aborto, a eutanásia, a despenalização das drogas leves ou a importância de ter um tio Júlio, sem poder utilizar expressões como “isto é tudo um bando de [completar]” ou “era metê-los num barco”. Imagina desafiares a tua tia Ermelinda a dissertar sobre as festas de “swing” e os bares de strip sem poder utilizar a expressão “pouca vergonha”.

O Mundify seria um sucesso. A Kim Kardashian talvez não achasse, mas isso é porque não é preciso falar para mostrar o rabo a milhares de pessoas. É tão fácil como ter uma conta no Instagram. Ainda bem.

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