domingo, 23 de outubro de 2016

A Loja dos Cidadãos

Se as lojas de brinquedos vendem brinquedos, a Loja do Cidadão deveria vender cidadãos. Não, não estou a falar de tráfico de seres humanos. Para isso, bastam as juventudes partidárias, que pegam em jovens imberbes inconscientes e formam-nos, até eles se tornarem barbudos inconscientes detentores de cargos públicos, com direito a assessor e ajudas de custo.

O que eu pretendia era que a Loja do Cidadão, para além de nos permitir fazer o Cartão do Cidadão, tratar de papelada, pagar contas e conhecer uma vasta gama de odores oriundos do corpo humano, vendesse pessoas artificiais. Não, não estou a falar da Maria Leal. Falo de algo que parecesse humano, mas não fosse. Não, não estou a falar do cabelo do Donald Trump. Refiro-me a robôs humanóides.

Poderíamos, em qualquer situação, e sem sair do lugar, encomendar um cidadão artificial, através de uma app. Era tipo Uber, mas sem nos arriscarmos a levar na tromba de um taxista que estivesse a passar. Para que serviria esse cidadão? Pois bem, para tarefas várias.

(Jiuguang Wang/Flickr)

Viajar ao lado de um passageiro chato
Estás a viajar de comboio e ao teu lado está uma senhora adorável que já te mostrou as fotografias dos filhos e do neto, trocou três vezes os nomes deles, falou-te do canário amarelo que canta em Dó sustenido, disse seis vezes que “isto é uma vida” e quatro que “ele dá chuva para amanhã”. Já te perguntou três vezes qual o teu nome, disseste nomes diferentes em todas elas e ela respondeu sempre que tinha um sobrinho com esse nome. Estás farto de a aturar e só querias ler o teu livro. Requisitas um cidadão artificial para a estação seguinte. Ele entra no comboio, vai para o teu lugar e tu para o dele. Três estações depois, ele atira-se à linha, mas como é um robô, pode ser reparado.

Passar a ferro
Chegas a casa e tens uma dúvida existencial profunda: será que o número de escalões do IRS é adequado para que se garanta uma maior equidade fiscal? Sem resposta a esta dúvida, avanças para outra: ver um episódio da tua série do momento ou passar a ferro? Fácil: encomendas um cidadão artificial para passar a ferro e tu vais ver a série. Importante: não deixar que o cidadão artificial passe a ferro na mesma divisão da casa em que vês a série, senão, um dia, chegas a casa e ele está a ver a série, enquanto enche o teu sofá de migalhas de batatas fritas e já depois de ter fumado dois cigarros lá dentro.

Ir às compras
Não te apetece andar de carrinho, de um lado para o outro, e passar pela secção dos lacticínios, pela das massas, pelo talho e pela peixaria, por aquele senhor gordo que ocupa mais espaço do que o carrinho, por aquele puto que está a colar ranhos na fruta, por aquela senhora que já tirou a carta de ligeiros, mas não de carrinhos de supermercado. Só tens que mandar um cidadão artificial. Mas cuidado, especifica que não queres um vegetariano. Senão vais passar uma semana a mandar tofu e soja para o bucho.

Jogar à bola
Quem já jogou à bola com amigos, sabe como é dramático faltar um jogador. Até se pode realizar o jogo, mas jogar contra uma equipa que tem um jogador a menos é como roubar fruta no quintal de uns velhotes: nem dá pica, nem te podes gabar dos teus feitos. O cidadão artificial requisitado para ser o jogador que faltasse seria como o FIFA: daria para regular o grau de dificuldade. Ou seria possível, também, pô-lo à baliza o jogo todo sem que ele se queixasse. Com tempo, poderia vir a substituir definitivamente aquele que é, notoriamente, o pior jogador do grupo (há sempre alguém assim).

Ir ao cinema
Uma das minhas convenções sociais preferidas, depois da obrigatoriedade de dizer alguma coisa, quando alguém espirra, é que não se pode ir ao cinema sozinho. A não ser que se pretenda praticar a chafurdice de cariz sexual (e mesmo assim, o cinema pode não ser o local ideal, porque ficar com pipocas na virilha deve ser desagradável), numa sala de cinema é suposto estar-se hora e meia/duas horas, em silêncio, a olhar para um ecrã. Ao lado, é igual estar uma pessoa amiga ou uma réplica da Estátua da Liberdade (com os dois braços para baixo, senão o pessoal da fila de trás não vê). Mas se, surpreendentemente, precisasses de companhia para ir ver aquele filme independente produzido na Mongólia e que retrata a colheita de arroz no Vietname, requisitavas um cidadão artificial. E poderias escolher um que não gostasse de pipocas, para não teres que as dividir.

És obsessivo-compulsivo, mas estás com preguiça
Contratas um cidadão artificial e ele organiza os teus livros por ordem alfabética, a tua roupa por cores, as tuas plantas por espécie, a tua despensa por tipo de produto e data de validade e os filmes que tens no computador por género. Só não organiza os filmes de pornografia porque estão num disco externo escondido.

Fazem-te a pergunta mais irritante de sempre que, como toda a gente sabe, é: “E de resto?”
Dizes “Espera um bocadinho” e requisitas um cidadão artificial. Activa-lo para a função “E de resto?” (todas as unidades virão preparadas para essa função) e o cidadão conta, à pessoa que te fez a pergunta, a história do Universo, com todos os detalhes matemáticos, físicos e químicos que marcaram a sua evolução, sem esquecer as diversas civilizações e dinastias que a História costuma destacar. Falará, também, um pouco de Filosofia, para dar conta das principais correntes do pensamento humano, e terminará com breves apontamentos de Economia, tão úteis para entendermos o mundo em que vivemos. Depois desta compilação de oito horas, a pessoa que te perguntou “E de resto?” nunca mais cometerá essa atrocidade.

Já sei, já sei. Está tudo a pensar “E sexo? O cidadão artificial não poderia ser requisitado para praticar sexo?”. Não, seus ordinários, pela simples razão de que, se o Estado se metesse nesse negócio, teríamos os donos dos bordéis nas ruas. E uma jornada de luta dos bordéis causaria mais congestionamento do que uma greve dos transportes.

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