Pessoas que não sabem o que estão a fazer

Uma das coisas mais divertidas da vida é fazer bolas de sabão. Há algo de libertador, mas também de filosófico, no acto de fazer bolas de sabão. Mas isso não é o que me traz a este texto. Só achei importante partilhar esta opinião.

O que me traz a este texto é outra das coisas mais divertidas da vida, que é a seguinte: pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. O ser humano tem a capacidade de ser corajoso também para isso: saber que há coisas que não pode, não deve, não sabe fazer, mas fazê-las na mesma.

(Efe Arat/Flickr)

Por exemplo: pessoas a estacionar. Vais na estrada e segue um carro à tua frente. De repente, pára. Olhas para o lado e sabes que aquela carrinha BMW não cabe naquele lugar que, no máximo, dá para um Opel Corsa. “Não, ele não pode estacionar ali”, dizes para ti. Pisca para a direita, luz de marcha atrás. “Ele vai estacionar ali.”

Lentamente, com a confiança dos predestinados, o condutor da carrinha BMW começa a tentar estacionar. Tu já percebeste que o carro não cabe, o condutor que segue atrás de ti também, o senhor que está à porta do café também, o gato que está em cima do muro não percebeu, mas isso é porque está atento ao pássaro que pousou ali perto.

O condutor da carrinha BMW não entende por que razão está toda a gente a buzinar. Ele ainda não recorreu ao número de manobras suficientes para um perfeito estacionamento, não carregou no botão que permite encolher o carro, nem no botão que permite dobrar o eixo espácio-temporal. No fim, acaba por abandonar o local, mas só porque já está farto de ouvir carros a buzinar. No fundo, ele sabe que o carro cabia naquele lugar. À vontadinha.

A utilização de computadores é outra área rica em pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. Alguém está no computador e aparece-lhe um aviso qualquer. Primeiro passo: fechar o aviso sem o ler. Segundo passo: abrir o painel de controlo. Depois, começar a escolher todas as opções, alterando, aqui e ali, alguns parâmetros. O computador, que sabe mais do que o utilizador, começa a avisar: “A seguinte mudança pode desactivar algumas funcionalidades do computador”, “A seguinte mudança pode provocar mau funcionamento do computador”, “A seguinte mudança pode provocar danos irreversíveis no computador”, “A seguinte mudança pode provocar uma explosão em alguma parte do planeta”. Não há medo: o utilizador vai continuar convicto de que está a resolver o problema. Certeza, só uma: quando levar o computador a arranjar, vai dizer ao técnico que não fez nada.

Também gosto de pessoas que, quando algum aparelho não funciona, abrem-no logo. O caminho é de sentido único: tirar peças, tirar peças, tirar peças. No fim, vão sobrar duas ou três. Ou dez. Mas as pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer nunca desistem. Pelo menos, enquanto houver mais uma peça para tirar.

Outra coisa gira: cartas das Finanças ou de algum organismo público. Alguém recebe uma carta, carregadinha de linguagem técnica. “Depois de analisado o pedido do cidadão X, portador do Cartão do Cidadão n.º Y e do Número de Identificação Fiscal n.º N , a repartição de finanças de Sobreixos de Baixo decidiu indeferir o pedido, por não se verificarem as condições necessárias ao procedimento solicitado. O cidadão em questão deve proceder à imediata regularização da situação. O não cumprimento desta ordem desencadeará o conjunto de penalizações previstas no artigo 27 do código-que-regula-a-situação-em análise.”

O tipo que recebe a carta não faz ideia do que está a acontecer. Não sabe se tem que pagar alguma coisa, se tem que escrever uma carta a alguém, se deve reclamar, fugir do país ou chamar os bombeiros. Mas, confiante, acha que não deve ser nada e usa a carta para acender o fogareiro e assar duas morcelas.

Povo que sabe de construção é outro clássico. Pessoas estudam engenharia durante alguns anos, aprofundam conhecimentos de Matemática, Física, materiais e outros temas. Recorrem aos mais recentes softwares de desenho de estruturas e testam as suas ideias ao pormenor. Tudo isto é completamente destroçado por um gajo que nunca estudou nada sobre o assunto, mas que, curiosamente, percebe imenso do assunto, e que assiste à obra, num café ali perto. “Isto, pra mim, tá mal. Aquilo vai cair. Os pilares não são suficientemente fortes. E o tabuleiro está torto. Em dois sítios.”

Os Ministros das Finanças são, regra geral, pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. Mas são muito mais perigosas do que outras do mesmo grupo porque, ao contrário das pessoas que não sabem estacionar, das pessoas que não sabem mexer em computadores, das pessoas que não sabem reparar máquinas, das pessoas que não sabem o que está escrito nas cartas ou que não sabem nada de construção civil, os Ministros das Finanças têm uma extraordinária influência na vida dos outros.

E têm outra característica que os torna únicos: ninguém põe uma pessoa que não percebe de computadores a reparar computadores, ninguém põe um tipo que não percebe de construção a fazer um viaduto, mas todas as instituições financeiras querem alguém que tenha sido Ministro das Finanças. Mesmo que não fizesse a mínima ideia do que estava a fazer, durante o mandato.

Durante a produção deste texto, eu próprio não fazia a mínima ideia do que estava a acontecer. Mas não parei. Só para ser coerente com o que escrevi.

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