domingo, 17 de janeiro de 2016

Diz-me como comes, dir-te-ei quem és

Uma das modas mais recentes é dizer que o futuro da Humanidade vai jogar-se no confronto entre as pessoas que são X e as que são Y, ou no tema T. Até podia ser influência dos filmes, mas não é, claramente, uma vez que, pelos filmes, sabemos que o futuro da Humanidade está em Chuck Norris.

No entanto, de forma a cativar os leitores para um texto que não tem interesse absolutamente nenhum, vou afirmar, destemido, como se fosse um gajo a explicar a um brutamontes do ginásio que, a estacionar, lhe meteu uma porta do carro toda dentro, que o futuro da Humanidade se joga na forma de comer das pessoas.

(Michael Stern/Flickr)
No que diz respeito à forma de comer, podemos dividir os seres humanos em diversos grupos. Comecemos pelo critério da quantidade.

Buracos negros
Absorvem a matéria toda. As pessoas que enfardam têm pouco tempo livre. Ou porque estão a enfardar, ou porque estão a proceder à evacuação do que enfardam (vulgo, fazer cocó). Só há um momento em que estas pessoas não estão a pensar em comer: o último da sua existência. Isto porque, no penúltimo, ainda pensam “Havia bolo de chocolate…”. Estas pessoas são parecidas com um aspirador, mas há uma pequena diferença: no aspirador, não entra tudo. Quando vão jantar fora, só nas entradas garantem nutrientes que dariam para manter uma pequena tribo, durante uma semana. Depois, ao longo da refeição, vão dilatando, até parecerem uma cobra a digerir um animal de grande porte. Se fosse possível que a pessoa que enfarda e a cobra falassem sobre o inchaço, a cobra diria “Estou inchada porque estou a digerir um porco”, enquanto que a pessoa que enfarda responderia “Eu ainda nem jantei”.

Respiradores
Há pessoas que não se lembram do que comeram ao almoço. Os respiradores não se lembram da última vez que comeram. Conseguem extrair nutrientes do ar, pelo que lhes basta respirar para se alimentarem. Às vezes, estas pessoas apanham uma corrente de ar e ficam enfartadas. Quando eram pequenas e lhes diziam “Se não comes, vem aí o papão”, elas respondiam “Pode ser que ele queira comer esta sopa horrível”. Aquelas a quem diziam “Come, senão vem aí o polícia”, dizem sempre o mesmo, quando param numa “operação stop”: “Senhor agente, não bebi álcool, mas confesso que também não comi a sopa”. Estas pessoas passam quatro minutos à mesa, numa refeição: 15 segundos a comer, o resto do tempo a desarrumar o prato.

Passemos ao critério da rapidez.

Carros de corrida
Estas pessoas são um enorme desperdício de dentes, visto que não mastigam a comida. São tão rápidas a comer que, se comessem peixe acabado de apanhar, como os ursos, o peixe chegava vivo ao estômago. Na Fórmula 1, as equipas mudam 4 pneus em meia dúzia de segundos. As pessoas que comem depressa comem 8 rissóis em 3 pneus e meio.

Necrófagos
Estas pessoas davam bom uso à metade da dentição que as pessoas que comem depressa
podiam dispensar. Demoram tanto a comer que, quando atravessam o Atlântico de avião, pedem a refeição logo depois da partida, para terem tempo de comer tudo. Há quem demore tanto que começa a refeição com amigos e acaba com as moscas que começaram a sobrevoar a comida, entretanto em processo de decomposição. Algumas demoram tanto que, no Ano Novo, metem no micro-ondas a comida que está no prato desde o Natal. Outras há que, quando acabam de comer a fruta, esta já está fora da época. Acho que já perceberam a ideia.

Existe, também, o critério da diversidade.

Camiões do lixo
Comem tudo. Os ossos do frango, as espinhas do peixe, as orelhas do porco, a língua da vaca, as cascas dos tremoços. O estômago destas pessoas tem paredes de lixa, o que permite que a digestão de uma bigorna seja igual à digestão de molotof. O único problema destas pessoas é digerir material radioactivo: faz um pouco de azia. Estas pessoas conseguem comer tantas variedades de comida que estão quase tão bem adaptadas ao meio como as baratas. Quase: para as baratas, a radioactividade é tipo molho agridoce. Os “camiões do lixo” só não digerem materiais de outros planetas porque não têm acesso a eles.

Caçadores de tesouros
Não gostam de carne vermelha, não gostam de carne branca, não gostam de carne verde. Bom, carne verde pressupõe alguma decomposição, pelo que, até se compreende. Não gostam de peixe. Não gostam de respirar. Na maioria dos casos, a sua comida preferida é oriunda de um local recôndito do planeta. Tão recôndito que estas pessoas acabam por morrer sem descobrirem que gostam daquilo. Mas nem é assim tão difícil escolher um sítio para levar estas pessoas a jantar: a não ser que vás ao tal local recôndito, elas não vão querer comer.


Se não fazes parte de nenhum destes grupos, fazes parte do grupo “Pessoas que comem de uma forma que se situa dentro dos padrões de comportamento mais típicos, no que diz respeito, não só, à quantidade de comida ingerida, como também à rapidez da ingestão e à variedade da alimentação”.

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