Este texto não engorda

Os últimos tempos têm sido duros, para quem gosta de comer. Há cada vez mais alimentos conhecidos como prejudiciais para a saúde. E, como sempre, os que sabem melhor parecem ser os que fazem pior.

(Karen McAllister/Flickr)

O nosso fumeiro foi associado a malefícios para a saúde. Isto entristece-me particularmente, porque o fumeiro é uma criação com um nível de brilhantismo que rivaliza com o da criação da roda. Até a supera, porque uma roda não tem qualquer utilidade na confecção de um bom cozido à portuguesa. Num bom cozido, a única roda que interessa é o prato.

Quem inventou o fumeiro desenvolveu uma forma notável de conservar a carne. Só não conseguiu garantir que essa técnica resultasse com os seres humanos. O que é uma pena, se pensarmos que a Sara Sampaio, um dia, vai ser velhota.

É tão perigoso comer uma alheira como fumar um cigarro. Pior para a saúde, só mesmo nadar ensanguentado numa área repleta de tubarões (isto porque as alheiras não mordem).

Uma vez, um senhor comeu uma alheira e morreu logo a seguir. Mas ninguém o mandou meter-se com a mulher do vizinho, que quando descobriu, lhe deu um balázio.

Eu sempre desconfiei do fumeiro. Mas isso é porque não consigo confiar num alimento que é impossível comer pouco. Ninguém come só uma rodela de chouriço.

Mas também acho que há algum exagero quando o pessoal diz que não consegue resistir ao fumeiro. Eu resisto bem. Para quem tiver um jantar que envolva enchidos, é fácil resistir: basta tomar um sedativo. Dorme-se doze horas e, entretanto, o pessoal comeu tudo.

O açúcar, pelos vistos, faz muito pior do que imaginávamos. Cria dependência e tudo. O açúcar, no fundo, é um pó branco que faz mal e causa dependência. Por outras palavras, os gajos que inventaram a cocaína não foram assim tão originais.

Vou falar de universos paralelos. Não porque esse tema se relacione com o anterior, mas porque sinto que este blogue deve caminhar no sentido de um melhor serviço público. Nesse sentido ou no de acabar, ainda não sei bem.

Mas voltando aos universos paralelos: há quem defenda que existam. E eu espero que existam. Porque quero acreditar que, algures noutra dimensão, exista um universo onde alguns dos seguintes raciocínios sejam válidos.

Comer hidratos de carbono em excesso previne a obesidade
Enfardar arroz, massa, pão e outras fontes de hidratos de carbono permite acumular tanta energia que o corpo, para ter algo com que se entreter, queima gordura mesmo quando está em repouso.

Comer batatas fritas reduz o risco de colesterol
As batatas contêm uma substância que, entrando na corrente sanguínea, limpa a gordura toda. Se sobrar tempo, ainda limpa o fígado. Esta substância está para as paredes das artérias, e para o organismo em geral, como os banqueiros estão para a banca: onde tocam, limpam tudo.

Comer papas de sarrabulho em excesso torna o nosso estômago mais eficiente
A digestão deste alimento rico em carnes diversas, pão, tripa enfarinhada e rojões é uma espécie de ginásio para o estômago, deixando-o mais resistente e mais eficaz na digestão. Comer papas uma vez por semana torna uma pessoa capaz de digerir granito.

Comer chocolate previne a diabetes
O organismo fica tão eufórico que o metabolismo acelera tanto como aquelas pessoas que esticam muito a primeira mudança, nos carros. Ou seja, o metabolismo queima o açúcar todo. Logo, mais chocolate no organismo, menos açúcar no sangue.

Beber álcool previne as doenças infecto-contagiosas
Alguma bactéria sobrevive a vinho maduro em excesso? Bom, pode sobreviver, mas a ressaca vai ser tão grande que ela vai pôr-se andar, para não vomitar só com o cheiro a vinho.

Tomar 16 cafés por dia previne uma série de doenças
A tensão arterial baixa, porque o estado de híper-cafeína induz-nos a um estado de pré-hipnose. Qualquer doença infecto-contagiosa também será eficazmente combatida, porque até as bactérias precisam de dormir. Ninguém dorme com 16 cafés.

Por enquanto, no nosso universo, caminhamos para o dia em que quem não comer apenas sopa de nabos será nabo.

Peço desculpa pelo fim abrupto deste texto, mas estou a ressacar por comer qualquer coisa.

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