terça-feira, 10 de novembro de 2015

Desportistas: os clássicos e os modernos

Hoje em dia, ao entrarmos num ginásio, temos a sensação de estarmos nos Jogos Olímpicos. A julgar pela qualidade da roupa, os desportistas que encontramos no ginásio parecem ser de alta competição. Depois, olhamos para o desempenho de muitos deles e sentimos que estamos numa aula de hidroginástica. Sem água.

(Maurizio Mori/Flickr) 

Mesmo assim, ainda se encontram desportistas clássicos. Por desportista clássico, entenda-se um gajo com uma t-shirt extraordinariamente desbotada, rasgada debaixo dos braços. Na frente, uma inscrição de respeito: “II Encontro do Porco no Espeto de Burgeses”. Uma espécie de medalha em forma de nome de um evento. Uma mancha de vinho, quase imperceptível, anuncia-se junto da inscrição. É uma t-shirt de guerra.

Os calções ostentam o emblema do Atlético de Burgeses e o número 9, o que deixa antever estarmos na presença de uma avançado temível. Mesmo com uma ligeira barriga, é menino para marcar uns 20 golos por época. Isso ou enfardar um cozido sem pedir ajuda a ninguém.

As sapatilhas são brancas, um clássico, tão gastas que a única zona com algum relevo é a dos cordões.

O relógio é uma relíquia, do tempo em que dizer “100m water resistant” era uma mais-valia (hoje, os relógios até respiram debaixo de água).

Do outro lado, temos o desportista moderno. A t-shirt é invariavelmente justa e sem mangas. Adidas ou Nike, de preferência. Até os gordos usam t-shirt justa. Um gordo de roupa desportiva é um gordo a caminho de deixar de o ser, pelo que a barriga, ainda que se note bastante, parece que nem se nota.

Os calções são de licra, tão justos que só há uma maneira de os vestir: deixar os testículos no cacifo.

Na maior parte dos casos, as sapatilhas são fluorescentes. Parecem ter resultado do cruzamento de uma laranja com um limão (arraçado de lima).

O relógio está ligado às sapatilhas, que estão ligadas a uma fita que é usada no tórax, para medir as pulsações, fita essa que está ligada ao telemóvel, que está ligado a um satélite, que está ligado a outro satélite, que está ligado ao telemóvel da amiga com quem o desportista moderno está a falar, pelo Facebook Messenger. Ou seja: um gajo corre com outra pessoa, mas sem ser a que está na passadeira do lado (até porque o gajo da passadeira do lado tem uma t-shirt estranha, que fala de um encontro qualquer de porco no espeto).

O desportista moderno consegue sempre cumprir o que planeou fazer no ginásio. Depois, pousa o telemóvel e faz algum exercício físico.

O desportista clássico faz flexões e agachamentos. O desportista moderno faz “push ups” e “squats”. Os nossos músculos sabem a diferença entre uma flexão e um “push up”, entre um agachamento e um “squat”, respondendo de maneira diferente. Por isso é que o treino dos desportistas modernos rende mais.

No fim, o banho também é diferente. O desportista clássico toma banho, veste-se e vai embora. O desportista moderno bebe uma mistela qualquer, no fim do treino, que parece Nestum, mas com pouco Nestum, faz a barba e a depilação, toma banho, põe creme, seca o cabelo, põe cera no cabelo, tira a roupa que vai vestir de dentro de um plástico (tipo aqueles da lavandaria), põe perfume e está pronto. Resultado: uma hora e quinze minutos de treino, uma hora e quarenta e cinco minutos de banho.

Os desportistas clássicos estão em vias de extinção. De cada vez que um espécime deste grupo compra uma t-shirt justa e sem mangas, a espécie fica mais perto do fim. E os encontros de porco no espeto perdem um adepto.

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