Fases de um dia de sono

Às vezes, esticamos um bocadinho a corda e cortamos nas horas de sono. Enquanto o fazemos, divertimo-nos. O problema é o dia seguinte. Vamos sofrer, dizer mal de nós mesmos e prometer que, nesse dia, nos vamos deitar cedo. Mesmo sabendo que é mentira. Eis as fases por que passamos, num dia com sono.

(Tambako The Jaguar/Flickr)
Fase Che Guevara
Acordamos com muito sono e o primeiro sentimento que temos é uma espécie de fúria revolucionária. “Logo, vou deitar-me às nove da noite. Nunca mais me deito tarde.” Nesta fase, queremos mudar os hábitos, ser mais saudáveis, mais sensatos, valorizar mais o descanso. No fundo, queremos ser pessoas melhores: ajudar mais os outros, ser mais compreensivos, cuidar melhor da saúde, atravessar na passadeira, separar o lixo, não coçar os genitais em público. É mentira: com a camada de sono que temos, queremos, não só, que os outros se lixem, como também que não falem connosco. Queremos apenas dormir mais horas e sentimo-nos capazes de fazer uma revolução: deitar cedo.

Fase Pedro e o Lobo
Ocorre a meio da manhã, quando o nosso corpo se adaptou ao estado de sono, também com ajuda da cafeína, e começamos a acreditar que não estamos cansados. Sentimos que foi falso alarme. “Pessoal, calma, podem regressar às vossas casas, não há lobo nenhum, foi impressão minha.” Sentimo-nos fortes, capazes de resistir ao sono; ao vizinho chato do 5º andar, que nos pediu que respirássemos mais baixo, de noite, porque ele tem sono leve; ao gajo que não arrancou, quando o semáforo abriu; ao gajo que não acelerou, antes que o semáforo fechasse; ao chato que vai a falar ao telemóvel aos berros, no autocarro, e que diz que o carro dele está a fazer um barulho esquisito e que lhe pediram 150 euros para o arranjar, quando um amigo dele arranja aquilo por 20 paus; ao perfume horrível que aquela senhora deixou no elevador. 

Fase Urso
Antes do almoço, o sono que sentimos, mesmo sem o sabermos, mistura-se com a fome. Os nossos níveis de agressividade tornam-se semelhantes aos de um urso. Apetece-nos atacar qualquer ser vivo que apareça nas nossas imediações. A simples existência de outros seres humanos irrita-nos. Para além disso, temos o apetite do urso: carne, peixe, bagos, um alce em decomposição ou um salmão que vai a subir o rio (estes, mais difíceis de encontrar, mas nunca se sabe), qualquer coisa serve, desde que a fome passe. Nesta fase, até um vegetariano come arroz de pato (depois de ter matado e esfolado o pato). Algumas pessoas também coçam as costas, roçando-as nas árvores, como os ursos, mas isso não tem nada a ver com o sono e a fome: é porque não chegam às costas com o braço.

Fase Lesma
Depois do almoço, cada célula do corpo está em agonia. Não nos mexemos, arrastamo-nos. Há pessoas que, tendo que descer escadas, atiram-se. O que são alguns hematomas e uma possível fracturinha, comparados com o terror de descer umas escadas? Quando a questão é subir escadas, há quem faça a fractura antes, só para não subir. Há quem aproveite uma viagem de elevador ou de escadas rolantes para um retemperador sono de seis segundos. 

Fase Kamikaze
No pico do sono, queremos morrer, o sofrimento é tanto que, se nos dessem um avião, para o atirarmos contra qualquer coisa, nós equacionaríamos a possibilidade. Nem era pela destruição, mas pela possibilidade de acabar com aquele sono.

Fase Obama
“Yes, We Can”, falta uma hora para acabar o trabalho. Sentes, não só, que o teu longo dia está quase a acabar, como também que o Mundo vai ser, depois da saída, um lugar melhor, cheio de esperança, liberdade, igualdade e fraternidade. Depois, recebes uma tarefa difícil para fazer e sentes que o Mundo é uma merda e que ser um extremista não é assim tão errado.

Fase Olímpica
Sais do trabalho. Ouves uma música épica, corres em câmara lenta, à volta do edifício do teu local de trabalho, tal e qual os maratonistas, que dão a volta à pista, depois de terminarem a prova. És indestrutível. És uma máquina. Já nada te pode incomodar. Assim que acaba o trabalho, estás em equilíbrio com a Natureza e não vais chatear-te com mais nada. Excepto com o vizinho chato do 5º andar, que te pediu que respirasses mais baixo, de noite, porque ele tem sono leve; com o gajo que não arrancou, quando o semáforo abriu; com o gajo que não acelerou, antes que o semáforo fechasse; com o chato que vai a falar ao telemóvel aos berros, no autocarro, e que diz que o carro dele está a fazer um barulho esquisito e que lhe pediram 150 euros para o arranjar, quando um amigo dele arranja aquilo por 20 paus; ou com o perfume horrível que aquela senhora deixou no elevador. Já agora, também com o facto de te teres esquecido da carteira no trabalho e teres que voltar para trás.

Fase Coyote
Tens o plano delineado há doze horas e não tencionas deixar escapar o “Beep-Beep”, que é como quem diz, queres deitar-te a horas. Como sempre, o “Beep-Beep”vai escapar, ou seja, algo vai correr mal e o teu plano vai ter um resultado desastroso. Por algum motivo, não te vais deitar cedo.

Fase Que se lixe
Vais dormir poucas horas outra vez. Tens vergonha só de pensar no assunto.

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