domingo, 6 de setembro de 2015

E se o multibanco falasse?

O multibanco fez trinta anos, esta semana, e as televisões deram grande destaque. Eu faço trinta e um, brevemente. Quero ver se as televisões se vão lembrar. Tudo bem, eu não permito levantar dinheiro em qualquer lugar. Mas se um amigo me pedir vinte euros emprestados, nem é preciso código. E sou bom rapaz, o que já deveria ser digno de nota.

(Sean MacEntee/Flickr)

Talvez seja altura de repensarmos o multibanco. O boneco não deve ser mudado, em circunstância alguma: a máquina sem aquele boneco não será a mesma coisa. Será como a “Prova Oral” sem o Fernando Alvim, o “Preço Certo” sem o Fernando Mendes, ou a TVI sem os casacos do Goucha e os berros da Cristina Ferreira.

Bom, fiquemos apenas pelos exemplos da “Prova Oral” e do “Preço Certo”.

Uma das grandes inovações que poderiam (e deveriam) ser implementadas seria a capacidade da máquina nos tentar demover de levantarmos dinheiro quando tivéssemos pouco. Assim que tentássemos realizar a operação, ela perguntaria “Tem a certeza?”. Caso respondêssemos afirmativamente, a máquina continuaria a fazer perguntas e só quando respondêssemos a todas é que poderíamos levantar dinheiro. “Tem mesmo a certeza?”, “Quem foi o inventor do multibanco?”, “Em que ano foi inventada a lâmpada?”, “Quem foi o primeiro Presidente da República da Estónia?”, “Qual é a capital da Macedónia?”, “89+53=?”, “Qual a raiz quadrada de 289?”.

Para além desta capacidade, a máquina poderia ter uma outra, exclusiva do fim-de-semana: se uma pessoa levantasse dinheiro, a máquina diria, no fim: “Agora gasta-o mal gasto…”. Se voltássemos àquela máquina, no mesmo fim-de-semana, a máquina diria: “Andas numa rica vida, andas…”.

Outra grande alteração estaria relacionada com as filas. Quando estivesse muita gente, a máquina contaria anedotas, serviria amendoins e cerveja, de forma a tornar a espera mais agradável. Claro que estes factores iriam distrair a pessoa que estivesse a usar a máquina, tornando a utilização mais demorada, mas ninguém se importaria com isso, uma vez que o importante seria o convívio. O povo já iria ao multibanco só para beber um fino e ouvir duas anedotas. Ao fim de vários finos, as anedotas teriam muito mais piada e o pessoal já levantaria dinheiro para as outras pessoas. Como dizem os bêbados: “Somos amigos ou não somos?”. A economia girava.

Quando alguém estivesse mais do que cinco minutos na máquina, seria activada uma bazuca de notas, que as dispararia como se fossem confetes. Importante: o dinheiro disparado seria, obviamente, da pessoa que estivesse a monopolizar a máquina.

Para as pessoas que até são rápidas na máquina, mas depois ficam a conferir o talão durante vários minutos, impedindo que outra pessoa utilize a máquina, existiria um chuveiro. Com água fria. Esta funcionalidade iria fazer com que, no Verão, os homens recomendassem às miúdas giras que conferissem detalhadamente o talão, várias vezes, antes de abandonarem a máquina. “Nunca se sabe se houve um erro informático, menina. Convém conferir bem. Já agora, pode conferir virada para aquele lado?” Tudo isto em nome do civismo, como é óbvio. Nós não somos esses ordinários que vocês pensam, meninas. Claro que somos.

Nos pagamentos ao Estado, teríamos oportunidade de jogar, na própria máquina, um jogo de boxe, no qual enfrentaríamos o actual ou anteriores primeiros-ministros. O jogo teria uma particularidade: o nosso adversário teria as mãos atadas. Pelo menos, ali, poderíamos derrotar o Estado.

Quando a máquina comesse o cartão, arrotaria. Esta função não teria utilidade nenhuma. Só piada.

Quando alguém tentasse levantar dinheiro sem o ter, ocorreria o seguinte diálogo: “Deves pensar que eu ando a dormir. Vamos fazer um jogo. Eu dou-te o dinheiro, mesmo sem teres saldo, mas tens que adivinhar em que número estou a pensar”.

Quando alguém se esquecesse de retirar o cartão, o dinheiro ou o talão, em vez dos avisos enfadonhos do costume, teríamos avisos como: “Deixa ficar isto aqui, deixa, que o próximo utilizador vai mesmo avisar que te esqueceste”. Quando a máquina estivesse mal disposta, acrescentaria, no fim do aviso: “Estúpido/a!”.

Todas estas funções tornariam mais eficiente e agradável a utilização das máquinas multibanco. Mais estúpida, também.

Sem comentários:

Enviar um comentário