Alguns tipos de relações amorosas

Há namoros intensos e namoros aborrecidos. Há namoros sentidos e namoros ocasionais. Enquanto houver seres humanos, haverá novos tipos de namoros, uns mais comuns, outros mais originais. Seria impossível elencar todos os tipos de relações amorosas, mas vou deixar aqui alguns dos mais comuns.

(uditha wickramanayaka/Flickr)

Romeu e Julieta
Partilham tudo, menos a escova de dentes. OK, subamos a parada: partilham a escova de dentes. E as gengivites. Partilham todas as viagens, todos os passeios, todos os pores-do-sol, todas as diarreias. Quando um fica doente, o outro toma a medicação. Não resulta e acaba por ter que ser o que está doente a tomá-la. Mas é romântico. São o complemento perfeito, um para o outro. Ao fim de algum tempo, um inspira e o outro expira. Respiram a meias, no fundo. O que é bom, porque se poupa no oxigénio. No médio/longo prazo, deixam de existir para outros seres humanos. São o monstro de Loch Ness dos namoros: volta e meia, aparecem, mas estão quase sempre “debaixo de água”. Uns dizem que eles existem, outros não acreditam.

Faixa de Gaza
Discutem por causa dos ciúmes. Discutem por causa do tampo da sanita. Discutem por causa dos cortinados. Discutem por causa da Coreia do Norte e da Coreia do Sul. Discutem por causa do sentido da vida. Discutem por causa da toalha molhada em cima da cama. Discutem por causa do calçado desarrumado. Por causa da comida. Por causa do restaurante. Do filme que vão ver. Do filme que viram. Discutem por não se lembrarem de nenhum motivo para discutir. “Nunca te lembras de um motivo!”, “Ainda ontem fui eu que comecei a discutir”, “É isso, atira coisas à cara, adoro quando fazes isso…”. Discutem sobre tudo e sobre nada, mas estão destinados a viver um com o outro.

Ioió
Namoram com toda a intensidade. Chateiam-se e desejam a morte um do outro. Reencontram-se e recomeçam a namorar. Não vivem um sem o outro. Chateiam-se e dizem “Nunca mais”. Reencontram-se e começam “uma cena sem compromisso” (no fundo, namoram, mas como da outra vez não resultou, resolvem dar-lhe um nome diferente). Chateiam-se e prometem que vão casar com a primeira pessoa que aparecer na rua. A primeira pessoa não corresponde, a segunda também não. Recomeçam a namorar, até se chatearem de novo. No fundo, eles só gostam do sexo de reconciliação, mas ainda não se aperceberam.

Salto em Altura
Estes namoros são uma competição, para ver quem é mais lamechas. Um oferece flores. O outro planta um jardim. Um cria uma escultura. O outro faz um museu com tudo o que eles partilharam. Um escreve um poema. O outro escreve, também, e divulga-o em papéis, atirados por um avião. Um corta um braço, por amor. O outro pega nesse braço e coça as costas do primeiro. Basicamente, eles estão juntos pela competição. O amor é secundário.

As palavras que nunca te direi
Não há demonstrações de carinho, em público. Nem em lado nenhum. Estão juntos por falta de opções. Espera: mas são namorados? Esperemos que eles se pronunciem sobre o tema. São como pessoas presas num elevador: não sabem por que motivo o elevador parou, não queriam que ele tivesse parado, mas acabam por conviver.

Eclipse
Um deles é alegre, divertido/a, extrovertido/a. Tem sempre uma piada, faz sempre qualquer coisa parva. Excepto na presença da namorada/o. Nessa situação, transforma-se numa estátua, tão desinteressante que nem as pombas a procuram. Se conheces alguém assim, despede-te: essa pessoa só voltará a existir se a relação acabar.

24 Hour Party People A
Vale tudo: no sexo, no dia-a-dia, no sexo, nos passeios, nos jantares, no sexo e nos encontros com amigos. Nos cinco dias que sobram, por mês, para a namorada/o, também vale tudo.

24 Hour Party People B
Vale tudo: no sexo, no dia-a-dia, no sexo, nos passeios, nos jantares, no sexo e nos encontros com amigos. Só não vale com a namorada/o.

Agentes Secretos
Namoram sem ninguém saber. Em alguns casos, sem os próprios saberem.

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