domingo, 23 de agosto de 2015

Pessoas que levam tudo para a praia

Para muitos portugueses, a ida à praia é como emigrar, tal a quantidade de bagagem que eles transportam. Mas é uma emigração com regresso no mesmo dia. E com nova emigração, no dia seguinte. É tipo aqueles namoros que estão sempre a acabar e a recomeçar. Mas sem o sexo de reconciliação.

(Peter Roome/Flickr)
O português leva tudo para a praia. Leva o cão, porque o Adamastor também tem direito a passear um bocado. E a urinar em sítios diferentes. Até naquele saco plástico que a senhora do lado deixou, inadvertidamente, fora do lugar. E o Adamastor também tem direito a tentar copular com a cadela que aqueles senhores do guarda-sol amarelo trouxeram à praia. O facto de Adamastor ser um pequeno Bulldog Francês e a cadela ser uma imponente exemplar da raça Labrador poderá dificultar a vida ao macho. Mas nunca é de mais tentar. Como se costuma dizer, “o ‘não’ é garantido”.

O português leva, também, vários guarda-sóis, porque chega à praia às dez da manhã e vai embora às oito da noite, e convém proteger-se nas horas de maior calor. A ele, à esposa, aos filhos, ao Adamastor, à comida e aos outros guarda-sóis. Sim, porque ele leva vários, que se vão revezando, para não aquecerem muito. “O sol até aos guarda-sóis faz mal. Desgasta a cor. Depois, ficam feios, parecem velhos”, diz o português. Esta é a frase mais sábia que este português dirá nos dias de sol. Nos dias de chuva dirá “a chuvinha também faz falta”.

O português leva pára-vento para a praia. Mentira, leva um sistema de pára-ventos, desenhados pelo filho do vizinho, que está a estudar engenharia, sistema esse que optimiza o rendimento e que permite criar uma espécie de castelo junto ao mar. É bom para proteger do vento, mas também de uma potencial invasão de caranguejos que decidam tentar conquistar o planeta. Esse sistema de pára-ventos permite, e isto não é menos importante, que o português coce os testículos à vontade. É verdade: embora muitos, até na mesma praia, não entendam essa estranha necessidade, há quem queira alguma privacidade para coçar a genitália.

Essencial, também, é o jornal desportivo, para ver quem é que o Benfica vai contratar.

Leva tachos com comida, porque “comer sandes é para meninos”. Reclama sempre da comida, mas come dois pratos.

Leva rádio, para adormecer ao fim do almoço, ao som do Julio Iglesias. E para não ouvir o puto da família do lado aos berros com o irmão, enquanto este o tapa com areia e a mãe berra com toda a gente: com os filhos, porque só fazem asneiras, com o pai, porque ainda não fez nada desde que abriu o jornal para saber quem vinha para o Benfica.

Mas o português também tenciona sair do seu castelo de pára-ventos, pelo menos uma vez. Leva raquetes, porque é um desportista. As raquetes nunca vão sair do saco. Mentira, vão dar jeito para coçar as costas.

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