domingo, 30 de agosto de 2015

Comprar roupa: eles vs. elas

Quando compra roupa, o homem tenta ser uma espécie de assassino silencioso: o objectivo é cumprir a missão no mínimo tempo possível e sem ninguém notar. No fundo, o homem tenta ser como um daqueles assessores que os ministérios vão buscar às juventudes partidárias: ninguém os viu, mas estiveram lá e gastaram dinheiro.

(liz west/Flickr)
Caso demore demasiado tempo, o homem pode perder-se para sempre, debaixo das peças de roupa que vão sendo amontoadas. Ou ver a sua masculinidade questionada pelos amigos. “Tanto tempo para comprar duas camisas.”

(A masculinidade pode também ser questionada devido ao estilo de camisas escolhidas e não ao tempo que o homem demorou a escolhê-las.)

Pega numa peça, noutra e noutra. Vai ao vestiário, olha para o espelho e vê como estão os músculos. Ou a barriga. Faz uma ou duas danças parvas e lembra-se que tem roupa para experimentar. Não experimenta todas as peças ao mesmo tempo porque não dá.

“Esta não, fica muito larga. Esta não, fica muito justa. Esta fica altamente, mas é um pouco abichanada. Quer dizer, o Manuel tem uma e fica-lhe bem. Mas toda a roupa dele é abichanada, por isso é que lhe fica bem.”

A maioria dos homens não sabe qual o tamanho que veste. Mentira: sabe que fica, algures, entre o 1 e o 500. Mas, para ser rigoroso, precisa de perguntar à namorada, à mãe ou à irmã.

A mãe vai dizer um tamanho menor, porque acha sempre que o filho está magro.

A tomada de decisão com amigos por perto não é vantajosa. Para decidir em poucos minutos, o homem não precisa de ajuda. Para além disso, o amigo vai gozar com todas as peças que um gajo escolher, e sugerirá mais algumas que fiquem claramente mal, só pela diversão. Isto vai aumentar consideravelmente o tempo das compras. Claro que há um limite: o amigo é um homem, pelo que quererá, também, sair da loja em tempo útil.

Se não houver nada de especial, o homem vai encontrar uma consolação: vai poder andar mais uns tempos com aquela roupa que está velha, mas perfeitamente adaptada ao nosso corpo.

Por vezes, as compras são interrompidas por situações verdadeiramente prioritárias. Um amigo telefona.

– Onde estás?

– Vim comprar roupa.

– Queres vir ver o jogo ao tasco do Toni?

– Sou gajo.

– Despacha-te, só falta meia hora.

Nestas situações, em que algo verdadeiramente prioritário se coloca no caminho de um homem, existe um momento de clarividência.

“Aquelas camisas não estão assim tão velhas. Aquelas calças não estão assim tão gastas. Aguentam bem mais uma semana.”

Esta situação pode obrigar a roupa a aguentar mais uma semana. Ou mais dois meses.

A mulher, quando compra, pensa em várias questões, todas elas realmente importantes para que a roupa lhe confira mais estilo. Gosta da cor. A cor é perfeita, é um daqueles azuis turquesa, ou azul marinho, ou azul bebé, ou azul céu, ou azul guarda-sol (daqueles guarda-sóis azuis), ou azul ameixa (uma ameixa que tenha aprodrecido e acumulado bolor azul), ou azul céu em dia de chuva (é um azul mais acinzentado), ou azul carro da Marta (tens que conhecer o carro), ou azul. Só azul. Tipo, azul simples.

Adiante. Gosta da cor, mas não gosta do formato. “As calças não me assentam bem. Têm um formato estranho, démodé, pareço a tia Fernanda, naquela fotografia tirada em 1972, numas férias no Algarve. É um formato que não destaca as formas. Tem bom recorte, mas não é sensual.”

(Se a mulher for "hipster", parecer a tia Fernanda pode ser uma vantagem.)

Vamos supor que a mulher gosta do formato. Não gosta do tecido. “É um tecido sem brilho, sem vida, sem chama. É um tecido que alguém esqueceu num armazém e que, sem ninguém perceber porquê, acabou numas calças. Não gosto do toque.”

Vamos supor que a mulher gosta do tecido. Não gosta daqueles bolsos. “Parecem feitos à pressa. Parece que eram uma bolsa para telemóvel e, de repente, alguém a coseu numas calças. Os bolsos não são assim.”

Vamos supor que a mulher gosta dos bolsos. Não gosta daquele botão. “Parece uma moeda de dois euros. E as moedas ficam no bolso das moedas, não a segurar as minhas calças”.

Vamos supor que a mulher gosta de tudo: lembra-se que já viu alguém com umas parecidas. “A Isabel tem umas parecidas. A mim ficam-me muito melhor, porque ela está um bocado gorda. Mesmo assim não vou comprar. Vai parecer que eu copiei.”

Vamos supor que a mulher gosta de tudo e não se lembra de alguém que tenha umas parecidas. Mas, pelo caminho, experimentou umas que têm uma cor comum, um formato básico, um tecido igual aos outros, bolsos standard e um botão que parece um botão foleiro, e acaba por escolher essas. A amiga que a acompanhou nas compras não entende a escolha.

– Tanta coisa e vais levar estas?

– Vou. Fazem-me um rabo espectacular.

Sem comentários:

Enviar um comentário