Nunca digas "Sem falta"

Adoro quando alguém começa uma frase com a expressão “Não te quero pressionar”, ignorando que, ao fazê-lo, já está a pressionar. Adoro quando alguém começa uma frase com a expressão “Não me quero intrometer”, ignorando que, o que quer que diga a seguir será uma intromissão.

Acontece algo parecido quando alguém promete algo recorrendo à expressão “Sem falta”: está meio caminho andado para que a promessa não se cumpra.


(JD Hancock/Flickr)

Um dia, um homem foi ao mecânico e este disse-lhe: “Na Sexta-feira, sem falta, o carro está pronto”. Entretanto, o homem envelheceu, aquele modelo de carro desapareceu de circulação, o homem teve filhos e netos, a indústria automóvel sofreu uma revolução e, certo dia, um dos netos foi buscar o antigo carro do avô. Estava pronto e valia uma fortuna, porque se tinha tornado um clássico.

Uma vez, um homem pediu a um pintor para dar um jeito na parede da sala de estar. O pintor disse: “Para a semana, sem falta, passo lá”. Entretanto, o homem mudou de casa, a casa apodreceu, abandonada, e no seu lugar nasceu um prédio. O neto do pintor acabou por lá ir e ficou furioso. “É sempre a mesma coisa, mandam-me pintar uma casa, chego aqui, encontro um prédio. Vou precisar de um camião para trazer os baldes de tinta todos!”

Certo dia, um homem levou o computador a uma loja de informática, para uma reparação. O técnico disse: “Na Quarta-feira, sem falta, a máquina está pronta”. Depois disso, surgiram os computadores portáteis, os smartphones e os tablets. Surgiram ainda novas superfícies tácteis, a holografia e a tecnologia controlada pela mente. Até que o homem voltou à loja de informática e reparou que esta já não existia. No seu lugar, surgira um spa mental: um espaço onde as pessoas relaxavam, através do recurso a uns capacetes que induziam pensamentos agradáveis. Mas, à porta desse spa, estava o antigo computador do homem. Reparado e com um papel colado, onde estava a conta.

Quando fundou a Apple, Steve Jobs convidou um designer para criar uma linha de computadores. O designer respondeu: “Até ao fim desta semana, sem falta, apresento-te alguma coisa”. Entretanto, passaram quase quarenta anos, a Apple tornou-se numa das marcas mais valiosas do Mundo e o designer dirigiu-se às instalações da empresa, para apresentar a sua ideia. “Antes de mostrar o meu projecto, quero deixar bem claro que acho que vocês fizeram tudo mal. Tudo, tudo mal. Os vossos produtos são muito foleiros. Podiam ter esperado notícias minhas. Tiveram pressa, lixaram-se.”

Ao longo dos anos, várias personalidades recorreram à expressão “Sem falta”, com os mesmos resultados.

D. Sebastião: “Vou ali ao norte de África e volto daqui a seis meses, sem falta”.

Fidel Castro: “Vou só implementar o socialismo e, daqui a dez anos, sem falta, abandono o poder”.

Vários os presidentes americanos: “Na próxima década, sem falta, vamos deixar de invadir países por causa do petróleo e dos interesses políticos”.

Vocalista de uma qualquer banda de heavy metal: “Para o ano, sem falta, tomo banho”.

Vários primeiros-ministros portugueses: “Na próxima legislatura, sem falta, atingiremos o caminho do sucesso”.

Armando Rebordeira, Presidente da Junta de Freguesia de Burgeses: “Para o ano, sem falta, deixo de beber álcool. E pavimento as ruas todas”.

Não quero pressionar mas, no próximo parágrafo, sem falta, acabo este texto.

Só mais um.

Outro.

Agora sim.

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