terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Pessoas que nunca tiram o casaco

Um espaço de diversão nocturna, geralmente, é quente. Tão quente que há sempre alguém a beber “refrigerantes”. Tão quente que o copo é 98% gelo e 2% de líquido. Tão quente que aquela miúda gira está quase despida. E a outra do lado, também. E aquela. E aquela.

Continuando. Nos espaços de diversão nocturna, existem bengaleiros, onde podemos deixar o casaco. Mas isso é para fraquinhos. O verdadeiro folião mantém o casaco e o cachecol durante toda a noite. Isto acaba por fazer com que, no meio da pista, entre bêbados eufóricos e casais que se vão formando, em dinâmicas de sedução pura, há um roupeiro que se movimenta. Só nos apercebemos de que é uma pessoa pela mão que segura o copo, porque não se vê mais nada.

(Sheila in Moonducks/Flickr)

Há várias hipóteses que podem explicar o facto de alguém manter de casaco e cachecol, numa discoteca. A primeira é o desconhecimento da existência de um bengaleiro. Esta hipótese surge aliada a um reduzido poder de dedução: há pessoas em t-shirt, camisa, top ou em sutiã, como aquela moça jeitosa cujo decote deixa ver o umbigo (embora eu ainda não tenha reparado no umbigo), em pleno Inverno, o que pode constituir um forte indício de que há um lugar para deixar os casacos.

Outra hipótese é a preguiça. O que não faz sentido: passam-se horas de pé, de um lado para o outro, entre uma multidão aos encontrões, mas ir pousar o casaco é cansativo.

O magnetismo também pode explicar muita coisa: à quinta bebida, o balcão torna-se um íman poderosíssimo, que atrai irresistivelmente a nossa barriga metálica.

Pode ainda ser uma questão de gosto. Estava a brincar. É impossível ser uma questão de gosto.

E assim se passa uma noite: um copo, dois copos, três copos, uma porta de um roupeiro, não, é um braço, uma troca de olhares, um sorriso, uma piada, uma dança parva, uma porta de um roupeiro, não, é um braço outra vez.

Às tantas, o roupeiro estabelece interacção com uma mulher. A coisa promete. Um pouco de conversa e há fortes probabilidades de haver sexo ocasional.

Na hora da verdade, surge uma pergunta: “Eu sei que vamos ter relações sexuais, mas preciso de tirar o casaco e o cachecol?”.

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