Um dia na vida de um cão

O silêncio de um sono profundo. O barulho horrível de um despertador. O Bobby acorda e olha para a cama do dono. Começa um dia, na vida de um cão.

(Mattias Handley/Flickr)

“Não percebo esta gente. Têm aquilo a tocar de manhã, que seca, podiam pôr durante a tarde. Pensando bem, de tarde eu durmo, também ia incomodar. À noite é chato, porque eles tentam dormir. Mas aquilo é uma boa porcaria. Apetecia-me roer aquele despertador. Se não tivesse apanhado um choque, ao roer o fio das luzes do pinheiro de Natal, quando era pequeno, roía-o já. E também já não tenho os dentes de um cão com dois anos. Naquele tempo é que era: roía as pernas das mesas e das cadeiras. Agora, até a comida de cão tem que ser passada. Faz-me lembrar o Farrusco, ali da esquina, que já usa placa. Noutro dia, ficou com os dentes espetados numa bola de borracha. Os gatos brincaram com os dentes dele toda a tarde.”

O dono sai da cama e vai para o banho.

“Os humanos são misteriosos. Inventaram os carros, as naves espaciais, a internet e o telemóvel, mas acordam com uma caixa barulhenta e vão para a banheira, logo a seguir. Nunca percebi para que serve tomar banho. Levar com água no focinho. Os tubarões cheiram a peixe e são os reis do mar. Os ursos não tomam banho e deitam árvores abaixo só com um peido. O leão não toma banho e come zebras. Os humanos tomam banho e têm gripes. Sou só eu a ver as evidências?”

O dono toma o pequeno-almoço.

“Vá lá, dá-me um bocado de pão. Eu sei que faz mal, mas tu também fumas e isso é pior do que pão. Deixa-me os sofás a cheirar a tabaco, ainda por cima. Já não durmo naquele sofá há quase um ano. Se não tivesse ficado mal disposto, quando comi uma almofada, em pequeno, roía o sofá. Vá lá, dá-me um bocado de pão.”

O carteiro toca à campainha.

“Au, au, au, au, au, au… Não sei quem é este gajo, até parece ser útil, porque traz umas cartas e tal. Mas um desconhecido à porta activa-me aqui uma zona do cérebro que me faz ladrar. Olha ali uma bucha de pão, vou só ali… (A campainha toca) Au, au, au, au, au, au… Ladrar a um desconhecido é tipo espirrar muitas vezes: é irritante mas viciante.”

O Bobby vai à rua.

“Vou à rua? Vou à rua! Vou à rua! Vou à rua! Fazer xixi em todos os sítios possíveis. Até em cima de um gato. Assim, o território fica todo marcadinho. E o gato fica a cheirar mal. Ei, olha um gato. Se não tivesse ficado com espinhos na garganta, em pequeno, depois de ter comido um ouriço, comia aquele gato. Não vou olhar para ele, nem ladrar-lhe, para ele ficar… Au, au, au, au, au, au… É mais forte do que eu.”

O dono sai de casa.

“Sou o dono desta casa. Eu é que mando. Posso fazer o que quiser. Posso rebolar no sofá. Roer um chinelo. Posso fazer uma visita ao despertador. Ah, eu é que mando…”

O Bobby dorme toda a tarde. O dono chega.

“Ei, dormi a tarde toda, não aproveitei nada… Espera… Vou à rua? Vou à rua! Vou à rua! Vou à rua!”

Antes de sair, o dono vai ao quarto e vê o despertador no chão. Chama pelo Bobby.

“Ei, merda, vou fazer de conta que estou a dormir… Ele é capaz de nem reparar em mim, aqui no tapete da entrada.”

 Alguém toca à campainha.

“Au, au, au, au, au, au…”

Comentários