terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Pessoas que encontramos no cinema

Apesar de estar em desuso, ir ao cinema tem uma mística especial. É o grande ecrã, o escuro da sala, o som envolvente que nos transporta para o universo do filme, é a miúda gira que está ao nosso lado e a quem cedemos gentilmente o apoio de braço da nossa cadeira (tentando ficar com uma reputação ao nível da do George Clooney) ou a cabeça enorme do espectador que ficou à nossa frente, que nos tapa parte da imagem.

Pensando bem, é só o grande ecrã, o escuro da sala, o som envolvente e a miúda gira que está ao nosso lado e a quem cedemos o apoio de braço.

(m4tik/Flickr)
No cinema há personagens no ecrã e personagens diante dele. Foi destas, que podem calhar ao nosso lado, que decidi falar.

Espectador que ri de forma estranha
Vais ver uma comédia e há um gajo que tem um riso que fica entre o som da hiena e o do porco, passando pelo da baleia e pelo do Chewbacca. A sessão duplica de piada: quando o filme está num momento calmo, ainda há alguém a rir desbragadamente do riso deste espectador.

Espectador que comenta em directo
É uma espécie de IMDb, mas falante. Vai dizendo a filmografia dos actores principais, o problema de luz numa determinada cena ou as inconsistências narrativas do filme. Algo como: “Como é evidente, o Chuck Norris nunca daria cabo de oito gajos em trinta segundos. Ele fá-lo-ia em dezassete segundos”. É como se o cinema tivesse a opção “comentários do realizador”, mas sem ser do realizador. Era mais “comentários de um gajo inoportuno”.

Casal que não vê o filme (tipo A)
Estão duas horas a namorar. Usam o tacto de forma intensa, tocando em tudo o que é zona erógena, trocam fluidos corporais, experimentam uma dezena de posições sexuais, ela atinge múltiplos orgasmos, fumam um cigarro no fim e recomeçam, incomodando todos os espectadores daquela sala e das salas contíguas.

Casal que não vê o filme (tipo B)
Estão duas horas a namorar. Usam o tacto de forma intensa, tocando em tudo o que é zona erógena, trocam fluidos corporais, experimentam uma dezena de posições sexuais, ela atinge múltiplos orgasmos, fumam um cigarro no fim e recomeçam, sem que ninguém se aperceba.

Espectador que se incomoda com tudo
Para ele, o cinema é uma meditação transcendental. Nada o pode perturbar: a respiração do senhor sentado no lugar 32 da fila D, o perfume da senhora sentada no lugar 17 da fila M, o batimento cardíaco do senhor sentado no lugar 8 da fila I. O espectador deste tipo chega a ficar incomodado com a sua actividade cerebral.

Puto que pergunta se aquele é o “Toy Story”, durante uma hora
Ao fim de uma hora, o pai diz-lhe que já vai começar e o puto passa uma hora a perguntar “Falta muito?”.

Falaria de outras personagens, mas o filme, entretanto, acabou.

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