sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

E se as coisas mudassem de lugar?

E se, um dia, acordássemos e os pombos dissessem poemas de Fernando Pessoa, em vez de fazerem cocó nas estátuas? E se eles dissessem poemas, enquanto faziam cocó nas estátuas? Com ou sem cocó, ganhava a poesia e a cultura, em geral. E isso também é bonito.

Bom, isto não vem ao caso, porque o cenário que gostaria de elaborar tem a ver com linguagem, sim, mas não com aves. E se, um dia, os escritores trocassem de discurso com os treinadores de futebol? Teríamos um dia divertido.

(JD Hancock/Flickr)

Treinador a falar como um escritor
A equipa tem que sentir alguma coisa, tem que sofrer, tem que se superar. Temos que transmitir uma mensagem, com o nosso futebol. Temos que representar o nosso tempo, o nosso viver, a nossa alma, enquanto povo. Temos que afirmar uma certa contemporaneidade, no nosso jogo. Temos que questionar o sentido do próprio jogo, quebrando barreiras, avançando, criando. Jogar, hoje, é questionar. O jogo caminha para uma ausência de jogo. O vazio é o único destino.

Escritor a falar como um treinador
Trabalhei bem durante a pesquisa, previ várias situações e tentei evitá-las. Entrei bem na escrita e dominei a narrativa, durante toda a primeira parte do livro. Podia ter chegado ao intervalo com mais páginas de avanço, relativamente ao planeado. Mas, na segunda parte, acusei algum cansaço e não pude contrariar a tendência da história. No fim, defendi com o que pude. Acho que o resultado acaba por ser positivo, tendo em conta as condicionantes.

E se, um dia, os políticos trocassem de discurso com os mecânicos? Seria igualmente divertido.

Mecânico a falar como um político
O teu carro tem um futuro. O teu carro merece um futuro. Fez quilómetros e quilómetros, esteve contigo em momentos importantes. É por isso que lhe quero dar uma segunda vida, um renascer, uma nova válvula de injecção e uma correia de distribuição. O teu carro tem a força para dar a volta por cima e é com isso que vamos encontrar soluções. Vou trabalhar no sentido do progresso. Só preciso que me pagues. Esse é o único voto de que preciso. É aquele que vou honrar.

Político a falar como um mecânico
Oh pá, a economia tá fodida. Esgaçaste isto de uma maneira que eu, em trinta anos de política, nunca tinha visto. Não sei o que andaste a fazer para rebentar com esta merda toda. Aviso-te já que vai ser uma trabalheira resolver isto. E vai ficar caro. Se calhar, nem vale a pena recuperar o país, mais vale comprar um novo. Digo-te isto como amigo. E mais: só vou poder pegar neste país lá para o fim da próxima semana, ando cheio de trabalho. Olha para isto: recessão, 2,5%, défice 9%. Como é que querias que isto aguentasse? Esgaçaste a economia. Nunca vi um país tão fodido. Mas vamos ver o que se arranja. Eu ligo-te, para a semana.

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