quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A revolta do mexilhão

Noticiava o Público online, no dia 4, que “Portugal é o primeiro país mediterrânico com mexilhão sustentável”. Li o título três vezes, para despistar qualquer engano meu. Era mesmo aquilo.

No dia seguinte, a mesma fonte citava Passos Coelho, que dissera que “apesar da crise, quem se lixou não foi o mexilhão”.

Peguei no telefone e fiz todos os esforços para chegar a um contacto: o Texto Incompleto conseguiu uma entrevista exclusiva com o representante dos mexilhões portugueses.

(Dmitry Lyakhov/Flickr)

- É verdade que quem se lixou não foi o mexilhão?

- Não é bem assim. Não está fácil ser mexilhão em Portugal. Um gajo paga os impostos, põe os filhos a estudar e acaba no prato de um turista inglês. Não está fácil.

- Mas, tanto quanto sei, o mexilhão é sustentável em Portugal.

- È o mexilhão grande. O que tem dinheiro. São mexilhões que nascem em casca de ouro. Têm tudo feito para serem bem sucedidos. Metem-se nos partidos e arranjam tachos bons. Nós só arranjamos tachos de restaurantes visitados por turistas ingleses.

- E não houve melhoria, nos últimos anos?

 - Tal como acontece com as pessoas, na nossa sociedade há um sentimento de que só os foleiros se safam. E sabe porquê? Porque os turistas ingleses não comem mexilhões foleiros.

- Qual é o modelo de sociedade que defende?

- A do mexilhão inglês.

- Por causa do serviço de saúde? Do sistema de educação? Da carga tributária?

- Não, porque os ingleses não comem mexilhões da terra deles e vêm comer os mexilhões portugueses.

- Mas só me vai falar dos turistas ingleses? Isto é uma entrevista séria.

- Tem razão, peço desculpa. É importante falar de outras coisas como, por exemplo, o mexilhão que acaba no prato de um turista alemão.

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