Zero, o rato transparente

Um grupo de cientistas japoneses desenvolveu uma técnica que permite tornar praticamente transparentes ratos mortos, para que se possa estudar melhor a relação entre os tecidos.

(Global Panorama/Flickr)

E se a técnica fosse aplicada a um rato vivo? Como seria o dia-a-dia de um rato transparente? Eis a história do Zero.

“Bom dia. Estou numa cama confortável, a menos de meio metro daquele gatinho. Que dorme profundamente e que, quando acordar, vai permanecer muito tranquilo, porque não me consegue ver.

Apetece-me esganá-lo. Mas só estou transparente, não tenho super-força. Vou só correr um bocadinho à volta dele. É melhor não. Ele ainda me acerta com uma pata, sem querer, e depois não consigo fugir. Ainda me dói uma pata, daquela vez que fiquei preso num cano mal arranjado. Dói-me a perna por causa de um canalizador. Não é justo!

Vou até à cozinha… Hmmm, o que temos aqui? Pão, bolachas… Queria algo com mais substância. Ei! Olha ali um prato com feijoada. Que rico! Vou comer com moderação. O meu primo Horácio não pode comer feijão. Incha até ficar como um gato gordo. Depois não passa nos buracos. Um rato que não passa nos buracos é como um computador sem teclado.

Viram como eu percebo de tecnologia? Ser um rato de laboratório tem estas vantagens. Percebo bastante de Astrofísica, Informática e Gastronomia.

Eu sei, eu sei, gastronomia não tem nada a ver com um laboratório, mas um dos cientistas que lá trabalham está a fazer um curso de cozinha.”

O Zero come tudo o que consegue. Depois, vai até ao jardim, onde apanha um pouco de sol. Conta quatro gatos, durante o descanso. Vê um ou outro rato a passar. Chama por eles, só para ver a reacção. Os ratos ficam algo inquietos, ao ouvirem o som de um rato sem verem rato nenhum.

Depois, decide fazer a recolha de alguns alimentos, não vá o efeito da transparência passar e não voltar a ter uma oportunidade para roubar comida.

“O meu primo Horácio, uma vez, ficou mais rápido, depois de comer umas pastilhas que encontrou numa mesa de cabeceira. O burro, em vez de aproveitar, foi dormir. Quando acordou, tinha passado o efeito. O que eu fazia, com super-velocidade. Corria depressa, só para dar um exemplo.”

A recolha foi feita e o Zero voltou ao jardim. Adormeceu. O feijão fez efeito e ele soltou um ou dois gases. Um gato ouviu o barulho e foi ver de onde vinha. Quando Zero acordou, tinha dois gatos junto de si. Fez uma pequena dança, comemorando o facto de estar transparente. Os gatos seguiram-no com o olhar.

Percebeu que não estava transparente. Correu, mas não suficientemente depressa. Estava cheio, do feijão. Horácio assistiu ao triste fim do seu primo.

Sabem quais foram as últimas palavras do Zero? Nenhuma, os ratos não falam.

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