quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Tocar à campainha e fugir

Tocar a uma campainha e fugir é das actividades mais divertidas da vida. Já não faço isso, o que não deixa de me revoltar. Só porque ficamos adultos, qual era o mal de, de vez em quando, podermos tocar a uma campainha e desatar numa corrida desenfreada, como se estivéssemos a fugir de um zombie, de um pitbull ou do Chuck Norris?

(Neste último caso, desiste: o Chuck Norris não corre atrás de ninguém, roda o Mundo como se fosse uma passadeira do ginásio até apanhar a pessoa.)

(Tom & Katrien/Flickr)

Claro que houve brincadeiras mais formadoras de cidadãos exemplares. Jogos de futebol ou sessões de “chapada à antiga” formaram a nossa personalidade e aumentaram a nossa agilidade, mental e física. Mas, quando não havia mais opções, tocar à campainha era a solução. Esta actividade era como aquele documentário sobre preguiças, que ninguém quer ver, mas que se torna opção quando nenhum outro canal está a dar algo interessante. (Um documentário sobre preguiças mostra as várias formas de dormir deste animal.)

Tocar à campainha e fugir era uma forma de passar o tempo. Era isso ou estar quieto. Até uma certa idade da nossa vida, estar quieto é estar doente. Depois, para alguns, estar quieto torna-se uma filosofia de vida. (Mas essas pessoas não gostavam de tocar às campainhas.)

Tocar à campainha e fugir é como o “Ocean’s Eleven”, mas sem o glamour de Las Vegas. Há um planeamento.

- Em que campainha tocamos? Na da velhinha do 2.º Esquerdo?

- Não, essa senhora é fixe, devolve a bola quando vai para a varanda dela.

- No gajo do 4.º andar?

- O meu pai diz que esse gajo é cinto negro de Karaté e Judo.

Depois disto, há uma segunda opção a tomar: o momento de tocar. Isto porque, caso um dos amigos não se aperceba do golpe, vai ficar parado em frente à porta do prédio e vai ser ele o “culpado”.

Depois, a melhor parte: a fuga. A adrenalina. A alegria de se ter incomodado alguém. Um joelho esfolado: havia uma casca de banana no chão e um dos nossos amigos não reparou. Nós, que só pisámos cocó de cão, nem nos sentimos tão mal por isso. O joelho esfolado é pior do que cocó de cão. Menos no cheiro.

Vem a isto a propósito dos russos, que andam com aviões e submarinos a tocar às campainhas de vários países e a fugir. Dizem que os russos são maus, mas afinal até parecem divertidos. Só estão a cometer um erro: meter-se com Portugal.

Nós somos o gajo do 4.º andar. Cuidado.

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