Pessoas que são pagas para ensinar a viver

Tenho grande admiração por uma área cujo nome diz muito sobre a sua espectacularidade: “coaching”. Se traduzirmos esta palavra, resulta algo como “treino” ou “instrução”.

A área do “coaching” que mais me fascina é o “coaching da vida, em geral” (esta designação, provavelmente, não existe, mas acho que assenta bem, pelo que a vou manter). São pessoas que nos ensinam a viver.

(halfrain/Flickr)

São pagas para dar conselhos sobre a vida. Algumas, bem pagas. São, por isso, pessoas que sabem como se vive. Pessoas que sabem controlar as emoções. Não se chateiam com o trabalho, não se chateiam no trânsito, não dizem “P*$% que pa#$&!”, quando se queimam numa panela ou quando pontapeiam, apenas com o dedo pequeno do pé, a esquina de um armário.

(Toda a gente sabe que um ser humano provido de vida diz todos os palavrões que consegue nestas duas situações. Existem, também, seres humanos que dizem todos os palavrões que conseguem em todas as situações, mas isso é outra história.)

As pessoas do “coaching” nunca se apaixonam pela pessoa errada. Sabem ser compreensivas. E atenciosas. E pacientes. E que nunca se chateiam quando alguém os desrespeita.

E sabem arranjar o carro e mudar um pneu, numa situação de emergência, mas isso é porque têm um tio que é mecânico.

São pessoas que sabem que a vida é feita de blá blá blá e que os seres humanos têm um comportamento que se define pelo gráfico da função x = (x^2+2x+sen98*cos78*√5784357498574398537)/2. (Caso não descubram o valor de x, vejam a solução na página 548.)

Estas pessoas são pagas para nos ensinar a viver. Direitinho. Sem tropeçarmos. Estas pessoas são como aqueles jogadores de videojogos que sabem os truques todos para não perder vidas e para passar aquele nível difícil.

As pessoas do “coaching”, quando comem um iogurte estragado, não ficam muito mal da barriga e dos intestinos. Porque sabem lidar com isso, com calma e com ponderação. Sabem encaixar os problemas e sair deles sem mazelas.

Ou então, borram-se todas, como nós. Mas sem deixar cheiro na casa-de-banho.

Se fechássemos todas as pessoas do Mundo que fazem “coaching”, numa casa, das duas, uma: ou descobriam o sentido da vida ou matavam-se, na ânsia de mostrar que sabiam o valor de x.

Se alguma tivesse comido um iogurte estragado, ninguém daria por isso.

Comentários